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maio 16, 2009

Foi a 15 de Maio de 1964



Fez ontem 45 anos. O fabuloso Cantinho do Morais, que deu a taça das Taças ao Sporting. Parece que a terra estremeceu e verde se tornou.

maio 04, 2009

"Já tenho uma certa idade"?


Após um bacalhau com todos, acompanhado de um branco simpático (e mais qualquer coisa depois), entremeado com dois ou três singelos pensamentos, paralelos ao sonho, e alguns cogumelos televisivos de passagem, eis que:

As minhas primeiras emoções haviam sido de pura melancolia e da mais sincera piedade; mas à medida que o desamparo de Bartleby crescia e se desenvolvia na minha imaginação, essa mesma melancolia transformou-se em medo, aquela piedade em repulsa. Tão verdadeiro ele é, e tão terrível também, que até certo ponto o pensamento ou o espectáculo da miséria ganha o melhor dos nossos sentimentos; mas, em certos casos especiais, para além desse limite não. Erram quantos afirmam que tal se deve, invariavelmente, ao egoísmo inerente ao coração humano. Antes tem a origem num certo desânimo, incapaz de remediar um mal excessivo e orgânico. Para um ser sensível, a piedade é, não raras vezes, sofrimento. E quando finalmente entende que uma tal piedade não pode levar a uma efectiva ajuda, o senso comum obriga o espírito a ver-se livre dela. O que eu vira naquela manhã persuadiu-me de que o escrivão era vítima de um incurável e inato desconcerto. Podia dar esmolas ao corpo, mas não era o corpo que lhe doía, era a sua alma que sofria, e essa alma eu não a alcançava.  

"Bartleby", Herman Melville, Tradução Gil de Carvalho

março 11, 2009

Recordação em solilóquio mudo

Não é por obra do acaso que aprecio andar sozinho. Em primeiro lugar as conversas são mais interessantes e em segundo tenho quase sempre razão. Uma vez encontrei o César Monteiro nas escadas do cinema King em Lisboa e aquele olhar ressumava a “deixem-me sozinho” misturado com o pessoano “ não sou de companhia” e um outro a lembrar “ se fores gaja e novita, vá lá, podes dar uns gritinhos”. E pedir uma romã. Também acontece ter-se que ficar na casa de um amigo, vá lá, uns tempos, mas amigo que é amigo, ou melhor, amigo é a mesma coisa que um gajo estar sozinho a dobrar, e gosta disso, e ainda assim não dá para desenvolver esta ideia. Amigos e livros e espelhos. Recordo-me de um (amigo) em Coimbra. Nuno L. de sua graça. Batia o pé ao escutar aqueles trengos dos AC/DC, enquanto descolava as páginas de uma Gina usada. Bebíamos à tripa forra e depois abalávamos rente à berma até à Figueira da Foz, ver o mar e comer percebes. Outras vezes na demanda da Figueira desaguavamos em Espanha, outras em Viseu com direito a prova de vinhos e enchidos e queijo (não necessariamente por esta ordem), mais ou menos como no livro do Venedikt Erofeev, De Moscovo a Petuchki - a Lucidez de um Alcoólico Genial (1995 , Cotovia), em que o tipo sempre que procurava o Kremlin ia dar de ventas com a estação de Kurst. Nem todos tem a sua Figueira pois não?...

março 09, 2009

Estreito de Magalhães

Não tenho por hábito lançar a primeira pedra. Nem a segunda ou a terceira. Sucede que ao contrário da rainha, tenho o direito apenas de lançar a última, que se revela (como nos refere o cabeçalho do anjo) inútil. Serve esta (a última) para arrojar à cabeça do sr. Magalhães, protótipo azulado incrementado pelo sr. Eng. Dezenas de erros, daqueles denominados de “ortográficos”, acompanham a saga de uma machina que já inspirava cuidados no seu software (pornografia versus ortografia). Acresce que ninguém conseguiu enxergar, durante todo o processo, desde a realização e instalação do programa até ele chegar às mão das criancinhas, nem os erros de palmatória, nem a possibilidade, nada remota, de visualização de vários filmes daqueles com rodinha 28 no canto superior direito do ecrã. E nisto nem veio a polícia, entretida que estava por Braga a manter a ordem e o pudor. Da ortografia nem se fala. Basta escutar o sr. Lello, um dos fiéis escudeiros do sr. Eng, para perder toda e qualquer esperança de encontrar massa encefálica nem que seja esborrachada pelas paredes. Ainda bem que toda a gente agora tem o 12ºano e até vai coçar a mioleira para a Universidade. Só falta substituir o anúncio antigo:

"Se tens a 2ª classe e atrais as moscas junta-te a nós” por ”se tens o 12º ano, frequência universitária, mestrado ou afins e, naturalmente, se empolgas as moscas, junta-te a nós!"

fevereiro 19, 2009

junto ao osso

A minha camisola de manga curta nova

Depois lembrei-me que os Smiths até têm uma música (creio que se chama "That Joke isn’t Funny Anymore") em que o Morrisey canta com indolência a queda, a sua e a dos outros. Ele viu-os. Por isso já nem é anedota e por certo não terá piada pois é demasiado perto de casa (lar) e junto ao osso. Ia a pensar nisto quando me ocorreu que já tinha pão em casa, logo não precisava de ir à padaria, e que todos estes pensamentos, afinal, me recordavam outras caminhadas sem norte que as valha. Decidi continuar quando reparei que a minha t-shirt nova (que não largo há 3 dias) se enquadrava bem neste passeio labiríntico que é a vida. Pensei em Sebald, nas suas intermináveis caminhadas, nos seus medos e nos encontros e desencontros da sua escrita. Mais uma encruzilhada e de repente tudo coincide num ponto. Chegado a casa optei por adiar a sandes estratosférica que ando a congeminar, devidamente encaixada numa base de dados de sandes que estou a criar e a compilar para quando concretizar o sonho de ter uma roulote de comes e bebes com música e biblioteca chamada “Andanças com Heródoto e Borges” (o nome é roubado). Dizia eu que adiei a sandes e abri um livro e li: Para onde vão eles, os mortos de Buenos Aires e São Paulo, da Cidade do México, Lagos e Cairo, de Tóquio, Xangai e Bombaim? Um mínimo, talvez para a cova fria. E quem se lembra deles, quem se há-de lembrar? Recordar, guardar e conservar, escreveu Pierre Berteax já há 30 anos sobre a mutação da humanidade, só teve uma importância vital num tempo em que a densidade da população era baixa, poucos os produtos que fabricávamos e só o espaço era abundante. Não se podia prescindir de ninguém, mesmo depois de morto
Isto escreveu-o W.G. Sebald num texto denominado Campo Santo, que faz parte de uma compilação homónima editada pelo teorema. Decidi voltar à confecção da sandes. 

fevereiro 03, 2009

dependurados

Por acaso até vi os primeiros minutos do programa da dona Fátima Campos Ferreira. Mas não vale a pena sequer tentar explicar aquilo. No Porcalhoto a criançada esboçava um ar sério propício ao bocejo, mas aguentava-se sem implorar para mudar para os Apanhados ou coisa parecida na SIC. No dia seguinte teria que assinalar posição, já se sabe. Eu, supostamente distraído com a leitura dos classificados, essa espécie de organismo inválido parente do centro de emprego, mantinha-me langorosamente nas mesmas páginas, ora para trás, ora para a frente, já que a meu lado o Sr. Alberto Sapateiro espumava por ler a secção da necrologia pertencente ao mesmo caderno. Entretanto, sobre a actualidade, acompanhada a par e passo e a cada minuto na comunicação social, dos despedimentos, apenas ultrapassada pelos directos sobre as condições atmosféricas, deixo-vos um texto que encontrei no Georden.

janeiro 25, 2009

para além disso estava frio e o quarto vestia um papel de parede encarnado como nos filmes do Lynch

“Ainda pensei que o velho tivesse a alma do crime”. Sim, foi isso que ele disse. Perguntei “alma do crime?..”. “Sim, e a voz atrás do cigarro, claro”.  

Conversas surrealistas com Alfredo.

janeiro 17, 2009

a clara concordância de uma ilha

Dizia o Alfredo para os seus botões (ruidosos), alheado da realidade, e valorizando o desconhecimento do mundo como uma das belas artes, que trinta e sete invernos bastam para renunciar à análise custo/beneficio da concretização plena de uma vida. Depois, ou já antes, os botões ter-se-ão recusado a desmistificar a conjuntura actual perante cenários ímpares, ou mesmo pares, atestando um desdém enorme pela crise, entre outras coisas, não gerando, dessa forma, força suficiente para uma comemoração, a qual, dir-se-ia, extemporânea. Ia-me matando (nas questões de fundo). E noutras, claramente. Apenas retorqui, não sei bem se para os botões dele se para os meus que se tratava de o sentimento de um acidental… 

New Order, "Ceremony"

dezembro 23, 2008

andamos assim mas podíamos andar assado

Novas aquisições da casa, já desfloradas, ou previamente desfloradas, algumas são repastos antigos em falta na prateleira. Contam-se cinco novos livros da(s) especialidade(s) (sendo que, com tomates, toda a gente os poderia ler), mais alguns dicionários e “Salónica Cidade de Fantasmas – Cristãos, Muçulmanos e Judeus de 1430 a 1950”, de Mark Mazower com a chancela Pedra da Lua, numa excelente e cuidada edição de 2008; “Boris Vian por Boris Vian, Palavras e Aforismos”, edição da Fenda, onde o autor (por quem sempre tivemos considerável apreço) observa que “há duas maneiras de enrabar as moscas: com ou sem o seu consentimento”; mais um Dostoiévski, “O jogador”, edição de bolso resultante de uma colaboração inédita (e em conta) entre editoras portuguesas, a Assírio & Alvim, a Cotovia e a Relógio D’Água, da qual já tenho outros exemplares, entre os quais a “Íliada” de Homero, traduzida do grego por Frederico Lourenço, sem notas adicionais, o que exige, algum trabalho, dedicação e alguma glória, como com o Sporting. Destaca-se ainda um volume em falta (entre outros) encontrado por acaso e baratinho da “Nova História da Expansão Portuguesa – O Império Africano 1891-1930” coordenação de A.H. Oliveira Marques, direcção de Joel Serrão e Oliveira Marques, e “ A Europa e o Mar” de Michel Mollat Du Jourdin (este tipo tem nome de templário), da Editorial Presença, colecção dirigida por Jacques le Goff. Ah, e umas coisas em alemão para armar ao pingarelho. Poderiam ser sugestões. Poderiam. Mas não estamos aqui para sugerir nada. Para o Natal, que por acaso é depois de amanhã, pediu-se (para além da volta do menino Jesus) uma série de livros (e revistas) porno, edições javardas e antigas. A Internet tragou todo o glamour da pornografia, para além do facto de não propiciar ou permitir a colagem das páginas, como outrora...

dezembro 21, 2008

hoje amanheceu assim

Apesar de o impacte de Schopenhauer neste blogue ser cada vez menor, isso não compromete em nada o pessimismo constante a que o seu autor está sujeito ou, pelo menos, não o (des)acentua ou desobriga de alguma forma, sendo que o contrário também poderia ser considerado verdade. Eu também sei de coisas, que diabo. E apesar de tudo não vou ao psicotécnico

dezembro 09, 2008

hoje o dia foi assim

 Monty Python

e a carpete, seguindo as directrizes do sr. Tom Waits, parece que precisa de um corte de cabelo. É de assinalar, em sequência passada e com repercussões, que o piano andou a beber (muito): não fui eu…não fui eu…

dezembro 05, 2008

“ a little riding, driving, eating, etc. (not forgetting smoke) fill up the day"

A frase título é de Edward Fitzgerald (citado por Sebald), por acaso um sr. inglês que traduziu no séc. XIX as "Rubaiyat" do poeta persa Omar Khaiyam (1048-1131). Encontrei uma vez num alfarrabista de Coimbra as “Odes ao vinho” um estrato (pensei à época) do longo poema traduzido (provavelmente do francês e muito provavelmente pouco consoante com o original), e fui a correr para casa (enquanto lia em andamento o que não é fácil, pior só mesmo correr depois de beber muito absinto), onde me fechei, sem saber muito bem porquê, mas tenho essa tendência para “fechar”, lendo vorazmente as cerca de (acho) 30 páginas e à noite, ainda a correr, lá me emborrachei com o sr. Omar. Se fosse hoje, com esse nome, ia ser difícil. Acresce que o sr. Omar também foi matemático, filósofo, astrónomo e frequentador de cortes, para além de ter conhecido alguma malta da famosa seita dos “Assassinos”, mas isso é outra história. Podem igualmente encontrá-lo no romance histórico "Samarcanda" de Amin Maalouf. Já agora sobre os “Assassinos”, podem consultar “Os Assassinos” de Bernard Lewis e ler “Alamut” (a sua famosa fortaleza) de Vladimir Vartol um sr. Esloveno com nome de basquetebolista amador. A tradução das Rubaiyat até está na net, vejam só, aqui. Quase me esquecia, a música da caixinha é Scarlet Arch dos srs. "And Also The Trees" e o som, como podem verificar, é muito semelhante ao das minhas cassetes antigas, algumas aliás, mais velhinhas que o tema. Guardo-as com muito carinho, muito mesmo, até que a fita desfaleça e rompa, como tudo na vida… 

dezembro 02, 2008

Dezembro é um mês evidentemente amargo

E por assim dizer castiço. Aos repelões açordam-se os javardos na lareira dos centros comerciais e outros acotovelam-se nas ruas direitas deste país a babar-se constantemente para as vidraças translúcidas onde maduram os manequins e as meninas tutti frutti. Finalmente, depois de muito caminhar, uma rua… duas memórias de árvores recebem a mijadela atenta de um canino e seu dono. Ofegante, sento-me e observo um velhote a ler as notícias da semana passada, onde se enxergam em fundo baço numerosos destroços e alguns corpos estendidos, ou o que deles resta. Parece que essas ruínas e corpos, a mim pareceu-me pelo menos, não são (ou não foram) encaradas da mesma forma que outras ruínas e outros corpos em chãos diferentes, noutros locais. Talvez seja uma questão de proximidade ou de indiferença; talvez não passe de um lugar comum esmiuçado às postas em Telejornais com a duração de longas-metragens. Pensava nisto e já caminhava. De repente uma tristeza que ainda não era bem angústia percorreu-me a espinha, “a realidade ultrapassa qualquer ficção”, disse, creio que em voz alta. O rapazinho que me seguia com o olhar sorriu e abanou a cabeça ligeiramente, à laia de coitadito, exactamente da mesma maneira que um outro o fez há uns anos quando caí, a vinte à hora, de motoreta. Foi perto do mar e o rapaz olhava-me e oscilava a cabeça do alto do seu triciclo. Já refeito, relembrei uma frase de um texto do Alfredo: Essa tristeza que não é bem angústia e ninguém a colhe em seu seio. Quando finalmente aterrei na padaria já não tinha tanta certeza de ter vivido aqueles momentos, deambulando ao acaso no crepúsculo, nem sequer que Alfredo alguma vez tivesse escrito aquela frase. Ocorreu-me Dylan Thomas, não sei porquê, talvez pelo “em seu seio” e pedi três pães de água e uma Bohemia. “Bohemia não temos”, ainda escutei, seguido de um “não há direito, aquele golo anulado ao benfica”. Saí de campo com letra pequena e agarrado, por uns segundos até suspenso, ao cordel invisível que nos suporta a vida.

novembro 21, 2008

não será exagerado afirmar que

um vago castanho trémulo conspira em diatribes vestindo as árvores lá fora. Tendo por hábito (ou vício) ler várias obras ao mesmo tempo, e necessariamente de temáticas diversas, foi sem surpresa que detectei um outro fenómeno sub-reptício embora a ele inteiramente ligado. As leituras “variadas” são consequência (esperada) e prolongamento dos livros espalhados entre envelopes, canetas, jornais e, por exemplo, pastas de chocolate preto; associadas a uma curiosidade mórbida prima da angústia que sentiu uma vez Almada Negreiros ao entrar numa livraria ou biblioteca. O fenómeno é outra coisa. É um poder infinito associado a um conjunto de ligações e matrizes que acompanham os livros desde sempre. Isto sem falar das referências, das semelhanças, do permanente reescrever e das viagens. À bulha com “Os Emigrantes” de Sebald, entrelacei-o sem saber muito bem porquê, com outra (sua) obra “Os Anéis de Saturno” a que já aqui aludi. Facto é que esta me terá levado a Thomas Browne (o qual dificilmente se encontra aqui no burgo) e a Bioy Casares num jantar com Borges e espelhos e uma enciclopédia e Uqbar. Hoje, olhando esse “vago castanho trémulo” abri num acaso de milénios o livro “Ficções”, com a chancela da Teorema, e lá está o primeiro conto (que eu havia lido na Obra Toda, editada parece-me, pelo Círculo de Leitores) denominado “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”. Leio que Hume notou definitivamente que os argumentos de Berkeley não admitem a menor réplica e não causam a menor convicção. Este ditame é absolutamente válido para a Terra; absolutamente falso em Tlön.
Sobre o conto que entrelaça vários mundos, enciclopédias, espelhos e biografias, procurem-no e nunca mais vão parar. Quanto à citação, aqui na terra de hoje, teme-se pela sua veracidade opaca mas terrivelmente vazia.  

novembro 19, 2008

na demanda do labirinto antigo

Por acaso estou farto de coisas que não nos fazem falta. E mesmo com os livros, exceptuando uma mochila maior, não pretendo encenar uma grande biblioteca. Conquanto, como é sabido, esta cresça para além do desejável, já que nada há a fazer contra o meu amor aos livros. Apesar disso “tenho todos os sonhos do mundo” e talvez por isso me custa observar o estado de degradação, para não falar de inapelável morte, do famigerado tupperware que nos aconchega e agasalha nestes dias. Nesse sentido, não é inédita a roupagem de algumas palavras. Como “democracia”. Esta à força de tanto ser “mimada”, repetida, aflorada, “sugerida”, defendida e patenteada, tornou-se presa fácil dessas nobres luminárias que nos pastoreiam os dias. Perdeu o sentido, ou ao repetir-se redunda num sinistro nada. Acontece o mesmo com outras, a saber: ambiente, património, desemprego, emprego, felicidade, consumo. Dir-se-ia que, de forma já não velada, se aculturou, parafraseando Baudrillard, o tupperware na totalidade. Vejam bem, a coisa já não é do domínio do fantástico, da ignorância ou da prostituição faminta das actividades. Já não é fantasmática, ou se quisermos, um conto dentro do conto. Já não existem barricadas, pois não?, bem o sabemos, ambos os lados ou mais, incorporados no mesmo invólucro, sofregamente necessários e dependentes, na realidade estruturados (muito bem estruturados) por ligações sanguíneas e jamais os elos de antigamente. Já não se trata de uma projecção. É tudo o que temos. Até isto que escrevo e mais o acrescento: às vezes um homem sente-se emparedado por ruínas.

novembro 15, 2008

o abismo para além da porta

Custa-me pensar que alguém escreva, sem contar com o meu colega gato, “àcerca”, sem uma cerca por perto, num livro de “aconselhamento” académico. Não sei onde, mas algures, deve encontrar-se o último traço da cerca e, amiúde, vários jovens sobem à última árvore. Enquanto colho as tangerinas, diospiros e castanhas, e mais além salto uma fogueirita, sonho com o prazer imenso e irrazoável do dias a dias. Entretanto os livros estão pendurados na corda de secar. Recordo a sobremesa com ênfase no Fernando Pessoa e seus amigos imaginários. Por lá terão passado desapercebidos, Baudelaire, Whitman e o sr. Rimbaud, sem contar com a madame Bovary e o porteiro das desoras com o Sr. Borges a tiracolo. Nem o Yeats conseguiu assomar. Pudera. Fiquei nas Berlengas da tasca com o Cesário de sempre:

E eu desconfio, até de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das cruzes,
Chora-me o coração que se enche e se abisma.

novembro 11, 2008

os dias de Saturno


"Melancolia", Dürer

Após o que me pareceu ser uma curta voltinha de bicicleta, pensei, embora sem fé que o sustentasse, dar à posta algo sobre as lombrigas que nos trespassam por estes dias. Os poleiros e outros abrigos redundam em silêncios opacos e gazeteiros pasmados. A polémica do sr. Pinho e da Sra. República da Madeira levaram-me, contudo, em contramão durante praticamente 500 metros e algum passeio à mistura. Irremediavelmente sem encontrar a padaria, pensei em voltar às pilhas de papéis, sim, porque algures entre milhares de papéis, ao que parece pilhas e pilhas a forrar um escritório, é Sebald quem nos revela, a páginas tantas do seu “Os anéis de Saturno”, encontra-se Janine sentada, completamente rodeada de papéis e livros, e a dado momento, parece a Sebald estar na presença do anjo da "Melancolia" de Dürer. Tudo isto me recordou um escritório no monte, lá longe, e também um barracão por onde se chegava da casa ultrapassando um pequeno matagal a que chamavam jardim, cheio de ferramentas, discos e malas de viagem repletas de livros de banda desenhada e de Cowboys. Se calhar, não me recordo, seria muito provável vislumbrar-se um anjo da melancolia.

novembro 06, 2008

Por exemplo: a tristeza no olhar…

Apercebo-me, algures, no lastro dos dias, que nos mapearam os afectos. Para além disso rompi superficialmente o dedo e filosoficamente perdi sangue. As crises, à escala da dependência global, questionam as instituições. Agora, e se calhar ontem, o sentido escorre numa promessa de regular uma tal de globalização. Na padaria diz-se que sim. Quando estas coisas ganham um nome arriscamo-nos a ser por elas violentamente esbarrados, sendo certo que estas acabam a servir de suporte ao reportório sem fundo dos políticos. Crise é outra das palavras. Em certa medida, um trajecto retórico sem substância, e independentemente de questões normativas, redundando num futuro inútil do resto; um constrangimento, como se diz na televisão, dependente do “apaziguar” ou do “correr mal” num desafio “difícil” da “ilha das cores”. Uma comichão na omoplata. 
Eu também vi um sapo a rasgar horizontes: numa iniciativa de afectos, com marcação homem a homem, normalmente num campo de batalha, ou como se diz, no teatro de operações. 

outubro 31, 2008

Novas oportunidades, benefícios e aprendizagens – estou aqui para passar o tempo e não matar ninguém: bruxo!

O sermão para as criancinhas grandes cá no nosso “burgo” ainda vai a sair para o adro. Melancólicos (os avinhados do Eça para não saltarmos mais atrás) julgam-se por estes dias “modernos”, “informados”, “livres”, “sinceros”, “inflamados” e com abertura suficiente, parece-me, para encaixar com glória o repasto que lhes é servido, obviamente porque o merecem. O que mais me impressiona é aquele olhar perdido, húmido e fatídico usado pelas nossas criancinhas grandes nas conversas. É claro que a sua religiosidade é branda e celebrada na instalação fantasmática do sr. Eng., com as propostas adjacentes e os trabalhos a solo das recriações tranquilas, retiradas do estrangeiro e com direito a estrangeirados actuais. O culto recorda-me, para não exagerar muito, a frase bacoca de um viajante estrangeiro no Portugal de setecentos, o sr. Saussure (estes eram muito tendenciosos e “civilizados” mas às vezes…), quando este observava toscamente que os portugueses “embora completamente ignorantes, gostam de se fazer passar por sabedores”. Na padaria, uma velhinha criança, reclamava a nossa atenção para as dádivas “à banca…à banca, com o dinheiro do povo”. Já o sr. José, divagava com primor, pelas avenidas avinagradas da política. Depois da matiné do pãozinho santo recolhi-me sem demora e, contra as prerrogativas em vigor, não enlouqueci.