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abril 13, 2020

Isolamento (XVI)



(Agora mesmo, na rádio, The Velvet Underground: sunday morning…)

Números, estatísticas: fechados em casa, 14% dos portugueses passaram duas semanas sem sair, lê-se no Público de hoje. É muito papel higiénico.

A pandemia resultou da desterritorialização, é a manifestação extrema da doença tecno-capitalista que há mais de dois séculos se infiltrou nas sociedades humanas, escreve José Gil (Público). Ensaio uma saída de fininho da subjectividade digital.  

Rastreio digital:
Catedral vazia de fiéis mas repleta de cristo (Correio da Manhã)
Costa às compras sem os receios de Marcelo – Vídeo mostra Costa a levar a mão ao nariz (Correio da Manhã)
Soltos pelo vírus (Jornal de Notícias)
(sem comentários)

O bairro é o mundo. O stock de mal-estar não é ilimitado.

A propósito: O presidente Marcelo Rebelo de Sousa já falou com Luís, o enfermeiro de Boris Johnson (Expresso online). A GNR identificou promotores do “beijar da cruz” em Barcelos (Público online). Sem sugestões.

Uma palavra para 2020: confinamento. Em todos os sentidos. Incluindo o gosto.

março 31, 2020

Isolamento (notas)


 Hieronymus Bosch - A Morte e o Avarento (1494)

"La pandemia de estos días encaja en el segundo apartado, el de la fragilidad de nuestro cuerpo, pero es evidente que comunica con todos los demás, incluido el apartado último, el que habla de monotonía al vivir, aunque, a decir verdad, cuando se vive como en estos días en un pronunciado riesgo de muerte, ese sentimiento de monotonía puede incluso parecernos ridículo, aunque lo más probable es que sigamos desperdiciando buena parte de nuestra vida en futilidades. ¿La causa de esa propensión a tirar tanto el tiempo y a malgastarlo encima en una gran cantidad de ocupaciones tontas, como, por ejemplo, llevar una bitácora-tostón de nuestro confinamiento? Que seguimos teniendo tendencia a ir viviendo como si tuviéramos que vivir siempre y no dispusiéramos ni de un segundo para acordarnos de que hemos de morir, una realidad que estos días, de todos modos, aflora cada vez con mayor potencia, para sorpresa mayúscula de muchos." (Enrique Vila-Matas, aqui).

"O nosso presente não é o confinamento que a sobrevivência nos impõe, é a abertura para todos os possíveis. É sob o efeito do pânico que o Estado oligárquico é forçado a adoptar medidas que ainda ontem declarava impossíveis. É ao chamamento da vida e da terra a restaurar que queremos responder. A quarentena é boa para a reflexão. O confinamento não abole a presença da rua, reinventa-a. Deixai-me pensar, cum grano salis, que a insurreição da vida quotidiana tem virtudes terapêuticas inesperadas." (Raoul Vaneigem, aqui por aqui)

novembro 12, 2018

De borla

(na lata)

Sobre o (suposto) trabalho voluntário, uma onda trendy muito em voga, que sustenta a "eventologia" (termo cunhado por Alain Bourdin) que pastoreia os nosso dias, entre festivais, eventos (supostamente) desportivos, sociais, tecnológicos, servidos à mesa por jovens (e menos jovens) de alma vaga, à procura de um lugar ao sol, devidamente peneirados. É um mundo de exploração sustentado pelos impostos de todos. Ou, pelo menos, de alguns. Duas crónicas recentes chamaram-me a atenção:


 - Não vás ao engano; de Henrique Raposo (sim, do Henrique Raposo)

A minha tese de doutoramento (onde vai ela???), seria sobre isso: o nosso mundo é um evento, ou um parque temático, se quiserem. Talvez um dia. Mas não de borla. 

abril 13, 2018

Terra de ninguém


(detalhe de "Sonho de uma tarde dominical
na Alameda Central" - mural de Diego Rivera)

Sobre cidades moribundas, homogeneização e gentrificação dos centros históricos, sua museificação a olhos vistos; sobre a parque tematização dos espaços históricos, enjaulados num cenário que os recria em segunda mão, já muito disse e escrevi, disso tentei (ingenuamente) fazer vida, ou quase, não fosse a graça da má sorte, desvarios vários, algumas caminhadas, e ainda por lá andaria. Livros, alguns com décadas, anunciam a boa nova, por exemplo: “Simulacros e Simulação” de Baudrillard, ou “O Direito à Cidade” de Lefebvre, que hoje António Guerreiro também refere num artigo publicado no ÍPSILON (jornal Público), denominado "A morte da cidade". Artigos, estudos, papeladas, a rodos. A Academia debruça-se sobre o assunto entre dois coffee breaks.

Sobre a (digamos assim) temática, aqui deixo dois textos (mansinhos) do Público de hoje. O já citado:

Agora vou ali dar para outro peditório.

março 11, 2018

O paraíso das roçadoras



Não, não se trata de um filme porno, mas parece que ninguém sabe ao certo até onde e quando deve ir a roçadora. Enquanto chove as costas folgam. Esperemos que desta vez não se sacuda a água do capote. Entretanto, ficamos a saber de um resgate muito apropriado para aconchegar as nossas  consciências. A coisa, parece, teve honras de espaço televisivo. Como não poderia deixar de ser. Lá fora, e nos nossos cafés ao balcão, não se fala de outra coisa: a lista dos mais ricos do mundo, segundo a forbes. Parece que o número de bilionários saltou 18% para 2.208 pessoas, contra 2.043 no ano passado. Duas mil, duzentas e oito pessoas. O Pavilhão João Rocha sem casa cheia, ou uma boa casa para o Belenenses num dia de sol. Somadas, as fortunas, dão para um gajo arranjar um problema sério na hora de pagar a renda da casa, ou de dar uma gorjeta. Todos os anos levamos com este festim de empreendedorismo jocoso. Talvez porque, ao contrário dos cifrões, se tivéssemos que contar as pessoas do outro lado da balança, a cifra resultante tivesse que ser devidamente aconchegada por mais uns quantos resgates caninos. 

setembro 10, 2017

leituras



É improvável que “O Capital” seja muito lido em Sunderland ou em Greenwich Village: passámos das simplificações em panfletos para os despropósitos no Twitter. O dilema de Marx subsiste um século depois da revolução bolchevique, dois séculos após o seu nascimento e no limiar da revolução cibernética. De um lado, a fecundidade do capitalismo global na criação de riqueza. Do outro, a forma assustadora como reduz o trabalhador a um fragmento de homem e o arrasta com a mulher e os filhos para debaixo do rolo compressor.

David Reynolds, “O difícil legado de Karl Marx”, in New Statesman – Londres

No meio do marasmo editorial português, valha-nos esta colectânea de textos (de várias fontes) com a cortesia do Courrier Internacional

agosto 28, 2017

O nosso mundo é um parque temático


"Aquela que é a fronteira mais militarizada do mundo é um verdadeiro museu a céu aberto para turistas, com observatórios, túneis, memoriais, checkpoints e povoações com importância histórica. Desembolsando um pouco mais [de dólares], há a possibilidade de alguns tours serem feitos na companhia de um desertor norte-coreano."
"Sonho distante", artigo sobre a península coreana,  in jornal Expresso (26-08-17)

Por um punhado de dólares, temos assim acesso a um parque temático, não fosse aqui a simulação, uma manobra, uma ficção,  em muito ultrapassada pela realidade dos factos. Uma península dividida há setenta anos. O mundo à beira de um ataque de nervos, com as sucessivas ameaças nucleares da Coreia do Norte, devidamente inflamadas pelo lança chamas Trump. É um cocktail digno do nosso disney world, não fosse a chatice de uma ou outra bomba poderem rebentar mesmo. Queremos estar lá para ver?


agosto 25, 2017

Que fazer quando tudo arde?


O fogo e os espalha brasas dos jornalistas. O fogo e os espalha brasas dos comentadeiros a soldo. O fogo e os espalha brasas dos políticos. O paiol que afinal era um ferro velho. Mais espalha brasas. A praia: uma brasa. O campo: um braseiro. Mais jornalistas. Ali ao lado o Trump lança-chamas. O pote das migas Coreano brinca com um isqueiro. Queimam-se etapas para as autárquicas. Cheira a esturro. Os aceleras fanáticos passaram em Barcelona, diz que num dia que estava uma brasa. Que farei quando tudo arde*?

(*Sá de Miranda)

junho 19, 2017

E agora?


Não há rigorosamente nada de novo a dizer. Já tudo foi estudado, explicado e escrito na última década e meia. Houve comissões para todos os gostos e feitios. E foi feito muito trabalho sério. Faltou tudo o resto. Faltou pôr a tratar de incêndios florestais quem percebe de floresta. Faltou integrar prevenção e combate. Faltou ordenamento. Faltou pensar no longo prazo. E adiou-se o mesmo de sempre: fazer da floresta uma prioridade, fazer de um terço do território nacional uma prioridade.

Houve, ninguém nega, uma conjugação extraordinária de factores adversos, como já tinha acontecido em 2003: ao ar seco e temperaturas altas juntaram-se as trovoadas secas e o vento forte numa tragédia de dimensões inéditas no país que provocou pelo menos 61 mortos e 62 feridos, alguns em estado grave, no concelho de Pedrógão Grande.


março 05, 2017

Aluga-se


Portugal pode não ser perfeito, mas não é nada mau. É, de longe, o país com mais pessoas portuguesas e mais coisas portuguesas. Para quem gosta de pessoas e coisas portuguesas, Portugal é o melhor sítio onde perseguir esses gostos. 

(Miguel Esteves Cardoso, Público, 05-03-17 - edição comemorativa dos 27 anos do jornal)

julho 17, 2016

Marx de cabeçeira



O grande problema, sublinha, é que “há uma insanidade nas novas formas de urbanização”, não só pela escala como pelo facto de as cidades ficarem cheias de casas vazias que são compradas sobretudo para fins de especulação e não para habitação. “Hoje, grande parte do capital está a concentrar-se no imobiliário e nas rendas." E, avisa Harvey, a agitação social começa a surgir cada vez mais ligada às questões da vida quotidiana nas cidades – como aconteceu no Brasil com os protestos que rebentaram em 2014, em parte por causa dos transportes públicos.

O Geógrafo David Harvey esteve recentemente em Portugal como orador convidado na conferência de abertura do IX Congresso Português de Sociologia, que decorreu na Universidade do Algarve. A não perder uma entrevista sua ao jornal Público: Aqui.