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outubro 20, 2019

Em que rua fica a Catalunha?

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Ouço falar sobre a Catalunha. As pessoas conhecem Barcelona. Já ouviram falar de Barcelona. Até já foram a Barcelona. Estiveram por lá a ver o estádio do Barça, a Sagrada Família, umas casas do Gaudi, passearam nas ramblas, com alguma sorte espreitaram o bairro Gótico e aproveitaram a piscina do Hotel, bom tempo, um hotel muito jeitoso, excelente piscina, sem dúvida. Fizeram centenas de fotos e alguns vídeos. Se lhes perguntarem onde fica Barcelona responderão Espanha. E estão certos. Ouço falar sobre a Catalunha. Penso (por momentos apenas) na Catalunha republicana, o meu cérebro folheia algumas coisas de história, poucas, sobrevoa alguns jornais, as comparações serôdias com Portugal, algumas barricadas do século XIX (risos), a Escócia de Kilt para as fotografias, decisões judiciais que são obstinações políticas, leio sobre o “Tsunami democrati”, uma suposta arma separatista, quando afinal se trata de mais uma app. Vou lanchar. É o que resta da Catalunha: uma sandes de paio e manteiga. Depois talvez alguém se lembre que um estado federado poderia ser um bom princípio de conversa. Afinal, a Catalunha fica em Barcelona. Toda a gente conhece Barcelona. 

novembro 18, 2018

As touradas e o património da bovinidade

Sobre este assunto tenho a dizer que as casas em Braga estão a ficar muito, mas muito, caras, tanto para alugar como (para quem é louco) comprar, já para não falar de outros preços, coisas de turistas, ou de malta que desagua enganada em terras de terras santa cruz ao contrário. A todos desejo um bom espectáculo. Ou isso.


(Bartoon, de Luís Afonso, 30/07/2010)

novembro 12, 2018

De borla

(na lata)

Sobre o (suposto) trabalho voluntário, uma onda trendy muito em voga, que sustenta a "eventologia" (termo cunhado por Alain Bourdin) que pastoreia os nosso dias, entre festivais, eventos (supostamente) desportivos, sociais, tecnológicos, servidos à mesa por jovens (e menos jovens) de alma vaga, à procura de um lugar ao sol, devidamente peneirados. É um mundo de exploração sustentado pelos impostos de todos. Ou, pelo menos, de alguns. Duas crónicas recentes chamaram-me a atenção:


 - Não vás ao engano; de Henrique Raposo (sim, do Henrique Raposo)

A minha tese de doutoramento (onde vai ela???), seria sobre isso: o nosso mundo é um evento, ou um parque temático, se quiserem. Talvez um dia. Mas não de borla. 

junho 25, 2017

Adoro os sinais de perigo


Antigamente fumavam erva de má qualidade, agora discutem Airbnb, regulamentação e startups de tuk-tuks e hostels onde se dorme no meio de mosquitada e móveis do Ikea. Portugal é atraente por causa do património histórico que é preciso cuidar (e que a indústria turística devia pagar a dobrar e com língua de palmo); o resto arranja-se.


(O sr. Viegas deve saber do que fala, não?, outrora diz que foi secretário de estado da cultura, assim mesmo, com letra pequena). 

junho 17, 2017

Quando a "mercadoria se contempla a si mesma num mundo que ela criou" *

(Braga, centro da cidade - 17-06-17)

Os turistas ainda vão pensar que é uma tradição da cidade de Braga: a exposição de pratos confeccionados. Pratica desenvolvida por um restaurante do centro da cidade, esta pode ser observada mesmo nas condições mais adversas, como hoje, aliás, mantendo-se o prato devidamente aquecido pela exposição aos raios solares. Uns bons 40 graus. Não se trata nesta, e nas outras vezes, apenas de um desperdício facilmente evitável, mas de um desperdício devidamente autorizado pelo parque temático, transformando-se num espectáculo (mais um) que converte a cidade numa projecção de si mesma. Não passa pela cabeça (não raro, caridosa) de ninguém, que aquela imagem possa ter outro tipo de influência em alguns estômagos, e respectivos bolsos, que por ali passam… vazios. Não. Os estômagos, assim como os bolsos vazios, aposto, aplaudem o espectáculo. Eles sentem-se parte dele e basta. Por mim, recusei tirar bilhete. Proponho que, no início da próxima exposição, participemos com as nossas mandíbulas de animais, outrora humanas, tornando o espectáculo ainda mais apetitoso. A exposição de um prato vazio será certamente aplaudida como mais uma (inovadora) instalação de arte contemporânea, desenvolvida por algum artista residente. 

(*Guy Debord)

março 26, 2017

O nosso mundo é um parque temático...



Diz Debord: “num mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso” e o espectador alienado é assim o produto ideal desta sociedade pois “quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo”.


(daqui, por aqui)

fevereiro 28, 2016

O triunfo dos porcos


Há muitas pessoas que o consideram apenas um parvo, a quem foi dado um incrível protagonismo, ou por razões comerciais, uma vez que a raridade da sua estupidez atrai imenso público, ou simplesmente por similar estupidez de quem o convidou a escrever, incentivando a sua falta de noção perante o disparate, dando livre circulação à sua despreocupada ignorância e olímpica burrice. (daqui, com a devida vénia).

I like the way you die, boy


Há uma certa tristeza nisto tudo, mas as coisas são como são, afirma Pereira, e é gajo para ter razão.

dezembro 09, 2015

Há, mas são verdes...



Ai, que saudades do futuro: cidades verdes, inteligentes, sustentáveis, resilientes (tinha que ser). As ideias pairam por perto, não fossem estas (ainda) à borla. Não o sendo, seria necessário relembrar o estado actual das nossas cidades: centros despovoados, ainda que turísticos, cada vez mais inacessíveis aos nativos, cada vez mais gentrificados em pseudo guetos gourmet (entre outras mostras de canonização do efémero). Enquanto isso, ruínas velhas e ruínas novissímas (esqueletos de edifícios nados-mortos) polvilham o espaço público urbano, supurando o pus da nossa indiferença, em viagem para o aconchego do centro comercial. Quem sabe onde eclodirá o próximo abcesso? Até lá, toca a desconstruir.



novembro 30, 2015

19

O espectáculo é o herdeiro de toda a fraqueza do projecto filosófico ocidental que foi uma compreensão da actividade dominada pelas categorias do ver; do mesmo modo que se baseia no incessante alargamento da racionalidade técnica precisa, proveniente deste pensamento. Ele não realiza a filosofia, filosofa a realidade. É a vida concreta de todos que se degradou em universo especulativo. 

("a sociedade do espectáculo", Guy Debord)

agosto 24, 2015

18

Onde o mundo real se converte em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais, e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espectáculo, como tendência para fazer ver por diferentes mediações especializadas o mundo que já não é directamente apreensível, encontra normalmente na vista o sentido humano privilegiado que noutras épocas foi o tacto; o sentido mais mais abstrato, e o mais mistificável, corresponde à abstração generalizada da sociedade actual. Mas o espectáculo  não é identificável com o simples olhar, mesmo combinado com o ouvido. Ele é o que escapa à actividade dos homens, à reconsideração e correcção da sua obra. É o contrário do diálogo. Onde quer que haja representação independente, o espectáculo reconstitui-se.  

("a sociedade do espectáculo", Guy Debord)

julho 30, 2015

17

A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social levou, na definição de toda a realização humana, a uma evidente degradação do ser em ter. A fase presente da ocupação total da vida social pelos resultados acumulados da economia conduz a um deslizar generalizado do ter para o parecer, de que todo o «ter» efectivo deve tirar o seu prestígio imediato e a sua função última. Ao mesmo tempo, toda a realidade individual se tornou social, directamente dependente do poder social, moldada por ele. Somente naquilo em que ela não é lhe é permitido aparecer. 

("a sociedade do espectáculo", Guy Debord)