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janeiro 22, 2025

A propósito


«- Um bom agente dos serviços de informação está perdido quando tem que intervir nalguma coisa que já aconteceu. A nossa profissão é fazer acontecer antecipadamente. Estamos a gastar não pouco dinheiro para organizar tumultos nos boulevards. Não é preciso muito, umas quantas dúzias de ex-detidos com alguns polícias à paisana, saqueiam-se três restaurantes e dois bordéis cantando a Marselhesa, incendeiam-se dois quiosques e, depois, chegam os nossos fardados e prendem-nos a todos, depois de uma simulação de luta corpo a corpo.

- E para que serve isso?

- Serve para manter no fio das preocupações os bons burgueses e convencer a todos de que são necessárias atitudes fortes. »

“ O Cemitério de Praga”, Umberto Eco (Gradiva)


julho 24, 2023

O homem que gostava de cães

 


Esta é a praça do medo. É um medo que cultivamos com esmero, um medo necessário. 

(Primeira leitura DH)

junho 20, 2021

Ontem não te vi em Babilónia...estive a acabar o "Guerra e Paz"

 


Ia escrever: terminei o Guerra e Paz, mas não se termina o Guerra e Paz. Continua-se. Escrevi algures: Acabei o Guerra e Paz e agora o que fazer?

Escrevi algures:

- Que fizeste da tua vida?

- Li o Guerra e Paz.

Continua-se. Cerca de mil e seiscentas páginas, edição da Presença, mais de dois quilos de papel, quantas palavras?, milhares, milhares de palavras, o tempo, o da leitura, o tempo, noutro espaço, o da escrita. Outro tempo. Para desopilar reli outra vez o fim, e fui reler, a propósito de um recente programa de rádio, “A lotaria da Babilónia”, um conto de Ficções (1944), de Jorge Luis Borges. Estou farto de ser salvo pelas palavras: como todos os homens da Babilónia, fui procônsul; como todos, escravo; também conheci a omnipotência, o opróbrio, o cárcere: Olhem: à minha mão direita falta-lhe o indicador.

Continua-se. Agora assim:


Tenho uma vida muito interessante. 


fevereiro 28, 2021

Manifestamente exageradas, as notícias da nossa retirada à Mark Twain

 


Acabada a empreitada (é disso que se trata), adjudicada por ajuste directo, com início no final do ano passado, prazos largamente incumpridos, onde se misturaram alhos com bugalhos de outras leituras, cerca de mil e duzentas páginas e quase dois quilos de papel mal pesados na minha balança da casa de banho depois, senti-me (isto foi na semana passada) ligeiramente atormentado por um vago sentimento de dever cumprido. Deixarei a análise afoita da obra para blogueiros mais audazes e dados a pareceres técnicos sobre florzinhas e encontros literários com a pluma em riste. Temos outros planos. Ainda indigeridos. 

Entre outros, comecei com isto (desvairado):


Escreve o pendura (por acaso foi Monsieur Vernet), pela pluma de Renard: confesso que a mim, como a todas as pessoas sérias, em certas ocasiões é agradável tomar banho com um pouco de lama. Isto dava panos para pangas, mas não temos tempo para análises vexatórias.   

dezembro 07, 2020

Todas as noites me despeço


(Edição OPERA OMNIA, 2020)

Todas as noites me despeço

de mim. O dorso afunda-se.

O bulício, os relógios

prosseguem por fora, 

Nenhum antegosto

ou prelúdio do fim. 

Minha energia

aflui, reúne-me? Na órbita

do sono, some-se e resplandece

a máscara mortuária.

(Sebastião Alba)

novembro 20, 2020

Jangada de Pedra

 



(...) Filipe II cometeu, se me permitirem uma opinião pessoal e intransferível, um dos maiores erros históricos deste bordel secular onde sobrevivemos: em vez de levar a capital para Lisboa - antiga e senhorial - e se dedicar a cantar fados a olhar para o Atlântico e para as possessões da América, que eram o esplêndido futuro (calculem o que foi juntar o império espanhol e português numa mesma monarquia), o nosso timorato monarca entrincheirou-se no centro da península, no seu mosteiro-residência do Escorial, a gastar o dinheiro que vinha das possessões ultramarinas luso-espanholas(...) 

outubro 22, 2020

Águas-Fortes Portenhas

 

Acordei, bebi água, e voltei aos lençóis. Dei uma vista de olhos aos jornais e enfiei de golada três “Águas- Fortes Portenhas” de Roberto Arlt. O mata-bicho do dia. Na verdade, esta história começa muitos anos antes, algures numa biblioteca.

Já não sei em qual foi: Barcelos, Braga? Conheci Roberto Arlt na estante correspondente à América do Sul, prateleira da Argentina. Ali estava ele, completamente desconhecido, solitário, a caminhar desesperadamente pelas ruas de Buenos Aires. Mas isso eu não sabia ainda. Encontrei os “Os sete loucos” por acaso, edição da Cavalo de Ferro, na capa um homem segurava uma rosa com a boca. Gostei da capa e li freneticamente o livro. Pesquisei. Não encontrei mais nada editado em português de Roberto Arlt. A vida continuou algures entre estantes, o tédio, e o ganha-pão necessário.

Acabou por sair uma nova edição da Cavalo de Ferro. Roberto Arlt passou a ser da casa. Entretanto saíram “Escritor fracassado e outros contos”, pela Snob, e “Águas-Fortes Portenhas” (Editora Exclamação) que vou consumindo aos tragos para não emborcar tudo de uma vez. São crónicas ou “notas” pintadas à mão enquanto Arlt vagueava por Buenos Aires, escritor caminhante, ou caminhante escritor, não se sabe bem.

Se pesquisarem no google e se lerem o posfácio desta edição encontram Arlt nascido em 1900 e falecido em 1942.  A crer em Alberto Caeiro uma biografia só tem duas datas: o nascimento e a morte. Entre uma e outra todos os dias foram de Roberto Arlt. A nós resta-nos o prazer de os tentar vislumbrar. 

outubro 14, 2020

Conquanto

 


Conquanto é uma conjunção concessiva (acho) e aparece amiúde no texto. Já lhe perdi a conta. Entretanto: trabalhar rodeada por pessoas dava-lhe uma sensação de companhia, conquanto não sentisse agora nenhum ansio de o fazer. Tem dias.