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outubro 16, 2020

Stayaway to heaven (perdão, stairway)

Tornou-se um costume cool usar máscara nas ruas de Braga. Não é de agora. Imagino que em outras geografias o mesmo se verifique. São as mesmas pessoas que enfartam os centros comercias e outras grandes superfícies de distribuição, acotovelando-se, ora em corredores de parafusos, ora em galerias de cuecas de gola alta, não respeitando distâncias, mesmo as socialmente aceitáveis antes da coisa, resmungando ultrajes causados pela demora que as disposições impõem nas linhas de caixa. A imbecilidade é um bem de primeira necessidade, e os paradoxos que a definem não estão ainda ao alcance de um ser humano normal.  

Não se inquietem: as apps fazem parte das nossas vidas. Descarregar a nova app stayaway covid (que original - soa a Allgarve) controleira, é um afago carinhosamente descarregado (um milhão já o fez sem necessidade de cassetete). Não que a levem a sério, terá o mesmo destino das máscaras reutilizadas semanas a fio, com o nariz ao léu, ou desfeitas em fanecos que adornam os rostos como peneiras. A aparência é uma religião. Faz pandã com as modas e com o medo.

A imbecilidade escorre lá de cima (deixem passar) e gosta de viajar para o lado. É como as nossas vidas suspensas: lateralizam-se, futebolisticamente falando, mas não avançam. Dizem-nos o que comer e beber, são padroeiros da nossa saúde, definem regras de leitura, perseguem a pirisca, que se amanhe o piropo (os trolhas ficam com as vistas afectadas, deixai-os com os nudes e os vídeos do tik tok), o mundo avança com as proteínas disponíveis e a delação, com ou sem máscara, segue o seu curso.

A app é apenas mais troço desse caminho. Não se trata apenas de controlo, as pessoas já escancaram a sua vida nas redes, ou por uns tostões em passerelles televisivas; a questão é de princípio, inconstitucional até à medula, relacionada com as liberdades fundamentais, um dos pilares do Estado de Direito.  Não importa se uma larga maioria a aceita placidamente, ainda que, sem grande convicção. A partir daí o céu é o limite:

setembro 25, 2020

mas isso será objeto de outro poema*

Eles assustam, mentem, manipulam, às falsas esperanças seguem-se as ameaças a sério, as multas, e a promessa de que a desobediência se paga caro põe todos os narizes para o mesmo lado, o rebanho obediente caminha atrás de pastores que num mundo menos torto seriam levados  à forca. Grande bênção o coronavírus, que anuncia o admirável mundo novo. Reze-se um padre-nosso de graças a George Orwell, que deixou o aviso, mas nada adiantou, porque as ovelhas não vêem, não ouvem, não compreendem, são cegas, mansas, medrosas, gostam de obedecer e de cacete no lombo.

(*sacado a Benjamin Péret)

outubro 29, 2018

Fui ver do mundo


Perguntei, ninguém sabia (não sei se ainda não sabem), onde ficava o mundo, uma pergunta em forma de Raul Solnado, ninguém sabia onde raio ficava esse mundo onde o tal de Bolsonaro (já ouvi falar dele, a sério, mas de onde?) ganhou o jogo do bicho, não achei estranho, o jogo já criou (leia-se infectou) bicho por todo o lado que não há mundo que chegue para dar vazão aos bichos que gostam de procriar, ou ganhar bicho, o que não é bem a mesma coisa. Ninguém sabe onde terá começado o jogo de criar bicho, ou o jogo do bicho, o que só prova a simplicidade lusa do placard, ou mesmo da malha, jogatanas que não são indiferentes a nenhum indígena com restos capilares de inteligência de outras eras. Antigamente é que era bom, embora ninguém saiba onde fica esse antigamente. Aposto que é perto do jogo do bicho. Dá sempre uma boa criação. Eu sei disso. 

Liberdade














e já agora...

março 14, 2013

O ser humano como lugar público (ou como aos poucos também os micos, mirones, bufos e cuscos perderão a sua ocupação milenar)


RIOT. Uma tecnologia, no caso um software, criada com propósitos militares pela empresa Raytheon, à venda a quem quiser pagar por ela. O que oferece? Tudo sobre si: horários, hábitos de trabalho, alimentares, viagens, família, relações pessoais. Como? Com os dados que lhe dá de bandeja. Big Brother, olha para mim. Em cada fotografia tirada com o seu smartphone, que regista hora, data, latitude e longitude, em cada posta do seu Facebook, no cruzamento dos seus mil amigos desconhecidos com os seus familiares e colegas de escola, nos emails profissionais e pessoais, quando passa na portagem, em cada compra com o seu cartão de crédito, e com os seus cartões de cliente, nas ruas pejadas de câmaras onde passeia com os seus miúdos e o cão, está aberta uma porta que jamais voltará a fechar-se: a da sua vida (…).

Eugénia de Vasconcellos, jornal Público, versão em papel (13-03-13)

(artigo completo aqui)
[mira]

março 15, 2012

Liru e companhia

“Aqui, tudo se equivale, e a “esquerda” está para a direita como os parceiros de sexo nas trocas de casais de sábado à noite. A neutralidade pseudo científica é agora o “nec plus ultra” dos intelectuais-lulus que no regaço da grande burguesia ganem de volúpia a sonhar com uma sociedade sem conflitos, onde o mercado regule harmoniosamente a ordem colectiva e a vida social, espécie de capitalismo utópico que, através de “consensos”, neutralize os choques de interesses e expulse definitivamente a política.

Uma sociedade sem conflitos só pode ser uma sociedade totalitária, e já não restam dúvidas de que a utopia capitalista abre caminho a uma implacável ditadura: a do mercado. O que está em jogo é o fim de um período do capitalismo ligado de certo modo à emergência de uma sociedade pluralista. A gigantesca redistribuição dos mercados mundiais a que hoje se entregam os colossos do capital financeiro, a concentração em poucas mãos de quantidades de dinheiro astronómicas, significam o dobre de finados do pluralismo sob todas as sua formas."

[Publicado no Diário de Lisboa, de 19/6/1987]

“Ideias Lebres”, Ernesto Sampaio (Ed. Fenda)

Sacado daqui 

maio 01, 2011

Simplesmente inteligência


"Essa atracção devia-se muito mais à convicção secreta – ou talvez nem sequer fosse uma convicção, à mera esperança – de que a ortodoxia política de O’Brien não fosse perfeita. Pairava-lhe qualquer coisa no rosto que irresistivelmente o sugeria. E, pensando bem, talvez não fosse afinal a heterodoxia o que trazia inscrito no rosto, mas simplesmente inteligência."

“Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”, George Orwell, Edição Antígona, Tradução de Ana Luísa Faria

abril 17, 2011

Eles andam aí

Braga, Avenida Central (Abril 2011)

"o filho-da-puta (mesmo quando ainda não o sabe) vive de um modo geral preocupado, vive tanto mais preocupado quanto mais filho-da-puta é, vive preocupado com as suas preocupações e com a despreocupação dos outros, vive em permanente inquietação mesmo quando aparenta calma, tudo o que é novo o perturba, é para ele causa de tormentos e temores (…).

De resto, o filho-da-puta gosta de falar de doenças, de assistir a desastres, de ver tristes ocorrências; o filho-da-puta sente-se confirmado sempre indirectamente, sempre na preocupação dos outros, ou no que ele julga ser a preocupação dos outros; por isso se alegra com a fraqueza alheia e ri das minorias, dos que são diferentes dele, ri porque tem a certeza de que é ele, filho-da-puta, que está certo, que sempre esteve e está certo."

“discurso sobre o filho-da-puta”, Alberto Pimenta, 7 nós, 6ª Edição (a 1ª edição remonta a 1977)

abril 28, 2009

Toda a gente tem um buda em casa perto daquele quadro do menino a chorar, não?

Agora e, já agora, fala-se de censura. Parece que também um livro do Ubaldo Ribeiro, que ninguém leu, inclusive eu, sim eu, o último dos leitores avulso e do prazer que ainda se dão ao trabalho de ler, foi excomungado. Ocorreu no denominado grupo (como?) Auchan, grupinho jumbo, que merece letra pequena, a acompanhar estas minudências dos apóstolos da razão. Parece que há gente que se insurge perante tal originalidade(?). Nunca li, ainda mais agora que me esfalfo por acompanhar a senda dos clássicos e dos outros menos clássicos que sem dúvida o serão no futuro, e ainda outros que dependem do meu egocentrismo de leitor, que parecem, assim à primeira vista, importantíssimos, e já estou a levar por tabela, contra as margens do minimamente correcto e oxidado mundinho. Enquanto as órbitas voltam ao lugar, deprimo durante 14 segundos e assou-o o nariz. Anacrónico, penso nos prodígios do condestável que apesar de militar afoito se tornou, afinal, santo. Antonin Artaud, que enlouqueceu rodeado de santos e seus bastões e rufias com a alma a rasgar-se, escreveu o seu “Heliogabalo ou o Anarquista Coroado”, desamarrando-se deste mundo pelo nariz, e eu anarquista descorçoado, vou se calhar ler o Ubaldo e "A Casa dos Budas Ditosos”, depois de reler uma viagem ao mundo de “Os Tarahumaras”, longe de serem clássicos….

abril 25, 2009

E a 26?

Os portugueses não têm a liberdade, mas sim licença, de dizer o que pensam. Ser independente é hoje pior do que antes do 25 de Abril. As pessoas retraem-se, têm medo de serem aborrecidas, de perder o emprego. Vai tudo em rebanho. (…) hoje, ela [liberdade] está ameaçada pelo desenvolvimento de técnicas que permitem controlar os indivíduos e influenciá-los no seu intimo. [acresce] que com um salário mínimo de 450 euros ou com o trabalho precário não existe democracia porque não pode haver projecto de vida.
Vitorino Magalhães Godinho, entrevista à Revista Visão, 23 Abril

Como dizia um amigo meu “o mais importante do 25 de Abril é o que acontece (e aconteceu) a 26 e por aí fora” Viu-se…