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julho 24, 2023

O homem que gostava de cães

 


Esta é a praça do medo. É um medo que cultivamos com esmero, um medo necessário. 

(Primeira leitura DH)

junho 20, 2021

Ontem não te vi em Babilónia...estive a acabar o "Guerra e Paz"

 


Ia escrever: terminei o Guerra e Paz, mas não se termina o Guerra e Paz. Continua-se. Escrevi algures: Acabei o Guerra e Paz e agora o que fazer?

Escrevi algures:

- Que fizeste da tua vida?

- Li o Guerra e Paz.

Continua-se. Cerca de mil e seiscentas páginas, edição da Presença, mais de dois quilos de papel, quantas palavras?, milhares, milhares de palavras, o tempo, o da leitura, o tempo, noutro espaço, o da escrita. Outro tempo. Para desopilar reli outra vez o fim, e fui reler, a propósito de um recente programa de rádio, “A lotaria da Babilónia”, um conto de Ficções (1944), de Jorge Luis Borges. Estou farto de ser salvo pelas palavras: como todos os homens da Babilónia, fui procônsul; como todos, escravo; também conheci a omnipotência, o opróbrio, o cárcere: Olhem: à minha mão direita falta-lhe o indicador.

Continua-se. Agora assim:


Tenho uma vida muito interessante. 


fevereiro 28, 2021

Manifestamente exageradas, as notícias da nossa retirada à Mark Twain

 


Acabada a empreitada (é disso que se trata), adjudicada por ajuste directo, com início no final do ano passado, prazos largamente incumpridos, onde se misturaram alhos com bugalhos de outras leituras, cerca de mil e duzentas páginas e quase dois quilos de papel mal pesados na minha balança da casa de banho depois, senti-me (isto foi na semana passada) ligeiramente atormentado por um vago sentimento de dever cumprido. Deixarei a análise afoita da obra para blogueiros mais audazes e dados a pareceres técnicos sobre florzinhas e encontros literários com a pluma em riste. Temos outros planos. Ainda indigeridos. 

Entre outros, comecei com isto (desvairado):


Escreve o pendura (por acaso foi Monsieur Vernet), pela pluma de Renard: confesso que a mim, como a todas as pessoas sérias, em certas ocasiões é agradável tomar banho com um pouco de lama. Isto dava panos para pangas, mas não temos tempo para análises vexatórias.   

dezembro 07, 2020

Todas as noites me despeço


(Edição OPERA OMNIA, 2020)

Todas as noites me despeço

de mim. O dorso afunda-se.

O bulício, os relógios

prosseguem por fora, 

Nenhum antegosto

ou prelúdio do fim. 

Minha energia

aflui, reúne-me? Na órbita

do sono, some-se e resplandece

a máscara mortuária.

(Sebastião Alba)

novembro 20, 2020

Jangada de Pedra

 



(...) Filipe II cometeu, se me permitirem uma opinião pessoal e intransferível, um dos maiores erros históricos deste bordel secular onde sobrevivemos: em vez de levar a capital para Lisboa - antiga e senhorial - e se dedicar a cantar fados a olhar para o Atlântico e para as possessões da América, que eram o esplêndido futuro (calculem o que foi juntar o império espanhol e português numa mesma monarquia), o nosso timorato monarca entrincheirou-se no centro da península, no seu mosteiro-residência do Escorial, a gastar o dinheiro que vinha das possessões ultramarinas luso-espanholas(...) 

outubro 22, 2020

Águas-Fortes Portenhas

 

Acordei, bebi água, e voltei aos lençóis. Dei uma vista de olhos aos jornais e enfiei de golada três “Águas- Fortes Portenhas” de Roberto Arlt. O mata-bicho do dia. Na verdade, esta história começa muitos anos antes, algures numa biblioteca.

Já não sei em qual foi: Barcelos, Braga? Conheci Roberto Arlt na estante correspondente à América do Sul, prateleira da Argentina. Ali estava ele, completamente desconhecido, solitário, a caminhar desesperadamente pelas ruas de Buenos Aires. Mas isso eu não sabia ainda. Encontrei os “Os sete loucos” por acaso, edição da Cavalo de Ferro, na capa um homem segurava uma rosa com a boca. Gostei da capa e li freneticamente o livro. Pesquisei. Não encontrei mais nada editado em português de Roberto Arlt. A vida continuou algures entre estantes, o tédio, e o ganha-pão necessário.

Acabou por sair uma nova edição da Cavalo de Ferro. Roberto Arlt passou a ser da casa. Entretanto saíram “Escritor fracassado e outros contos”, pela Snob, e “Águas-Fortes Portenhas” (Editora Exclamação) que vou consumindo aos tragos para não emborcar tudo de uma vez. São crónicas ou “notas” pintadas à mão enquanto Arlt vagueava por Buenos Aires, escritor caminhante, ou caminhante escritor, não se sabe bem.

Se pesquisarem no google e se lerem o posfácio desta edição encontram Arlt nascido em 1900 e falecido em 1942.  A crer em Alberto Caeiro uma biografia só tem duas datas: o nascimento e a morte. Entre uma e outra todos os dias foram de Roberto Arlt. A nós resta-nos o prazer de os tentar vislumbrar. 

outubro 14, 2020

Conquanto

 


Conquanto é uma conjunção concessiva (acho) e aparece amiúde no texto. Já lhe perdi a conta. Entretanto: trabalhar rodeada por pessoas dava-lhe uma sensação de companhia, conquanto não sentisse agora nenhum ansio de o fazer. Tem dias. 

agosto 31, 2020

A origem das espécies


Na ignorância antiga, chamemos-lhe assim, os que eram ignorantes queriam que os filhos deixassem de o ser. Havia a consciência da ignorância ser má. Hoje há uma ignorância agressiva, falsamente igualitária e é uma das razões porque cresce a pseudociência. Cresce a pseudociência, o desprezo pela privacidade, pelas mediações, pelo jornalismo — analisar um facto não em bruto mas mediado por um saber que lhe dá contexto. Estão contra a mediação do saber académico. (...) Como se pode ser melhor preparado sem ler? Há gente que faz cursos universitários sem ler. Dizem que lêem no computador. Uma treta. Ainda estou à espera que alguém leia Guerra e Paz no computador ou num telemóvel. Há muita complacência, muita cedência à ignorância e os resultados estão à vista. O aumento de partos em casa com más condições, o mito do nascimento natural com mortes, não tomar vacinas ou medicamentos, a substituição de tratamentos por mezinhas, ir ao curandeiro em vez de ir ao médico.

(diz JPP aqui)

agosto 18, 2020

Uma obra extra-humana


Céu e inferno são concepções sociais para uso da plebe - e eu pertenço à classe média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora das Dores: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor, para passar no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil réis, implorei a benevolência do senhor deputado, igualmente para me subtrair à tísica, à navalha de ponta, à febre que vem da sarjeta, à casca de laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males públicos, necessito de uma protecção extra- humana. 

agosto 12, 2020

(Mais) Um policial que veio do frio


Passa-se, a acção, no fim do mundo, que é (quase) o mesmo que escrever Gronelândia. O nosso mundo é um eterno desconhecido, apesar de tudo. Não se trata de liga dos calmeirões em policiais, mas não é um bem-intencionado de trazer por casa. Se estivesse bem disposto escreveria thriller em recuperação após tortura. É assim o agente Maratse quando (lá calha) sente o cheiro da sua própria "carne esturricada, com o chinês a apertar-lhe as pontas daquele instrumento de tortura improvisado no peito, nas pernas e nos testículos". Mas o chinês nem sequer é para aqui chamado. A sério...

julho 25, 2020

"E vós, Anjos, o que dizeis do meu propósito?"


Porque, com o correr do tempo, na altura em que os poderes desconhecidos deixavam o mundo à vontade, sem darem sinais de vida, tornei-me ateu.