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junho 20, 2021

Ontem não te vi em Babilónia...estive a acabar o "Guerra e Paz"

 


Ia escrever: terminei o Guerra e Paz, mas não se termina o Guerra e Paz. Continua-se. Escrevi algures: Acabei o Guerra e Paz e agora o que fazer?

Escrevi algures:

- Que fizeste da tua vida?

- Li o Guerra e Paz.

Continua-se. Cerca de mil e seiscentas páginas, edição da Presença, mais de dois quilos de papel, quantas palavras?, milhares, milhares de palavras, o tempo, o da leitura, o tempo, noutro espaço, o da escrita. Outro tempo. Para desopilar reli outra vez o fim, e fui reler, a propósito de um recente programa de rádio, “A lotaria da Babilónia”, um conto de Ficções (1944), de Jorge Luis Borges. Estou farto de ser salvo pelas palavras: como todos os homens da Babilónia, fui procônsul; como todos, escravo; também conheci a omnipotência, o opróbrio, o cárcere: Olhem: à minha mão direita falta-lhe o indicador.

Continua-se. Agora assim:


Tenho uma vida muito interessante. 


abril 13, 2016

A arte da dedicatória


Da série de factos inexplicáveis que são o universo ou o tempo, a dedicatória de um livro não é decerto o menos secreto. Define-se como uma dádiva, um presente. Salvo no caso da indiferente moeda que a caridade cristã deixa cair na palma do pobre, qualquer verdadeiro presente é recíproco. O que dá não se priva do que dá. Dar e receber são o mesmo.
Como todos os actos do universo, a dedicatória de um livro é um acto mágico. Também seria lícito defini-la como o modo mais grato e sensível de pronunciar um nome. Eu pronuncio agora o seu nome, María Kodama. Tantas manhãs, tantos mares, tantos jardins do Oriente e do Ocidente, tanto Virgílio. 

Inscrição, in "A Cifra" (1981), Jorge Luis Borges. 

agosto 17, 2014

Marcado pelas transferências




Borges (Vaccaro no pacote?), Bolaño e Andric: dois argentinos, um chileno e um extremo Sérvio, contratações não comunicadas à CMVM, mas já em treinamentos no centro de estágio da biblioestantina. Negociações decorridas, algures, entre a cidade berço da nação e a tal Figueira plantada junto à foz do Mondego. Ficaremos por aqui?

janeiro 10, 2013

Cativeiros



Penso num tigre. Esta penumbra exalta
A vasta biblioteca laboriosa
E parece afastar as prateleiras;
Forte, inocente, ensanguentado e novo,
Irá pela sua selva e pela manhã
E marcará seu rasto na lodosa
Margem de um rio cujo nome ignora
(Não há passado nem porvir, nem nomes
No seu mundo, só um instante certo)
E salvará as bárbaras distâncias,
Farejando no entrelaçado labirinto
Entre os odores o odor da alba
E o odor deleitoso do veado.
Por entre as riscas do bambu decifro
Suas riscas, pressinto a ossatura
Debaixo da pele esplêndida que vibra.
Interpõe-se em vão todos os mares
Convexos e os desertos do planeta;
Desta casa de um tão remoto porto
Da América do Sul, te sigo e sonho,
Ó tigre que é das margens do rio Ganges.

Na minha alma escorre a tarde e penso
Que o tigre vocativo do meu verso
É um tigre de símbolos e sombras,
Uma série de tropos literários
E de memórias da enciclopédia,
Não o tigre fatal, a aziaga jóia
Que, sob o sol ou a diversa lua,
Vai cumprindo em Samatra ou em Bengala
A rotina do amor, do ócio da morte.
Ao simbólico tigre eu quis opor
O verdadeiro, o de cálido sangue,
O que dizima a multidão dos búfalos
E hoje, 3 de Agosto de 59,
Alarga na planície uma pausada
Sombra, mas já o facto de o dizer
E de conjecturar-lhe a circunstância
Fá-lo ficção da arte e não criatura
Vivente dessas que andam pela terra.

Procuraremos um terceiro tigre.
Será, tal como os outros, uma forma
Do meu sonho, um sistema de palavras
Humanas, não o tigre vertebrado
Que, para além das vãs mitologias,
Pisa a terra. Bem sei, mas qualquer coisa
Me impõe esta aventura indefinida,
Insensata e antiga, e persevero
Em buscar pelo tempo desta tarde
O outro tigre, o que não está no verso.


 “O Outro Tigre” (pp. 198-9) in O Fazedor (Obras completas II), Jorge Luis Borges.
Tradução: Fernando Pinto do Amaral. Editorial Teorema, 1998


                                

novembro 04, 2012

Afinidades íntimas


«Salvo nas severas páginas da história, os factos memoráveis prescindem de frases memoráveis. Um homem a ponto de morrer tenta evocar uma gravura vislumbrada na infância, os soldados que estão para travar batalha falam da lama ou do sargento. A nossa situação era única e, francamente, não estávamos preparados. Falámos, fatalmente, de letras; receio não ter dito outras coisas além das que costumo dizer aos jornalistas. O meu alter ego acreditava na invenção ou descoberta de novas metáforas; eu, nas que correspondem a afinidades íntimas e notórias e que a nossa imaginação já aceitou. A velhice dos homens e o ocaso, os sonhos e a vida, o correr do tempo e da água.»

“O Outro”, in O Livro de Areia (obras completas, III), J.L. Borges. Tradução de António Sabler. Teorema. 

julho 22, 2012

Não sei se o paraíso será uma espécie de biblioteca ou se ficará algures na Argentina: sucede que Borges escreveu assim sobre Manuel Mujica Lainez


«É difícil imaginar dois homens mais diferentes, mas fomos excelentes amigos. Descobrimos um vago antepassado comum, D. Juan de Garay, que era realmente, penso, Juan de Garay. A nossa amizade prescindiu do convívio e da confidência. Sou cego e, de algum modo, sempre o fui; para Mujica lainez, como para Théophile Geutier, existia o mundo visível. Também o teatro e a ópera, que em parte me estão vedados. Sentia, talvez tragicamente, a vacuidade das cerimónias, das reuniões, das academias, dos aniversários e dos ritos, mas essas máscaras divertiam-no. Sabia aceitar e sorrir. Foi, acima de tudo, um homem corajoso. Nunca condescendeu ao demagógico (…).
Cada escritor sente o horror e a beleza do mundo em certas facetas do mundo. Manuel Mujica lainez sentiu-os com singular intensidade no declínio de grandes famílias outrora poderosas.»

“Los Ídolos” (pp.518), in Prólogos com um prólogo de prólogos (1975), Jorge Luis Borges (Obras Completas 1975-1988). Tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra. editorial teorema.  

el paraíso

janeiro 31, 2012

Uma estória de “Uma história da leitura”


Como chegamos a determinados livros? Pois, através de sugestões (e aqui a trama é infinita – directa e indirectamente), por curiosidade e experimentação, por continuidade (fenómeno que começa com um livro ou autor e continuas a ler tudo à volta – seja do autor, seja da tua cabecinha); e, por fim, através de uma maquinação de forças ininteligíveis que convergem para um determinado ponto: esse momento. Todas as anteriores conjugadas, também suportariam outra tese.

Terei chegado a “Uma História de Leitura” de Alberto Manguel estouvadamente, sem pressas, e de forma anacrónica. Para aclarar esse momento teria que recuar muitos outros, e provavelmente, o caminho percorrido encaixaria solenemente em vários dos pressupostos atrás expostos. Factos, dois apenas: uma edição (2007) de “Um Diário de Leituras” do autor na estante, e a procura de “The Dictionary of Imaginary Places” (encontrado numa biblioteca universitária), do qual não conheço edição portuguesa. Para além, refira-se um entusiasmo particular por escritores que escrevem sobre escritores, livros e leituras. E atrás de tudo isso, um labirinto, um espelho e talvez Jorge Luís Borges, antigo vizinho do 2º esquerdo.

Terei começado, parece-me, a leitura de “Uma História da Leitura” quase ao mesmo tempo que descobria um espaço na blogosfera onde também se escrevia sobre livros e leituras, e onde estranhamente (ou talvez não), enxertos de “Uma História da Leitura” surgiam aos nossos olhos como uma conjugação de forças que convergem para um dado momento. Esse momento.

janeiro 11, 2012

Viagem à volta de quarta-feira

Ele recorda. Catorze e qualquer coisa da tarde ou seriam treze e muito.
Uma mão aproximava-se da estante: Defoe ou Swift?, parecia indicar, enquanto ali ao lado, uns olhos que pertenciam ao corpo que sustentava essa mão, incrivelmente, liam:

“Swift propusera-se ajuizar o género humano e deixou um livro de literatura infantil. Isto deve-se ao facto de as crianças lerem as duas viagens iniciais do capitão Lemuel Gulliver e omitirem as últimas, que são terríveis. Perdeu a memória, mesmo a do passado imediato. Ao despedir-se de um amigo, costumava dizer-lhe: «Boa noite. Espero que não nos voltemos a ver.» Nos últimos dias ia de aposento em aposento, repetindo «Sou o que sou», como que para se aferrar de algum modo à sua íntima raiz.”

J.L. Borges sobre Jonathan Swift, “Biblioteca Pessoal. Prólogos”, Vol. IV das Obras Completas, Edição [magnífica da finada] Teorema. Tradução de Cristina Rodrigues e Artur Guerra.

janeiro 09, 2012

Porra: o “egoísmo vital experimenta medos pessoais”


«Os trapos da pequena abateram-se; uma após outra as tamancas caíram no vazio da noite e duas asas resplandecentes brotaram das suas espáduas. Ela voou, entre Santa Maria e Santa Madalena, em direcção a um astro rubro e desconhecido onde se encontram as ilhas dos Bem-aventurados. É aí que um ceifeiro misterioso vem todas as noites, com a lua por foice; ceifa, entre os prados de abróteas, estrelas cintilantes que semeia na noite.»

Marcel Schwob, “A Tamanca”, in “Coração Duplo, vol. 1”- Tradução de Raúl Henriques - Edição Cavalo de Ferro


Devo muitos luares de foice a J. L. Borges. E algumas estrelas cintilantes, também. Este pedaço é retirado de uma dessas, obviamente congeminado à luz reflectida de um ocasional espelho. Saiu da pena de Marcel Schwob, um francês que viveu no final do século XIX. 

outubro 30, 2009

Como os sonhos e os espelhos

Devo a uma confluência mefistofélica ocorrida entre um fogão e a parte eléctrica de um edifício (no qual aparentemente habito), um conjunto de convulsões tenebrosas (do ponto de vista alusivo ao ambicionado marasmo que por aqui se pratica). Terá sido durante a execução de um estufado espantosamente composto e aromático, para não dizer mais, que, sofregamente, o destino murmurou a sua mão raquítica mas omnipresente. Pensei logo num espelho. E depois recordei um sonho nocturno da noite passada. Depois ainda, matutei (por deferência) no J.L Borges, tendo em conta a cópia (para não dizer plágio) do meu pensamento. Mas que porra. Que escrúpulos: ”tenho lá culpa de pensar em cenas já pensadas ou escritas pelo Borges…”. O pior veio depois. Uma desculpa esfarrapada por apreciar leões (olha o Sporting e a juba leo), mas sobretudo tigres e mais tigres. Como o Hobbes. Como este. E como este.