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novembro 27, 2014

Últimas aquisições (ainda antes da abertura da janela do mercado de inverno)


Não há nada como uma boa prospecção. Com a chancela da defunta Teorema (1994), não sei se existiu mais alguma edição posterior de outra editora, mas duvido. Uma pechincha. Mais um Schwob para juntar à estantina



Diz que é uma história verdadeiramente triste e horrível. Um conto de horror inusitado.

outubro 17, 2014

Retratos imaginários


Em geral os biógrafos acreditaram, infelizmente, que eram historiadores. E assim nos privaram de retratos admiráveis. Acharam que só a vida dos grandes homens podia interessar-nos. A arte é estranha a estas considerações. Aos olhos do pintor, o retrato que Cranach fez de um homem desconhecido tem tanto valor como o retrato de Erasmo. Não é graças ao nome de Erasmo que esse quadro é inimitável. A arte do biógrafo seria dar o mesmo preço à vida de um pobre actor e à vida de Shakespeare. É um baixo instinto, o que nos dá prazer quando notamos o encurtamento do esterno-mastoideu no busto de Alexandre, ou a madeixa da testa no retrato de Napoleão.

Marcel Schwob ("Vidas Imaginárias")

setembro 25, 2014

Grande aquisição (fora do mercado de transferências)


A respeito destas coisas, as Histórias continuam mudas.

Sempre quis fazer parte desta grande família que é a Estantina Inútil - afirmou um Schwob visivelmente emocionado. Já lá se encontrava, bem o sei, o "Coração Duplo" (Vol.1 e 2),  mas não poderia nunca admitir um "Vidas Imaginárias" em formato digital (como é que se diz, em PDF?), ainda por cima, em espanhol - acrescentou Schwob, enquanto se arranjava na prateleira. 

junho 19, 2013

Prosa de cortar à faca


Os raios brancos jorram dum tinido de bainhas, a porta roda nos gonzos e o homem aparece, lívido, entre duas manchas negras. Calvo, de crânio polido, cara barbeada, os cantos da boca metidos para dentro como os dos velhos dos asilos, a camisa largamente cortada, um casaco escuro sobre os ombros, ele caminha afoitamente; e os seus olhos vivos, inquietos, perscrutadores, percorrem todas as caras; o seu rosto volta-se para todos os rostos com um movimento compósito que parece feito de mil tremores. Os seus lábios estão agitados; dir-se-ia que murmuram: «A guilhotina! A guilhotina!» Depois, cabeça inclinada, o olhar penetrante fixado a direito na linha da báscula, ele avança como um animal que puxa a charrua. De súbito, choca com a prancha e da sua garganta eleva-se uma voz fina, acre, como um tilintar rachado, com uma nota alta, aguda, sobre a palavra assassino duas vezes repetida.
Um batimento surdo; uma manga de sobrecasaca com a marca branca da mão sobre o prumo esquerdo da guilhotina; um choque delicado; um movimento de pessoas para a fonte sangrenta que deve jorrar; a cesta escura e luzidia atirada para dentro de um dos vagões; trinta segundos para tudo isto desde a porta da prisão.  

“Instantes”, in Coração Duplo, vol.2. Marcel Schwob. Tradução de Raúl Henriques. Cavalo de Ferro. 

janeiro 09, 2012

Porra: o “egoísmo vital experimenta medos pessoais”


«Os trapos da pequena abateram-se; uma após outra as tamancas caíram no vazio da noite e duas asas resplandecentes brotaram das suas espáduas. Ela voou, entre Santa Maria e Santa Madalena, em direcção a um astro rubro e desconhecido onde se encontram as ilhas dos Bem-aventurados. É aí que um ceifeiro misterioso vem todas as noites, com a lua por foice; ceifa, entre os prados de abróteas, estrelas cintilantes que semeia na noite.»

Marcel Schwob, “A Tamanca”, in “Coração Duplo, vol. 1”- Tradução de Raúl Henriques - Edição Cavalo de Ferro


Devo muitos luares de foice a J. L. Borges. E algumas estrelas cintilantes, também. Este pedaço é retirado de uma dessas, obviamente congeminado à luz reflectida de um ocasional espelho. Saiu da pena de Marcel Schwob, um francês que viveu no final do século XIX.