Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

setembro 14, 2018

Da crítica a livros e outros desvarios, já agora


Qualquer análise da minha lavra não poderá, nunca, deixar de ser vista como um princípio avassalador de incompetência para o efeito. E qual será o efeito (deixem passar)? O pretendido. Neste limbo paralisante da crítica a livros (não confundir, por favor, com crítica literária, já que esta pressupõe, obviamente, a existência de uma literatura e de um crítico devidamente habilitado para dela nada perceber, mesmo pensando que percebe qualquer coisa) , não existe um único estudo, virtual se o desejarem, que vá de encontro às necessidades mínimas do desconhecimento (geral) sobre esse objecto que (erradamente, já agora) nomeamos como livro, um livro com coisas escritas lá dentro, capa, sobrecapa, lombada, e uma branquidão que nos deixa roucos de raiva quando observamos alguns caracteres por ali perdidos, sem esperança alguma de redenção pela ascese, ou mesmo pela ingestão de numerosas substâncias devidamente fermentadas. Posto isto, irei avançar forçosamente, investir é como quem diz, na análise frondosa de “O centro do mundo” de Ana Cristina Leonardo. Porque o merece. Brevemente, que agora vou ali ver televisão.

setembro 25, 2012

Um Sporting Sá Pintoniano absolutamente literário (contra um Gil Vicente não poderia ser de outra forma)



Tás lá Sá Pinto, caso contrário, como diz a Lianor [na farsa de Inês Pereira]: “dai isso por esquecido,/E buscai outra guarida.” 
Sacado daqui


Nenhum jogo que disputarás será a Batalha de Agincourt. Não és Henrique V. Também não sou Shakespeare. Mas sempre que tiveres dúvidas, lê a peça. Vais ver que está lá mais do que em todos os livros sobre futebol que possas ler. 
 Sacado daqui

[Salta Sá]

agosto 14, 2012

Viagens

«Duas léguas adiante está Caçarelhos. Aqui diz Camilo que nasceu o seu calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado de Agra de Freimas, herói patego e patusco da Queda Dum Anjo, novela de muito riso e alguma melancolia. Considera o viajante que o dito camilo não escapa à censura que acidamente desferiu contra Francisco Manuel do Nascimento, acusado este de galhofar com a Samardã, como antes outros tinham chalaceado com Maçãs de D. Maria, Ranhado ou Cucujães. Juntando Elói a Caçarelhos tornou Caçarelhos risível, ou será isto defeito do nosso espírito, como se tivéssemos de acreditar ser culpa das terras e não de quem nelas nasce. A maçã é bichosa por doença da macieira, e não por maldade do torrão.»

” Viagem a Portugal (pp.31), José Saramago. Caminho.

  tabuleta

julho 22, 2012

Não sei se o paraíso será uma espécie de biblioteca ou se ficará algures na Argentina: sucede que Borges escreveu assim sobre Manuel Mujica Lainez


«É difícil imaginar dois homens mais diferentes, mas fomos excelentes amigos. Descobrimos um vago antepassado comum, D. Juan de Garay, que era realmente, penso, Juan de Garay. A nossa amizade prescindiu do convívio e da confidência. Sou cego e, de algum modo, sempre o fui; para Mujica lainez, como para Théophile Geutier, existia o mundo visível. Também o teatro e a ópera, que em parte me estão vedados. Sentia, talvez tragicamente, a vacuidade das cerimónias, das reuniões, das academias, dos aniversários e dos ritos, mas essas máscaras divertiam-no. Sabia aceitar e sorrir. Foi, acima de tudo, um homem corajoso. Nunca condescendeu ao demagógico (…).
Cada escritor sente o horror e a beleza do mundo em certas facetas do mundo. Manuel Mujica lainez sentiu-os com singular intensidade no declínio de grandes famílias outrora poderosas.»

“Los Ídolos” (pp.518), in Prólogos com um prólogo de prólogos (1975), Jorge Luis Borges (Obras Completas 1975-1988). Tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra. editorial teorema.  

el paraíso

junho 15, 2012

O papagaio de Flaubert*

Os dois dialogavam, ele debitando à saciedade as três frases do seu reportório, e ela respondendo-lhe com palavras já sem sequência mas em que o seu coração se desafogava. Lulu, no seu isolamento, era quase um filho, um namorado. Ele subia-lhe pelos dedos, mordiscava-lhe os lábios, agarrava-se-lhe ao lenço; e, como ela inclinava a testa abanando a cabeça como as amas, as grandes abas da coifa e as asas do pássaro agitavam-se em conjunto.”

“Um coração simples” (pp.39), in Três contos, Gustave Flaubert. Tradução de Pedro Tamen. Relógio de Água.

*Retirado do título de um livro de Julian Barnes, por sinal uma verdadeira obra-prima contemporânea, verdadeiramente inesquecível, pelo menos para mim, que é o que interessa, não é?

fevereiro 14, 2012

O crepúsculo em todo o lado


“Se eu fosse de férias à Grécia, pensava comigo, iria a Estágira inclinar-me perante a memória de Aristóteles, que ali nasceu, se eu fosse à Grécia, então, certamente, nem que fosse de ceroulas com atacadores junto dos tornozelos, correria a volta de honra, em memória de todos os vencedores de todos os Jogos Olímpicos, se eu fosse à Grécia…Se eu fosse à Grécia com aquela brigada socialista de trabalho, far-lhes-ia uma conferência sobre todos os suicidas, sobre Demóstenes, sobre Platão, sobre Sócrates (…) Mas já começou uma nova época, um mundo novo, os jovens pensam noutras coisas, talvez já tudo seja bem diferente neste mundo.”

“Uma Solidão Demasiado Ruidosa” (pp. 85/86), Bohumil Hrabal, Edição Afrontamento.Tradução de Ludmila Dismánova e Mário Gomes

Götterdämmerung

janeiro 09, 2012

Porra: o “egoísmo vital experimenta medos pessoais”


«Os trapos da pequena abateram-se; uma após outra as tamancas caíram no vazio da noite e duas asas resplandecentes brotaram das suas espáduas. Ela voou, entre Santa Maria e Santa Madalena, em direcção a um astro rubro e desconhecido onde se encontram as ilhas dos Bem-aventurados. É aí que um ceifeiro misterioso vem todas as noites, com a lua por foice; ceifa, entre os prados de abróteas, estrelas cintilantes que semeia na noite.»

Marcel Schwob, “A Tamanca”, in “Coração Duplo, vol. 1”- Tradução de Raúl Henriques - Edição Cavalo de Ferro


Devo muitos luares de foice a J. L. Borges. E algumas estrelas cintilantes, também. Este pedaço é retirado de uma dessas, obviamente congeminado à luz reflectida de um ocasional espelho. Saiu da pena de Marcel Schwob, um francês que viveu no final do século XIX. 

novembro 01, 2011

Coisas mesmo importantes

Feirense 0 - Sporting 2 (Estádio de Aveiro 30-10-11)

Parece que foi o Camus que um dia escreveu – e cito de cor – que apenas no teatro e no futebol, ao domingo à tarde, um tipo se sente verdadeiramente inocente. No teatro não digo nada. Quanto ao futebol raramente é ao domingo à tarde. A imagem em cima foi tirada num domingo à noite, pouco antes de uma ameaça de coçório perpetrada por uns elementos da força policial, desejosos de bater em algo e em força, embora tivessem esbarrado com uns gajos como nós, mais pacíficos que um coala, e guarnecidos de uma capacidade de diálogo muito superior ao Guterres. Ao intervalo lá descemos para junto da turva onde se está muito bem, e até se canta uma canção contra os jogos à segunda-feira e outros dias que tais e contra os rufiolas da SportTV – só nós sabemos porque não ficamos em casa.
“ Vai Reinaldo, dizia um gajo atrás e mim,  “vai Van Wincla” gritava outro, e eu pensava entre berros que tudo aquilo fazia sentido, e o que fazia falta era um sentido para a vida, e vai daí lembrei-me (mas isto tudo muito rápido) que o Julian Barnes, que gosta largo de futebol, tinha escrito no seu “Nada a Temer” que o Camus tinha dito que a “reacção adequada à falta de sentido da vida era inventar as regras de jogo, como fizéramos para o futebol”. Foda-se, esta merda anda mesmo toda ligada, pensei assustado…

outubro 23, 2011

Os 400 golpes mais 1



Os golpes acabaram por surpreender-me. Lá para o sexagésimo oitavo já estava por conta do bueiro. Até que ponto fabricamos as nossas memórias, não o sei dizer, mas tendo em conta que vi o filme nos idos noventa, igualmente na televisão, posso agora afirmar – não sem receio de represálias do meu cérebro – que dessa(s) vez(es) terei visto o filme sem olhos de ver, quer dizer, estando de olhos abertos e aparentemente observantes, estes não viam nadinha. E ainda agora acontece. Sustentado na arqueologia da memória, posso assegurar que naquela altura íamos a todas, o que nos facultou um arcabouço razoável para lambermos as feridas e experimentarmos tudo outra vez. Estava (ontem) a ver o filme e a pensar que “isto não tem nada que ver com belíssimo” - é muito mais do que isso - e que para além de uma câmara engenhosa e tecnicamente gandula, o substrato narrativo (que existe!) não se distancia do tempo/espaço em que ocorre. 
Estávamos em 1959, e recordei-me logo de uma frase do Pepe Carvalho (no Milénio I de Montalbán), aludindo ao ”envelhecimento da modernidade”, ou se quisermos, o envelhecimento precoce da modernidade. A coisa nasceu velha. De um capitalismo juncado (e fundado) em cadáveres, passamos - e estou agora claramente a extrapolar viajando no tempo- para um capitalismo juncado de dívidas e fundamentado nestas. Vítima alarve, dir-me-ão, mas não me comovo, sabendo que a estes políticos e dirigentes dá muito jeito a total ausência de memória, e um desconhecimento quase total do povo da (sua) história (para além de datas avulso e comemorações esvaziadas do seu sentido), reconhecendo-se, todavia, que aqueles políticos que constam da frase anterior também desconhecem a história e têm a memória mais curta que um peixe. Por isso dá jeito.  
Fazendo mais um link cerebral, manieto a letra do Cais dos GNR:

Se o mercado impera
Vais sempre longe demais…

Que querem, não estou inspirado…  

agosto 27, 2011

21 gramas


"Estava frio dentro do quarto. Fechei outra vez a porta, limpei o puxador com o lenço e voltei para junto do totem. Ajoelhei-me e observei a superfície de pêlo alto da carpete que ia até à porta da entrada. Pareceu-me ver dois sulcos paralelos como se tivessem arrastado nessa direcção os calcanhares de alguém. Quem quer que tivesse arrastado o corpo estava determinado. Homens mortos pesam mais do que corações partidos.(....)"

Philip Marlowe in “À Beira do Abismo” de Raymond Chandler

Tradução de Carlo Magalhães

julho 11, 2011

Às vezes dá-me pena. Tanta dureza, tanta fé, tão impassível ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.


in " O punhal", Jorge Luís Borges (Editorial Teorema)

maio 23, 2010

Irmãos em universo *

"Quando já se tem muita experiência do mundo, começamos a interrogar-nos se a experiência de todo esse tempo nos serviu realmente para alguma coisa e se aprendemos algo que possa ser para os nossos filhos, discípulos, amigos. Como não tenho filhos nem  discípulos, concentro-me nos amigos. Reúno-os mentalmente num quarto às escuras, como se estivéssemos numa sessão de espiritismo. Cria-se uma certa expectativa face ao que agora lhes possa dizer. Esgoto todas as possibilidades de não ter de falar, porque, na realidade, ter de transmitir o que quer que seja para a posteridade é um problema, um grandessíssimo problema e uma chatice. Mas finalmente  obrigam-me e digo:

- Os que melhor falaram da morte morreram."

 Enrique Vila-Matas in “Diário Volúvel”. Tradução de Jorge Fallorca. Teorema  

* A frase título inicial era:  Este gajo faz-me bem. [Escrito na margem do livro]

abril 17, 2010

Leopoldo Lugones

Olharam-se então; e o que havia em seus olhos não era delícia senão dor. Algo tão distante do beijo, que nele cabia a eternidade.

in "Francesca".

abril 04, 2010

fevereiro 21, 2010

Consta que é domingo...

À hora inquieta do “Coiote” na Antena 3, já carrego duas marrecas de dia às costas, para dizer pouco, e ainda sem adro à vista lanço um último olhar às estrelas pequeninas que se regozijam no meu pedaço de céu. Uma carne estufada com vaca a tiracolo engraça entretanto com um ovo estrelado, mais salada e vinho tinto californiano, confluência sinistra que desagua invariavelmente num leito de whisky a dar para o pensamento. Atrevo-me, por momentos, a sufragar esta melancolia que rumina outros lugares. Sei disso. Mas não me sai da cabeça um livro do Alberto Manguel e um outro do Sebald. E não faço por menos a desmama do Giacomo Casanova: “Creio que na sua maior parte os homens morrem sem nunca chegarem a pensar”,in, “História da minha fuga das prisões de Veneza”, edição Antígona, 2006 (tradução de José Miranda Justo). Não tenho dito.

janeiro 26, 2010

da política

“Há ausências de memória, ou mentiras, que assustam; abrimos os ouvidos, esfregamos os olhos, sem saber se fomos enganados pela vigília ou pelo sono[…]Não percebemos se este homem recebeu da natureza uma autoridade tal , que tem poder para recriar ou aniquilar a verdade”.

Das “Memórias de Além-Túmulo” de Chateaubriand, sobre um tal de Talleyrand, que fora ministro dos Negócios Estrangeiros de Luís XVIII, in “Um Diário de leituras”, de Alberto Manguel. As “Memórias” do Chateaubriand não são fáceis de arranjar por aqui…



novembro 11, 2009

Desencontros

Num desses intermináveis passeios que me costumam aconchegar os dias, dei por mim num local já largamente fora da cidade onde, para todos os efeitos, eu era um incógnito num sítio desconhecido. “Que boa oportunidade para desaparecer”, pensei então, recordando o escritor Andrés Pasavento que à chegada a Sevilha aproveita que um homem de fato às ricas apanhe o seu táxi para desaparecer, supostamente sem deixar rasto, convertendo-se no Doutor Pasavento, descobrindo depois que ninguém deu pela sua falta. Nesse romance, Doutor Pasavento, Enrique Vila-Matas recorda Robert Walser, esse grande escritor, desaparecido toda a vida, e que depois de entrar no manicómio de Herisau na Suiça, nunca mais escreveu, preferindo dar uns intermináveis passeios solitários, até que a morte chegou num dia de natal precisamente durante um deles. Pensei na encruzilhada de caminhos que por vezes se cruzam sem, provavelmente, nós sequer notarmos. Curiosamente, quando voltava, veio-me à cabeça, não sei bem porquê que, se uns desaparecem outros simplesmente não aparecem. Um exemplo dos que não aparecem é visível na ausência (neste caso penso que notada) de Obama durante as comemorações da queda do (tal) muro da vergonha em Berlim. Talvez por vergonha. Um desses muros (da vergonha), embora travestido de (supostas) boas intenções cresce a olhos vistos na fronteira dos E.U.A com o México. Outros erguem-se como cogumelos sempre imbuídos de um espírito altruísta e não segregador: na fronteira de Israel com a Palestina; no Rio de Janeiro; nos gigantescos condomínios fechados adornados de arame farpado em São Paulo; entre as duas Coreias; na ilha de Chipre e aqui ao lado em Ceuta, entre outros. Estuguei o passo com receio que não dessem pela minha curta ausência. Todavia, desaparecer neste mundo em que cada muro tem um significado distinto pareceu-me então uma excelente ideia.