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setembro 14, 2018

novembro 27, 2014

Selfie made man

Escher, Auto-retrato (1935)

¿Qué hay en una selfie? Seguramente, un gesto de autoafirmación por parte de quien se autocaptura. Pero no siempre fue así. Para comprobarlo basta acercarse estos días en París a la Galerie de France (54 rue de la Verrerie), a una exposición de autofotografías del escritor polaco Stanislaw Ignacy Witkiewicz (1885-1939). Allí están, en Visages photographiés de près,las imágenes ya casi legendarias que se tomara a sí mismo Witkiewicz acercando muchísimo la cámara a su propio rostro, o bien acercándola al de alguno de sus amigos, como Artur Rubinstein, convencido el escritor como estaba de que la cámara le permitiría entrar, sin ninguna interferencia, en las profundidades del inconsciente (...)

Vila-Matas (daqui através do ajudante)

outubro 10, 2014

"A realidade é como um chulo drogado"


De repente, segundo exprimiu a testemunha, os cães puseram-se a tremer, como se tivessem farejado um tigre ou um urso. Mas, como aqui não há tigres nem ursos, imaginei que tinham farejado o fantasma de um tigre ou de um urso. Conheço os meus cães e sei que, quando começam a tremer e a rosnar é por alguma coisa justificada. Fiquei com curiosidade, por isso, depois de dar pontapés aos cães para se portarem como machos, dirigi-me decididamente para o regato.

Roberto Bolaño (“2666”)

fevereiro 24, 2013

Nas asas da Abdicação



Todas as ideologias, todas as concepções do mundo, sem excepção, se caracterizam pela intolerância. Todas são criadas por um certo grupo social para si próprio ou para um outro grupo, mas todas se outorgam o direito de serem válidas para toda a gente. Basta olharmos à nossa volta, basta olhar para trás, longe ou perto.

"terno Bárbaro", Bohumil HrabalTradução de Ludmila Dismánova. Teodolito. 


novembro 01, 2012

O culto dos mortos



«Dizia-se no séc. XVIII: nada de cidades com cemitérios. Dir-se-á no fim do séc. XIX: sem cemitérios não há cidades. Entre as duas atitudes há toda a distância do horror dos mortos conjurado e duma religião nova inventada no intervalo, a nossa, tal como reina nos nossos cemitérios de hoje, para onde arrasta as multidões de Novembro e os piedosos visitantes de luto do dia-a-dia.»

“Sobre a História da Morte no Ocidente desde a Idade Média” (pp.132), Philippe Ariès. Tradução de Pedro Jordão. Teorema. 

setembro 29, 2012

Mas qual exposição?


Doug Dubois,”My Last Day at Seventeen” - encontros de imagem (Braga Parque); Braga (Inútil).

Não lembra ao diabo, mas lembrou não sei a quem. É aquela coisa de aproximar a arte, ou, para utilizar uma palavra nómada, a cultura (neste caso a fotografia), do centro comercial, enfim, das pessoas, a montanha vai lá, não sei se estão a ver. O braga parque, o local desta exposição, não é especialmente recomendável, mas encaixa no caminho da parquetematização, da simulação, do simulacro dos espaços e das vivências, como registou Baudrillard, simular é fingir ter o que não se tem. Ainda por cima é triste: quem vem de fora nem sabe ao que vem (braga parque é uma galeria?), nem tem que saber (conheço um caso concreto), e depois chegam ali e não acreditam. Outros, da cidade ou de perto, deslocam-se propositadamente, e lá chegados parece que não encontram o sítio, perdem-se procurando e exposição, ou abalroam-na. Os outros todos simplesmente passam. Ninguém vê nada. As pessoas circulam, vão à sua vida, fazem as suas compras, almoçam, e se lhes perguntarem, talvez digam: mas qual exposição?

março 12, 2012

Manhã legível


Foi rápida a cena, sem passar na casa partida. Para correr ou caminhar apenas precisamos de uma coisa: pernas. Para que vos quero, ia eu já perto da padaria, atravessando um rumor lânguido, misturando chávenas, vozes e uma ou outra falcatrua de somenos. E o cabeçalho da manhã: sol eterno - “para aí uns 25 de máxima hoje menino. Sabe que Braga, ainda por cima, é um vale encaixado…” – e as 5 batatinhas do Sporting com “90% de trabalho e o resto…” de poesia. Já perto seria da hora dos martinis quando em voo raso aportei ao jardim das delícias. Em breve a rinoconjuntivite estaria de volta. E eu sabia-o.

fevereiro 29, 2012

O conto ao vigário, a pré irmandade e o culturalismo quase rafaelita


Ao Domingo, lá para o final da noite é quase certo que passa REV. (a gente chama-lhe o vigário) na Britcom (Rtp2), mas não é certo, de todo, que seja a primeira das séries a passar, esta semana por exemplo, foi a segunda, e já seriam 0h25m de segunda-feira. Vale a pena ensopar a insónia típica de domingo, ou simplesmente ensonar com o vigário Adam Smallbone e a sua congregação, Steve, Mick e por aí fora. O vigário Adam é um tipo que se chama Tom Hollander na vida real, mas ainda há dias era o John Ruskin na série Românticos Desesperados, que passava às segundas-feiras na Rtp2, e cuja acção decorre na Inglaterra do século XIX, contextualizando a Irmandade Pré-Rafaelita, ou parte desta, já que alguns dos efectivos da época não aparecem, mas pronto, lá está o Rosseti putanheiro e o Maníaco mais fixe dos pintores na televisão; de qualquer forma, bem melhor que O Mentalista, essa bosta metamorfoseada de inteligência postiça, cujo protagonista é um gajo com o nome da namorada do Tarzan, mais uma gaja chamada Lisbon – um portento de actriz com a expressividade de um paralelepípedo – obviamente sem nenhuma relação com as nossas amigas malucas, as irmãs Lisbon (suicidas), para que conste. Ora, o Ruskin foi um gajo que existiu mesmo, mas mesmo, um tipo que foi poeta, desenhador, esteta, filósofo, entre outros, mas especialmente um pensador da arte, da arquitectura e, sobretudo, da cidade, enquadrado (segundo Choay) no Pré-Urbanismo Culturalista. Sobre isto, evidentemente, muito pouco na série… com o Tom Hollander a confundir-nos entre o esteta filhinho da mamã, às segundas, e o conto do Mick ao vigário aos domingos, mas nem sempre. Fiquem lá com o mentalistazinho…mas apenas às segundas.

outubro 09, 2011

Envernizados pelas lagostas

Plano efémero de uma Instalação MM (praia de Ofir 08-10-11)


Uma vez passada a caixa dos “camemberts”
o escaravelhozinho perdeu-se no deserto
onde o presunto quase morreu de fome
Corre a um lado e outro
mas a um lado e outro só vê tomates caiados
Olha para cima e vê um cabide
a rir-se dele
Ó cabide envernizado pelas lagostas
tem piedade de um escaravelhozinho que deita a língua de fora
por não poder disparar sobre as meias
que dariam um tão bom jantar
Tem piedade de um escaravelhozinho que toca flauta
para tentar encantar-te
porque julgou que tu eras serpente
Porque não eras tu uma serpente de campainhas ou lunetazinhas
o escaravelhozinho teria roído a sua flauta
desesperado
não teria esperado a morte
atrás de uma gravata
E a morte não teria vindo
como um ancinho de cristal
e a morte não o teria apanhado
como se apanha uma "beata"

"NOITES DE INSÓNIA", Benjamin Péret, tradução Jorge de Sena (ASA)


Construção humana sintonizada com o espaço envolvente obedecendo a uma vertente prática perfeitamente inteligível (Ofir 08-10-11)