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setembro 28, 2018

Notícias do meu país


Confesso que continuo a maravilhar-me (quase) diariamente com este país. A criatividade, nas suas mais variadas formas, sobretudo as não responsáveis e as irresponsáveis, são um marco indelével e um exemplo para todo o mundo. Veja-se o caso (um romance para alguns, uma farsa para outros, mais distraídos) de Tancos. Após um ano e picos de diligências e histórias, finalmente não chegamos a conclusão nenhuma, mas só até ver. A juntar a Tancos e aos Comandos, ninguém das forças especiais quis ficar de fora e os Fuzileiros deram um ar da sua graça (literalmente): fuzileiros perderam caixa de munições e só deram por isso quando um condutor a achou na estrada.

Aqui perto, Pedrogão, ainda arde. Depois de sabermos a história da malta (criativamente) a tentar receber umas coroas à custa de pretensas primeiras casas que apenas eram visitadas de lembrança, chegamos agora a mais uma folia da justiça: autarcas, quadrosda EDP e da Ascendi acusados de homicídio negligente, sem esquecer a proteção civil. Por fim fiquei a saber que a minha licenciatura pré-bolonha (ainda tenho algures uma pós graduação e uma tentativa frustrada de receber uma bolsa de doutoramento – também queria ser filhos de deus e deste Portugal criativo), já não vai ser equiparada a mestrado como, aliás, havia sido prometido pelo governo. Não fiquei triste. Isto é uma terra de oportunistas, perdão, de oportunidades e desenrascanço. É como na República Dominicana, olhem lá:



setembro 14, 2018

março 04, 2016

País malparado


Mais uma contratação bombástica. A custo zero? Aguardamos a revelação das comissões envolvidas. Jorge Jesus era o nome mais falado, mas não podemos dizer que ficamos muito surpreendidos, pois não?

dezembro 23, 2015

Quem pinta um alvo na janela do jardim pode ter a certeza de que lhe atirarão*



Já se sabia que os cidadãos teriam de pagar alguma coisa, mas três mil milhões de euros é um custo demasiado alto para que a sua [Passos Coelho] gestão neste caso mereça um mínimo de condescendência. (Editorial do Público, 22-12-15)

(*Lichtenberg)

outubro 22, 2014

Ya ni gavaryú pa-rússki

Gazprom 4 - Sporting Clube de Portugal 3

Ontem ficamos a saber que bola na cara dentro da grande área é penalti. A sorte é que não dá direito a cartão. Caso contrário, ainda expulsavam o Silva por não colocar a cara atrás das costas. Devemos então estar satisfeitos: apenas o Maurício foi expulso, depois de ter piscado o olho a um adversário de forma lasciva; um dos golos do chalca não é precedido de fora de jogo porque o jogador ainda se encontrava dentro do campo embora desposicionado; os árbitros na Rússia têm tendência a apitar contra equipas cujo equipamento é da cor de um dos cartões. De resto, já se sabia que a liga dos cabrões não é para pobres ainda que estes tenham algumas histórias a contar. O facto de a equipa de arbitragem e um dos patrocinadores do chalca e da liga dos cabrões serem russos, não nos remete para a arrecadação dos incrédulos, não, apenas confirma que a história, ou as histórias, também se compram.  

março 10, 2014

Todo o reincidente leva já em si o reabilitante?*


Não sei se repararam na interrogação ao lado do leão? Não? Na verdade não é visível, de todo. Atentemos então na do título. Um tipo sai de casa a meio da tarde de domingo, deixa um livro e alguns pensamentos daqueles alienígenas para trás, toma banho mais cedo (não necessariamente por esta ordem), encontra a malta e começa a sportingar, meio caminho andado para um pacemaker, isto sem contar com os apitos. Vai daí começa o jogo, na verdade uma cena embrulhada em papel de batatal, chuta daqui e dali, marcamos logo um golo prontamente invalidado pelo apito e percebemos que o que se passava ali tinha um argumento, daqueles rapetas, previsível, com todas as mesmices que se impõem a filmes de merda, mas ainda assim um argumento, cuja única ideia verdadeiramente apalavrada com o cérebro seria: a equipa das listas verdes e brancas horizontais, neste caso vestida de tapete da páscoa à paisana pendurado à janela, não pode ganhar o jogo, ok? Em caso destes não nos resta outra alternativa do que pedir uma cerveja embrulhada em cigarros. Foi o que fizemos. Quando até um Pravda ou outro lhes reconhece o talento, quer dizer que está tudo encaminhado, não? 

[*frase título sacada de um cena do Cortázar, sem interrogação, e brisa leonina].

março 22, 2013

O continente dos mortos vivos [o verdadeiro Zombieland]



A questão zombie não é de somenos: existe, ou existia, um estado com um sistema financeiro muito particular, – este muito particular é o busílis da questão zombie – tão particular que nos remete para peculiar ao mesmo tempo que nos cabeceia em privado e nos amortece com a sua fugacidade íntima. Este sistema bancário, perdão, financeiro, tinha uma dimensão muito superior à economia de um país(?) chamado Chipre, ao qual supostamente pertencia, pormenor que durante longos anos, especialmente nestes últimos de apuro (quase) generalizado, terá (supostamente) escapado a todos os auditores, contadores, banqueiros, políticos, um fartote de anémonas cipriotas e europeias, o que nos remete para o conceito de zombie em part-time, já que esta (nova) extirpe, apenas zombieia em determinadas condições, normalmente por si ditadas, oscilando entre o modo zombie e o modo mais ou menos zombie quando se trata de assuntos irrelevantes como, por exemplo, aumentar impostos, diminuir salários, ou criar paraísos fiscais, coisa que nunca passou pela nem cabeça de Baudelaire ou De Quincey.

Estes e outros zombies em full-time, espécie muito em voga nas sociedades ocidentais, já foram sobejamente retratados nos filmes de Romero:


mas também do Carpenter:




A ilha de Chipre é pródiga em particularidades, estando dividida desde 1974 entre os cipriotas (Gregos) e os outros cipriotas (Turcos), antes por lá governaram com aproveitamento, os ingleses, os turcos otomanos, os venezianos e uma claque não oficial do Sporting. Um murete que ninguém reconhece nem quando lá esbarra com a cornadura, faz o seu papel de tampão. De um lado é a Europa, do outro, seja lá o que deus quiser. Entretanto, parece que há gás natural por perto, arregaçam-se as mangas e limpam-se as beiçolas da geoestratégia, enquanto se pede a uns que paguem (mais uma vez) a merda dos outros: coisa que lá, como cá, não falta. Enquanto isso, zombies de todas as extirpes assobiam ou não saem de cima. Estarão ao nível da série Walking Dead (que é mais fraquinha, - então a 3ª temporada): 




 [palhaço]

janeiro 30, 2013

Carta da semana: o mercado das putas


(fotografia: GP)
[Braga - 2012]

Companheiro de luta Vítor Gaspar: não se inquiete. Folgamos saber que estamos de volta aos mercados, embora nós aqui em baixo, verdade seja dita, nunca deixamos de fazer uma perninha nos ditos para assegurar a paparoca, pese a nossa imperícia negocial na selva especulativa do bife e da faneca do dia-a-dia, não imagina, a dona Lurdinhas e o Sebento são uns demónios da fruta e dos vegetais perto do angelical Ricardo Salgado, cuja cabeça desmemoriada associada à sua vida agitada na demanda do pão, o terá levado a olvidar a declaração de míseros 8,5 milhões de euros ao fisco, é muita penca, muita sardinha, muita couve-galega por declarar. Mas não se inquiete, sabemos que solicitou mais tempo para nos poder enrabar com a delicadeza do sangue frio, que isto de se mercadejar com o corpo é coisa velha de anos, entrada nos tempos e com ramificações e devaneios em Bragança, Viseu e outras devassidões e, assim sendo, o senhor conseguiu tornar o nosso país num imenso red light district, uma longa faixa de meretrício, incorporando assim a nossa estratégia turística da perna aberta com a nossa enraizada tradição religiosa, alicerçada no ajoelhou tem de rezar e no afamado posicionamento de missionário. De resto, não fossem as provas resultantes dos testes com radiocarbono, familiarmente conhecido por Carbono-14, duvidaríamos que o senhor, e as restantes múmias que o rodeiam, alguma vez tivessem tido coluna vertebral, todavia, ainda é cedo, segundo a comunidade científica, para sabermos com exactidão, se estamos em presença de animais vertebrados, dotados – de forma inaudita que seja – de uma qualquer espécie de cérebro.

PS: companheiro de luta Gaspar, gostará de saber que na nossa rua compramos nos saldos lâmpadas de luz vermelha para juntar aos oleados, que isto de sermos empreendedores e startups não é tão complicado como dizem. A rua vai ficar linda.

[fotografia originalmente publicada no Tio anda em viagem]

dezembro 10, 2012

Brasileiro, português de Angola


O negócio, para citar a irmandade brasileira, tem jeito não. Já se sabia da descabelada erosão dos nossos cérebros perpetrada no desígnio (mais um) da ortografia, chamando-se-lhe acordo, revelando-se na hora, eufemismo do mais fino quilate. Outros negócios, esses sim, florescem: a irmandade angolana, a compras, RTP, jornais, bancos, insignificâncias legitimadas na mais pura das convicções possidentes (petróleo e diamantes), tudo ao desbarato, que isto é terra de mão estendida. Essa mão estendida encobre outra: a mão escondida. A que acode aos negócios, uns e outros, sempre os seus, os mesmos que nunca colidem com os outros, encaixada na retórica encapotada do controlismo democrata, tudo para nós, nada contra nós. Assim vai a RelvasTP negociando e erodindo quem pega onda diferente, e assim vai o controleiro que se descontrola na aula e solta o gabinete de monotorização dos blogues, corolário de meses a roer-se por não se saber de tão distinto empreendimento. É assim a inteligência que nos pastoreia: de que vale espiar se ninguém sabe? No dito da irmandade brasileira, tem eufemismos para tudo, não? Mas se calhar vamos é ter um pai de santo… angolano. 

[imagem de Mana Neyestan]

dezembro 06, 2012

Carta da semana: e quem apanha as canas?


Companheiro de luta Cavaco: não se inquiete. Companheiro de luta Cavaco?... ei, companheiro de luta Cavaco? Ah!, não faz mal, bem sabíamos que o companheiro não andava por aí, consegue estar por perto sem andar por aí, ou por aqui, e sem ver, quer dizer, a olhar sem ver, é um sinal de que o silêncio germina mesmo nos locais mais inóspitos.  Não será o mesmo silêncio dos nossos dentes a rasgar a pele, nem o silêncio das noites sem dormir, esse silêncio amplo que nos acolhe em cachos e cuja membrana se cola ao corpo resistindo ao duche e à pedra-pomes, vossa excelência exala essoutro silêncio mofento das penumbras mais recônditas, dos acatares sombrios da mais tenebrosa indiferença, vossa excelência, creia-me, está tão imbuído do tempo antigo que o confunde com as autoroutes por vós tão agigantadas e que nos levam a lado nenhum. Os conselhos do companheiro, não duvide, foram escutados aqui na rua: já não escondemos as adulações mas em breve esconderemos a realidade. A vizinha de cima lá vai plantando flores, mas como ninguém (até ver) as come, entremeia com tangerinas e limões que não colhe, e além estruma um talhão com meia dúzia de couves e alfaces. O da frente lá vai mijando nos canteiros sempre que pode, demarcando o seu território de meia rua, para ele nada melhor que os produtos agrícolas made in continente ou made in pingo doce, fresquinhos e encerados, que a vida custa a todos. A Farrusca já não aparece, anda a cavalo pela sua propriedade de 20 metros quadrados a tentar perceber o que de melhor ali se dá, seguindo o conselho do companheiro Cavaco de voltarmos à lavoura, essa mesma que o companheiro empacotou em remessas enviadas com a nossa alma nos idos noventa, para a tal de Europa, quando éramos modernos. Os fantasmas da frente esquerda-cima confundem-se com reposteiros de época, parece que vão tentar a sorte como figurantes de um filme do Oliveira. Os outros aguardam os saldos para comprar oleados: vamos todos dedicar-nos à pesca. Não se inquiete, seguimos os seus conselhos. Quem anda à chuva molha-se.