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julho 03, 2013

A panela de pressão que só cozia pensamentos agradáveis*


Diz que aqui vamos de vento em popa. É verdade. O vento, às vezes, também lhe dá para bufar à ré, sem sinal que nos valha, tanto dá, vamos à bolina como vamos a descascar as mágoas, o barquito é sólido como um nenúfar. E todos sabem que os elefantes aproveitam os nenúfares para atravessarem o rio antes de entrarem na loja de porcelanas. Sucede que ninguém sabe muito bem como havemos agora de chamar ao companheiro de luta: Será Coelherque ou será Coelhortas? Ao Coelhortas já lhe vai faltando uma metade. Não que faça diferença, mas gostamos de conhecer as coisas pelos nomes. Aqui na rua, pois vamos indo, os fantasmas da esquerda frente raramente aparecem, diz que não têm dinheiro para as correntes. Nós cá não sabemos para que raios precisam os fantasmas de dinheiro, e até por isso estávamos a pensar em formar uma associação em prol da fantasmização geral, convencidos que uma das coisas boas de ser fantasma era estes não precisarem de dinheiro para sobreviver, requisito prévio muito do nosso agrado, pois dinheiro é coisa que não se vê muito por estes lados. Na padaria também se vai levando junto ao plasma novo. O Tabuletas voltou da Suíça e não fala de outra coisa a não ser da vitória do Rui Costa na volta em bicicleta, parece que também lá (como cá) ninguém lhe arranjava emprego, mas a forma que tinham de não lhe dar emprego era muito mais civilizada que cá, os “tipos nem papéis mandam para o chão”, mas aqui também existem coisas boas, “sempre podemos lançar uns foguetes, mais não seja está a chegar a época das queimadas”. E mais não disse.  


(*título adaptado de uma cena do Montalbán)

maio 15, 2013

Olhe, era a conta se faz favor




Companheiro de luta Coelhaspar, aqui pela rua tudo bem. Na padaria até pintaram uma das paredes com motivos cafezeiros, ao princípio ainda pensamos que era papel de parede mas não, é pintura de mão cheia, com um plasma a sufragar as nossas angústias pendurado com a relevância devida aos deuses cá de baixo. Lá se foi a RFM que aconchegava o calor das vozes minhotas, sempre com o mesmo rufar de cepa mais que duvidosa, é certo, mas ainda assim um rufar, uma tentativa de nos dar música, projectando mais um passo para o óbito das conversas com banda sonora, das historietas de meia tigela, vamos bem assim prenhes de imagens, para dar vida, como diz o patrão. Lá vida dá, afiança o Careca, mas desde que esteja a menina atrás do balcão. Na padaria podemos contá-los pelas mãos, 1, 2, 3, às vezes 4, 5 ou 6 clientes se for ao fim da tarde, o resto é de passagem, fica bonito ali o plasma, sim senhor, já fazia falta.

No coffee cosmopolita do lado o que não faltam são plasmas, faltam pessoas, contamos duas ou três e às vezes são os donos, a fazer número às mesas, tudo em fundo branco e mobiliário transparente, muito moderno. De regresso a casa pelo caminho mais longo, junto ao mecânico da esquina e ao vizinho das engenhocas ainda se escutam velhas músicas em rádios com necessidades especiais, lá chegará o dia do plasma entreter o espaço vazio de clientes. Ainda bem que o companheiro de luta Cavaco e os troicanos têm a inspiração de nossa senhora, podemos dormir descansados, ou então apostar na lotaria, como diria o Eça. De tão felizes, os vizinhos do lado esquerdo até já disseram que vão de férias para fora todo o ano, e os da frente esquerda vão para fora cá dentro…de casa.

 [não exit]

março 17, 2013

É a especialidade da casa, mas já não há


Mas a felicidade atinge o cúmulo quando se
persuadem que têm uma nova doutrina.
Erasmo (Elogio da Loucura)

Desliga a sanfona e vamos mas é beber um copo.
M. Naco (Obras incompletas até ver)


Companheiro de luta Relvas, sabemos que tem um plano. Também por isso, há que ser previdente e não dar demasiada corrente eléctrica à rádio televisão portuguesa, deixando-a em pousio, aguardando um assombro de luz viscosa que a incendeie por geração espontânea. O que vemos é um fartote de penumbra televisiva, quatrocentos golpes travestidos de galas, após o tombo temos direito a uma série de furúnculos segregando arredores de ficção, acolá uma tipa fala sobre fumo a sair de uma chaminé, diz que em Roma, e um outro com aroma a alheiras perto de Mirandela, em estúdio um (ia-mos jurar) ser humano dança enquanto entrevista um refugado e ali ao lado um painel de comentadores é revezado por um grupo de babuínos, sem que ninguém note diferença. Depois de tanta seiva um tipo já está a ferrar o dente ao sofá enquanto degusta a obra integral de Rodrigues dos Santos, como penitência.


É verdade, existem dois canais de convívio, fora os internacionais, no segundo estão sempre a aparecer leões, já os adoptámos de cor e salteado, no dia seguinte à sua exibição tornam a aparecer os mesmos leões mas a uma hora diferente, demonstrando-se assim que as suas reacções são sempre as mesmas independentemente da hora, diz que (aquilo) é um documentário, lá estão também as hienas para o provar. Por ali nunca se sabe quando vai aparecer um tipo qualquer de uma universidade privada de Cucujães ou de Santa Comba a debitar sobre os vestígios retardados do tv Rural e dos horizontes da memória, esta homónima de rtp. É verdade que a ausência total de ideias rumina sempre uma pergunta ou duas: que vamos meter entre o documentário dos leões e o 24horas? Quantas noites são, cinco? Mete-lhe um filme por noite e ficam aí cinco noites, cinco filmes. E foi assim que voltaram os filmes ao segundo.  

[tv = x]

fevereiro 25, 2013

Frequentemente recebem a denominação singela de antropóides


Fevereiro mostrou-nos que Portugal faz parte dessa terra que continua redonda e em movimento, neste caso, sempre no mesmo sentido. O léxico de autocarro inclui a espiral recessiva ao lado das transições rápidas defesa ataque, o que prova que a causa é inexorável, senão vejamos:
O Santander Totta teve 250 milhões de euros de lucros em 2012 e o banco do nosso companheiro Fernando sem-abrigo que através de uma ascensão meteórica um dia acordou como banqueiro Ulrich, BPI fechou 2012 com lucros de 250 milhões, já o BES do amnésico Ricardo Salgado fechou 2012 com cerca de 96 milhões de lucros.
Entretanto, a fraude BPN continua a estimular a piedade dos bolsos do estado a que por osmose solidária se juntam os nossos, e agora ficamos a saber de um ex-ministro que gostava de tapar buracos com Oliveira e Costa, tudo proveniente do mesmo saco amniótico cujo cordão umbilical desagua no companheiro de luta Cavaco.
Por falar na presidência, apraz-nos saber que ali se goza à tripa forra, em período de (suposto) controlo de despesas, esta emprega agora 500 pessoas mais 200 que o Palácio de Buckingham, o qual fica mais barato per capita aos britânicos do a que presidência da república aos nosso bolsos sem fundo.
Também o consultor Borges, um dos paladinos das medidas governamentais vem agora dizer, sem se rir muito, que a distribuição dos sacrifícios pedidos aos portugueses não tem sido equitativa e, segundo parece, há por aí muita impunidade. Lá isso é verdade.
Sem dramatismos, podemos sempre responder com a velha máxima, ainda recentemente utilizada pelo ex-secretário de estado da cultura Viegas, e mandá-los todos tomar no cu, embora este tomar no cu, em especial, nos pareça resultado da influência das inúmeras viagens que o escritor, editor, comentador desportivo e ex-secretário de estado faz amiúde ao Brasil. Aqui na rua é mais vão levar na peida, ou levar no cu, quando muito, vão apanhar no cu ou apanhar na peida.

E são estes gajos e seus sucedâneos que nos falam em democracia e em abalroamento da democracia, estes mesmos que favorecem as relações de subordinação, de lambebotismo e de corrupção, que anunciam medidas gravíssimas com desprezo e indiferença, dissimulando-as por detrás do biombo democrático, a estes todos, teremos de lhes dizer: vão apanhar na peida, ou no cu!

[olha]

fevereiro 21, 2013

Carta da semana: o esplendor do relvas


Companheiro de luta Relvas: não se inquiete. A bem dizer ninguém se apercebeu daquele seu olhar de desprezo a despenhar-se em gozo transbordante, a bem dizer o momento refulgia nas células que o animavam enquanto desafinava ostensivamente umas notas do Grândola, em mais uma equivalência musical que o aproximará do primeiro-ministro. Durante a tocata e fuga em ré menor do ISCTE foi diferente, o engolir em seco do companheiro de luta tamborilou na minha cabeça a mais de trezentos quilómetros do local, e o seu semblante desnorteado ficará entalhado no meu saco de eventos de reconhecidos autocratas caciqueiros, autodidactas da infâmia, peço desculpa, futuros doutores da infâmia. Conseguimos daqui conjecturar o seu apetite de reles cacique imaginando o que faria àquela gente toda que o apupava, sem dúvida que a casa correccional dos velhos tempos daria um jeitão, mas nem tudo está perdido companheiro, vários amostras da casa antiga retornam para nos ajoelhar perante esse fado que nos garroteia com a ventura de um castigo: a miséria. Outros avisados companheiros de luta e de putedo da coisa pública já assomaram para o defender com os transumantes ventos da rosa, Francisco Assis e Santos Silva, cujos cognomes religiosos atestam a bondade da sua missiva, condenando o desrespeito pelas supostas normas democráticas, enquanto vão andando de gamela em gamela. Companheiros, onde há miséria não existe democracia! Um destes dias não vos chegam mil euros para gesso. Apareçam cá na rua. Prometemos distribuir bordoada democraticamente.

[lixo]  

fevereiro 08, 2013

Carta da semana: tolerância zero


Companheiros, diz que o carnaval está próximo, mesmo sem tolerância de ponto lá teremos que tolerar as brasileiras lusas e os luso brasileiros portugueses de braga, transidos de frio e com a carne encorrilhada a fazer de conta que estão muito alegrados, e teremos ainda que condescender com outras merdas: o companheiro de luta Passos Coelho mascarado de primeiro-ministro, o companheiro Gaspar disfarçado de ministro das finanças e mais uma pauta de indivíduos ávidos das sobras, fantasiados de ministros, de presidentes de câmara, de presidentes da junta e por aí fora. Por exemplo, o companheiro de luta Seguro vai de António Costa, ao passo que o companheiro António Costa vai de António Costa, não vá o diabo tecê-las. O companheiro de luta Fernando vai de sem-abrigo que através de uma ascensão meteórica um dia acordou como banqueiro Ulrich – isto na terra das oportunidades como a nossa não custa nada! – o companheiro de luta Ulrich como alternativa também pensou em ir mascarado de vocalista de uma banda asfalto gótica austríaca, mas deve ficar-se pela primeira escolha. O companheiro de luta Ricardo Salgado vai mascarado de Ricardo Amnésia Salgado Monte Branco. Aqui na rua vamos todos ao entrudo chocalheiro bem longe, deixamos os oleados e as luzes vermelhas, levamos as putas, os amigos e os vizinhos que não mijem nos arbustos e não se queixem das costas e das cruzes, da pensão da Alemanha, das rendas baixas que (supostamente) cobram aos inquilinos, levamos a Farrusca, o gato, os fantasmas do esquerdo frente, levámos o Tabuletas se ele considerar soltar fogos, e vamos todos assim, mascarados de: VÃO TODOS PARA O CARALHO! 

janeiro 30, 2013

Carta da semana: o mercado das putas


(fotografia: GP)
[Braga - 2012]

Companheiro de luta Vítor Gaspar: não se inquiete. Folgamos saber que estamos de volta aos mercados, embora nós aqui em baixo, verdade seja dita, nunca deixamos de fazer uma perninha nos ditos para assegurar a paparoca, pese a nossa imperícia negocial na selva especulativa do bife e da faneca do dia-a-dia, não imagina, a dona Lurdinhas e o Sebento são uns demónios da fruta e dos vegetais perto do angelical Ricardo Salgado, cuja cabeça desmemoriada associada à sua vida agitada na demanda do pão, o terá levado a olvidar a declaração de míseros 8,5 milhões de euros ao fisco, é muita penca, muita sardinha, muita couve-galega por declarar. Mas não se inquiete, sabemos que solicitou mais tempo para nos poder enrabar com a delicadeza do sangue frio, que isto de se mercadejar com o corpo é coisa velha de anos, entrada nos tempos e com ramificações e devaneios em Bragança, Viseu e outras devassidões e, assim sendo, o senhor conseguiu tornar o nosso país num imenso red light district, uma longa faixa de meretrício, incorporando assim a nossa estratégia turística da perna aberta com a nossa enraizada tradição religiosa, alicerçada no ajoelhou tem de rezar e no afamado posicionamento de missionário. De resto, não fossem as provas resultantes dos testes com radiocarbono, familiarmente conhecido por Carbono-14, duvidaríamos que o senhor, e as restantes múmias que o rodeiam, alguma vez tivessem tido coluna vertebral, todavia, ainda é cedo, segundo a comunidade científica, para sabermos com exactidão, se estamos em presença de animais vertebrados, dotados – de forma inaudita que seja – de uma qualquer espécie de cérebro.

PS: companheiro de luta Gaspar, gostará de saber que na nossa rua compramos nos saldos lâmpadas de luz vermelha para juntar aos oleados, que isto de sermos empreendedores e startups não é tão complicado como dizem. A rua vai ficar linda.

[fotografia originalmente publicada no Tio anda em viagem]

dezembro 29, 2012

Carta da semana: 2012



Companheiros de luta do governo: não se inquietem.
Aqui só visto: na rua e arredores é um correr de carros que nunca mais acaba, montes deles até tem pequenas mensagens escritas, como TRATA-SE, e depois um número de telefone, este fenómeno também é observável em estabelecimentos comerciais e habitações, embora com variantes expositivas, deve ser aquela coisa das redes sociais. Por falar em rede, o que vier é peixe, a malta até está a pensar em juntar o útil ao agradável e chamar à equipa do bairro os Trinca Espinhas (também pensamos em Pele&Osso), atendendo às dietas malucas que fazem esses tresloucados dos desempregados e pessoal do ordenado mínimo e, para além disso, temos que seguir os sábios conselhos da companheira de luta Jonet e habituarmo-nos a petiscar as espinhas, para sabermos como a vida é dura. Na rua, de resto, vai tudo de vento em popa, recordar-se-ão dos oleados que compramos nas promoções para irmos à pesca?,  – seguindo os conselhos do companheiro de luta Cavaco – saibam que também os aproveitamos como gabardine para a chuva e como colete para o carro. À noite, às vezes, fazemos umas corridas doidas, vestidos com os oleados amarelinhos a servir de coletes reflectores, parece uma procissão, tão linda, há mesmo malta que não os tira nem para dormir, aquilo dá um pijama muito jeitoso, principalmente em casas como as nossas, com muita humidade. De resto os vizinhos andam meio desencontrados, a Farrusca nem a vemos, deve andar a estourar a reforma de trezentos euros, há até quem diga que já marcou mesa no réveillon do Hotel Altis, a desvairada. Não sabemos é se deixam entrar malta vestida de oleado. Mas pode ser uma festa temática, nunca se sabe. Bom ano.

[fotograma de Metropolis]


dezembro 06, 2012

Carta da semana: e quem apanha as canas?


Companheiro de luta Cavaco: não se inquiete. Companheiro de luta Cavaco?... ei, companheiro de luta Cavaco? Ah!, não faz mal, bem sabíamos que o companheiro não andava por aí, consegue estar por perto sem andar por aí, ou por aqui, e sem ver, quer dizer, a olhar sem ver, é um sinal de que o silêncio germina mesmo nos locais mais inóspitos.  Não será o mesmo silêncio dos nossos dentes a rasgar a pele, nem o silêncio das noites sem dormir, esse silêncio amplo que nos acolhe em cachos e cuja membrana se cola ao corpo resistindo ao duche e à pedra-pomes, vossa excelência exala essoutro silêncio mofento das penumbras mais recônditas, dos acatares sombrios da mais tenebrosa indiferença, vossa excelência, creia-me, está tão imbuído do tempo antigo que o confunde com as autoroutes por vós tão agigantadas e que nos levam a lado nenhum. Os conselhos do companheiro, não duvide, foram escutados aqui na rua: já não escondemos as adulações mas em breve esconderemos a realidade. A vizinha de cima lá vai plantando flores, mas como ninguém (até ver) as come, entremeia com tangerinas e limões que não colhe, e além estruma um talhão com meia dúzia de couves e alfaces. O da frente lá vai mijando nos canteiros sempre que pode, demarcando o seu território de meia rua, para ele nada melhor que os produtos agrícolas made in continente ou made in pingo doce, fresquinhos e encerados, que a vida custa a todos. A Farrusca já não aparece, anda a cavalo pela sua propriedade de 20 metros quadrados a tentar perceber o que de melhor ali se dá, seguindo o conselho do companheiro Cavaco de voltarmos à lavoura, essa mesma que o companheiro empacotou em remessas enviadas com a nossa alma nos idos noventa, para a tal de Europa, quando éramos modernos. Os fantasmas da frente esquerda-cima confundem-se com reposteiros de época, parece que vão tentar a sorte como figurantes de um filme do Oliveira. Os outros aguardam os saldos para comprar oleados: vamos todos dedicar-nos à pesca. Não se inquiete, seguimos os seus conselhos. Quem anda à chuva molha-se.  

novembro 22, 2012

Carta da semana: da nossa rua vê-se o mar



Companheiro de luta Passos Coelho: não se inquiete. Olhe, nós aqui em baixo tudo bem. Começámos, seguindo o seu avisado conselho, a cavar um túnel, mas depois disseram-nos que cavando para Leste, quando muito, dávamos com os cornos em Espanha, não sendo um problema de vento ou de casório, essa solução não nos serve de muito, pois não? Para Oeste? Boa ideia, seguindo a cepa antepassada, mas não temos graveto para barcos e já ninguém dá boleia a ninguém, ainda ponderámos a solução do chileno Super Rato dos Detectives Selvagens do Bolaño e entrar à socapa num cargueiro em Matosinhos, mas somos muitos sabe, mais que as mães, no máximo temos alguns conhecimentos na Apúlia, mas aí os barcos são muito pequenos e há sargaço até dar com um pau dos grandes. Ficámos. Na nossa rua, um dos dois fantasmas da frente esquerda deixou crescer a barba, cada vez nos aparecem menos, se calhar ficam por detrás das cortinas a ver a banda passar e a polir as correntes. Os da frente esquerda baixo, esses, ninguém lhes põe a vista em cima, tornaram-se transparentes, diz-se, após uma formação que fizeram, deixando ali o carro estacionado o tempo todo, à espera que o banco nacional contra os depósitos vazios dos carros lhe dê uma piedosa mão. A Farrusca aparece pouco, a de cima refunde-se, conforme convém, e ficamos a saber que a outra anda assim porque toma os remédios com cerveja. Os diospiros agora são gourmet, cada um vale um cheque compras no valor de um pastel de chaves, ainda por cima com uma cor deslavada de quem anda mal do fígado. É ir às promoções, não é meu caro? Ou juntar dinheiro e comprar um manual de construção naval. Mas não se inquiete, cá por baixo tudo bem.

novembro 16, 2012

A nossa rua dava um filme



Companheira de luta Jonet: não se inquiete. Olhe, tá a ver, os nossos vizinhos do lado ainda fazem almoçaradas aos domingos, a familória toda, imagine, chegam e estacionam os carros, não está a ver a frota, uns atrás dos outros, adolescentes e tudo. A coisa dura que dura, às vezes um dia inteiro, não é difícil imaginar a chispalhada, os panadinhos, o rancho para aquela gente toda. Mas isso vai acabar, tá a ver, não tarda. A vizinha Farrusca este ano ainda não trouxe as tangerinas, de diospiros nem vê-los, agora até lhe deu para pintar ela o portão, metade verde, a outra metade esverdeada, aos setenta anos e com bom corpo para trabalhar e ainda se dá a ares, a solteirona, num sobe e desce que cansa, e diz que chega ao dia quinze sem cheta de reforma, um balúrdio de pra aí trezentos euros. A lá de cima, essa é que se queixa, vive de alugueres e de remorsos, acumula reformas coitadita, e lá vai inventando umas obras para ter os homes por perto, já se vê, deu-lhe as cruzes e sem dinheiros para ares, lá vai tomando os que pode, e escutando o que não deve. Os dinheiros, esses, rumina-os o colchão. Do Manso ali da frente diz-se que passou o diabo a quatro depois de amassado, uns anitos em França, quatro palavras novas, umas quantas moradias na rua, as outras na aldeia, vários muretes musgados e duas mudas de roupa, todas iguais. Casa de banho apenas no exterior, a atender nas mijas que vai dando nos arbustos, em competição privada com os gatos. Às vezes permite-se um outro passeio nos transportes públicos, com passe de reformado, que a vidinha está cara. Está, mas não para ele, nem para si, companheira de luta Jonet. Pois não?

[lata]