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março 10, 2013

Também é frequente deliberarmos que naquele (outro) tempo é que era


(…) uma altura em que muitos europeus acreditavam que existia qualquer formula infalível para a realização de um multicentenário sonho de total e feliz desenvolvimento individual na liberdade e no progresso, e em que o século XIX expôs perante os olhos de milhões a sua prosperidade multifacetada e ilusória e criou a sua miragem de conforto, segurança e felicidade para cada um e para todos, e tudo a preços acessíveis e a crédito.

“A ponte sobre o Drina” (pp. 202), Ivo Andrić. Tradução de Lúcia e Dejan Stanković. Cavalo de Ferro.


Pretender que um grupo de indivíduos, mesmo os mais inteligentes e os mais bem-intencionados, sejam capazes de se tornar a ideia, a alma, a vontade dirigente e unificadora do movimento revolucionário e da organização económica do proletariado de todos os países, é uma tal heresia contra o senso comum e contra a experiência histórica que nos perguntamos, com espanto, como é que um homem tão inteligente como Marx pode tê-lo concebido.

Bakunine, (“Oeuvres” - 1872) In “História do Anarquismo” (pp.255), Jean Préposiet. Tradução de Pedro Elói Duarte. Edições 70.

fevereiro 24, 2013

Nas asas da Abdicação



Todas as ideologias, todas as concepções do mundo, sem excepção, se caracterizam pela intolerância. Todas são criadas por um certo grupo social para si próprio ou para um outro grupo, mas todas se outorgam o direito de serem válidas para toda a gente. Basta olharmos à nossa volta, basta olhar para trás, longe ou perto.

"terno Bárbaro", Bohumil Hrabal. Tradução de Ludmila Dismánova. Teodolito. 


dezembro 09, 2012

“Por mais que reine, o povo soberano nunca governa”


It's life, John, but not as we know it.

«Os libertários foram os únicos que compreenderam que o princípio de autoridade não perdeu nada da sua força – muito pelo contrário – em democracia. (…) De facto, o poder democrático tem um efeito duplo. Por um lado, ao apresentar-se como a expressão da vontade geral, tem facilidade em manter o indivíduo sob a dependência da lei, considerada oriunda desta vontade indiscernível, e o Estado é visto como representante do interesse geral face aos interesses particulares. Por outro lado, o governo democrático não tem pejo em afirmar-se como defensor natural dos direitos imprescritíveis da pessoa humana no seio da colectividade. O círculo fecha-se. 
Anónimo e impessoal por definição, o poder democrático parece acima de qualquer suspeita. Como desconfiar de sistema que se refere constantemente à vontade de todos? No entanto, é inquietante vê-lo monopolizar assim o querer da Totalidade. Sendo o Todo considerado superior aos elementos que o compõem, o interesse geral deve sobrepor-se aos interesses particulares. De tal modo que, segundo este princípio, o governo democrático, único interprete desta totalidade fictícia, se arroga o direito pessoal de definir e determinar os limites do interesse geral. Cioso desse direito exclusivo, tende a considerar ilícito qualquer interesse particular, cuja existência, numa sociedade igualitária, não passa de uma tolerância provisória, concedida sob reserva, em todo o caso severamente controlada e cada vez mais precária. De direito, nada deve subsistir por si mesmo fora da Totalidade, pela qual o poder democrático é o único a responder. (…) Actualmente, a necessidade de tudo controlar leva-o à taxinomia: ficheiros, inventários, catálogos, etc. Com a informática o imperium vê-se finalmente na posse de um instrumento com que nem ousava sonhar.»

“História do Anarquismo” (pp.74-75), Jean Préposiet. Tradução de Pedro Elói Duarte. Edições 70.

Nota: registe-se que a primeira edição (em França) data de 1993.