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dezembro 22, 2012

O nada a avançado centro



A verdadeira alienação, a única que coloca um problema a Stirner, é a sua própria, enquanto sujeito existente, enquanto mónada. Nunca é a do colectivo humano. Deste modo, para quê suprimir a alienação religiosa, se é para logo a substituir pelo fetichismo do Homem, ou seja, do Outro, forma de idolatria mais refinada, sem dúvida, mas igualmente alienante, se não mais? De facto, «o divino olha para deus, o humano olha para o homem. A minha [Stirner] causa não é divina, nem humana […] não é geral, mas única, tal como eu sou único». Por isso, a recusa de todos os atributos genéricos, de todas essas entidades abstractas que são a Natureza humana, a Essência do homem, etc. O regresso ao Único, ao Eu sem conteúdo, ou seja, a nada: “fundei a minha causa sobre nada”…Mas este nada é o centro de tudo.

“História do Anarquismo” (pp. 145), Jean Préposiet. Tradução de Pedro Elói Duarte. Edições 70. 

dezembro 09, 2012

“Por mais que reine, o povo soberano nunca governa”


It's life, John, but not as we know it.

«Os libertários foram os únicos que compreenderam que o princípio de autoridade não perdeu nada da sua força – muito pelo contrário – em democracia. (…) De facto, o poder democrático tem um efeito duplo. Por um lado, ao apresentar-se como a expressão da vontade geral, tem facilidade em manter o indivíduo sob a dependência da lei, considerada oriunda desta vontade indiscernível, e o Estado é visto como representante do interesse geral face aos interesses particulares. Por outro lado, o governo democrático não tem pejo em afirmar-se como defensor natural dos direitos imprescritíveis da pessoa humana no seio da colectividade. O círculo fecha-se. 
Anónimo e impessoal por definição, o poder democrático parece acima de qualquer suspeita. Como desconfiar de sistema que se refere constantemente à vontade de todos? No entanto, é inquietante vê-lo monopolizar assim o querer da Totalidade. Sendo o Todo considerado superior aos elementos que o compõem, o interesse geral deve sobrepor-se aos interesses particulares. De tal modo que, segundo este princípio, o governo democrático, único interprete desta totalidade fictícia, se arroga o direito pessoal de definir e determinar os limites do interesse geral. Cioso desse direito exclusivo, tende a considerar ilícito qualquer interesse particular, cuja existência, numa sociedade igualitária, não passa de uma tolerância provisória, concedida sob reserva, em todo o caso severamente controlada e cada vez mais precária. De direito, nada deve subsistir por si mesmo fora da Totalidade, pela qual o poder democrático é o único a responder. (…) Actualmente, a necessidade de tudo controlar leva-o à taxinomia: ficheiros, inventários, catálogos, etc. Com a informática o imperium vê-se finalmente na posse de um instrumento com que nem ousava sonhar.»

“História do Anarquismo” (pp.74-75), Jean Préposiet. Tradução de Pedro Elói Duarte. Edições 70.

Nota: registe-se que a primeira edição (em França) data de 1993.


dezembro 02, 2012

A singularidade insubstituível


«Na dialéctica do universal e do particular, o momento essencial não é definido pela totalidade. A verdadeira essência das relações humanas está, pelo contrário, no indivíduo concreto. Hegel é aqui invertido. É o todo, o Estado, que se torna o momento não essencial da relação dialéctica. O essencial, o valor supremo, o verdadeiro sujeito do direito político e histórico,  a célula biológica e social fundamental que constitui a totalidade e a faz existir animando-a a partir do interior, mais não é do que o indivíduo. O anarquismo começa assim pelo egoísmo (Stirner) e apresenta-se como defensor permanente da liberdade subjectiva.»

“História do Anarquismo” (pp.50), Jean Préposiet. Tradução de Pedro Elói Duarte. Edições 70.