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fevereiro 03, 2013

Por motivo de força maior



  – Mas como vive? – perguntou-lhe a duquesa, condoída.
  – A mãe das crianças fia; a filha mais velha está na quinta duns liberais, onde guarda carneiros, e eu roubo, na estrada de Placência a Génova.
  – E como é que harmoniza o roubo com os seus princípios liberais?
  – Tomo nota das pessoas a quem roubo e, se um dia tiver alguma coisa, hei-de devolver-lhes as quantias roubadas. Entendo que um tribuno do povo como eu executa um trabalho que, devido ao seu perigo, vale bem cem francos por mês; por isso tenho o cuidado de não roubar mais de mil e duzentos francos por ano.
   Minto, roubo algumas pequenas quantias além disso, pois graças a elas posso pagar a impressão das minhas obras.
 – Que obras?
 – A… virá um dia a ter um quarto e um orçamento?
 – Como! – disse a duquesa, espantada. – É o senhor um dos maiores poetas deste século, o famoso Ferrante Palla!
 – Famoso, talvez, mas muito desgraçado; isto é que é certo.
 – E um homem do seu talento, senhor, ser obrigado a roubar para viver!
 – É talvez por isso que tenho algum talento. Até hoje, todos os nossos autores que se tornaram conhecidos eram pessoas pagas pelo governo ou pelo culto que eles pretendiam minar. (…)

“A Cartuxa de Parma” (pp.370), Stendhal. Tradução de Adolfo Casais Monteiro. Relógio d’Água.


janeiro 26, 2013

Não é a ortografia que faz o génio



Ludovico aproveitou esses longos momentos de lazer para recitar a Fabrício alguns dos seus sonetos. Os sentimentos eram bastante justos, mas como que enfraquecidos pela expressão, e não valiam o trabalho de ser escritos; o singular era que este ex-cocheiros tinha opiniões e maneiras de ver vivas e pitorescas; mas tornava-se frio e vulgar desde que se punha a escrever. «É o contrário do que vemos no mundo – pensou Fabrício – ; agora sabe-se exprimir tudo com elegância, mas os corações não têm nada para dizer.» Compreendeu que o maior prazer que podia das àqule criado fiel era corrigir os erros ortográficos dos sonetos.
  – Fazem pouco de mim quando mostro o meu caderno – dizia Ludovico –; mas se Vossa Excelência de dignasse ditar-me a ortografia das palavras letra por letra, os invejosos já só poderiam dizer: «Não é a ortografia que faz o génio.».

“A Cartuxa de Parma” (pp.212), Stendhal. Tradução de Adolfo Casais Monteiro. Relógio d’Água.

janeiro 21, 2013

Oh, fale-nos um pouco de si signori Fabrício



O príncipe eludia-se ao julgar Fabrício discípulo da tia; as pessoas de espirito que nascem no trono ou ao lado dele não tardam a perder toda a subtileza de tacto; proíbem, à sua volta, a liberdade de conversação, que se lhes afigura grosseria; não querem ver senão máscaras, e pretendem julgar a beleza da tez; o mais engraçado é julgarem-se cheios de tacto. Neste caso, por exemplo, Fabrício acreditava em quase tudo quanto lhe ouvimos dizer; é certo que não pensava duas vezes por mês em todos esses grandes princípios. Possuía gostos apurados, tinha espírito, mas não lhe faltava a fé.
O gosto da liberdade, a moda e o culto da "felicidade do maior número", de que o século XIX se apaixonou, não passavam a seus olhos duma heresia que há-de passar como as outras; mas ao cabo de matar muitas almas, tal como a peste mata muitos corpos enquanto reina numa região. E, apesar disso, lia deliciado os jornais franceses, e até cometia imprudências para os obter.

“A Cartuxa de Parma” (pp.150) , Stendhal. Tradução de Adolfo Casais Monteiro. Relógio d’Água.

[penguin]

janeiro 15, 2013

A cartuxa de Parma começa assim (foda-se, é fabuloso!)



A 15 de Maio de 1796, o general Bonaparte entrou em Milão à frente daquele juvenil exército que acabava de passar a ponte de Lodi e mostrara ao mundo que, passados tantos séculos, César e Alexandre tinham um sucessor. Os milagres de audácia e de génio que a Itália presenciou no decorrer de alguns meses acordaram um povo adormecido; oito dias antes da chegada dos Franceses, os Milaneses ainda não viam neles senão um punhado de salteadores habituados a fugir das tropas de sua Majestade Imperial e Real; era, pelo menos, o que, três vezes por semana, lhes repetia um jornalinho do tamanho da palma da mão, impresso em papel sujo.

“A Cartuxa de Parma”, Stendhal. Tradução de Adolfo Casais Monteiro. Relógio d’Água.
Eu já volto…

[campagne de 1796]

junho 03, 2012

maio 31, 2012

As palavras vãs e as palavras-chave

– Tem de haver sempre em França dois partidos – continuou monsieur de La Mole; – dois partidos não só de nome, mas dois partidos bem claros, bem distintos. Precisamos de saber quem é que devemos esmagar. Por um lado, os jornalistas, os eleitores, a opinião, em suma: a juventude e todos quantos a admiram. Enquanto ela se atordoa com o rumor das suas palavras vãs, nós temos a vantagem certa de poder recorrer ao tesouro.

“ O vermelho e o negro” (pp.327), Stendhal. Tradução de José Marinho. Relógio de água.

maio 29, 2012

["A hipocrisia, para ser útil, deve ocultar-se"]

“Os salões da aristocracia são agradáveis para se dizer que se esteve lá, mas é tudo. A total insignificância, as conversas vulgares, sobretudo aquelas que vão para além da hipocrisia, acabam por impacientar. A delicadeza, por si, só impressiona nos primeiros dias. Era o que Julien sentia. Depois do primeiro encantamento, sobrevinha o espanto. A «delicadeza», dizia ele, «não é mais do que a ausência daquela espécie de cólera própria da brutalidade».”

O vermelho e o negro” (pp.266), Stendhal. Tradução de José Marinho. Relógio de água.

salão

maio 25, 2012

E insensível às salsichas com chucrute


“Após alguns meses de constante aplicação, tinha ainda o ar de quem pensa. A sua maneira de baixar os olhos e de contrair a boca não revelava a fé capaz de acreditar em tudo e de tudo suportar, até mesmo o martírio. Era com cólera que se via suplantado nessa postura pelos mais rudes camponeses. Havia boas razões para que eles não tivessem ar de quem pensa.”

“ O vermelho e o negro” (pp.159), Stendhal. Tradução de José Marinho. Relógio de água.

maio 23, 2012

Oh, fale-nos um pouco de si, Monsieur Julien


"Não se deve pensar muito mal de Julien; inventava correctamente as palavras de uma hipocrisia cautelosa e prudente. Não estava mal para a idade. Quanto ao tom e aos gestos, tinha vivido com camponeses e faltara-lhe o convívio dos grandes modelos. Mais tarde, mal lhe foi dado aproximar-se desses senhores, conseguiu rapidamente tornar-se tão admirável pelos gestos como pelas palavras."

“ O vermelho e o negro” (pp.45), Stendhal. Tradução de José Marinho. Relógio de água.

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