Entretanto, na página duzentos e
trinta e um (edição Europa- América, 1973 – a coisa já vem daqui), de “O
Zero e o Infinito”, duzentas e trinta páginas de amarelecimento (também já li
as restantes, incluindo o posfácio, e comprova-se esse amarelecimento macilento
das páginas) depois, Arthur Koestler escreve: havia um erro no sistema; talvez residisse no preceito que até agora
considerara incontestável, em cujo nome sacrificara outros e estava ele próprio
a ser sacrificado: no preceito de que o fim justifica os meios. Fora esta frase
que liquidara a grande fraternidade da Revolução [assobios para o ar] e os transformara a todos em loucos furiosos.
Que escrevera ele no diário? «Atiramos borda fora todas as convenções; o único
princípio que nos guia é o da lógica consequente; navegamos sem lastro moral.»
Estivemos a rondar a decomposição aqui e ali. E noutros locais certamente.
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abril 18, 2020
abril 14, 2020
Isolamento (XVII)
Se tem febre e tosse ou garganta dorida, fique em casa: assim
começa “O Planeta dos Macacos – A Revolta”. Eu tinha estado a rever “O Planeta
do Macacos – A origem”: a ideia era criar um medicamento para o Alzheimer,
testado em chimpanzés (a primeira versão do medicamento era inclusive testada no
pai do protagonista), criando assim o retrovírus ALZ-113, desembocando a
brincadeira na doença da Gripe Símia e numa pandemia mundial de consequências
terríveis. O meu cérebro cozinhou ali mesmo uma ou duas teorias da conspiração,
infalíveis. Após vinte e sete minutos de filme, observando alguns chimpanzés
importantes a cavalo (para quando uma revolta dos cavalos? - digo eu), decido ir ler um pouco e retomar as teorias conspirativas mais tarde, ao sol.
Lá fora o silêncio era total. Sentei-me,
na companhia de Arthur Koestler (“O Zero é o Infinito”). Lá fora o silêncio era total, dizia Arthur Koestler. Todo o movimento da prisão estava congelado
na escuridão. Fumei um cigarro. Acho que bebi água. Fui dormir.
Não penses, faz: constava de um letreiro pendurado por cima da máquina
de escrever de Ray Bradbury. E assim terá sido por mais de setenta anos, fonte fidedigna.
Não penses, faz: lê-se na introdução
ao livro de contos “Teremos sempre Paris”, de Ray Bradbury. Aconteceu-me hoje
de manhã. O Carteiro ainda toca, pelo menos uma vez. E desta vez trouxe boas
notícias: “Teremos Sempre Paris”, e “Franny E Zooey”, de J.D. Salinger.
Entretanto, fui tomar o pequeno-almoço.
abril 11, 2020
Isolamento (XV)
Estive a pensar: lá
fora é o exterior?
Um exemplo: A cultura vai ter de ocupar as ruas, vai ter de ocupar as cidades,
diz uma ministra. O campo está dentro de nós, é roupa de andar por casa, uma
ideia velhíssima: a província.
Livrarias independentes juntam-se e lançam campanhas. A rua não o
sabe. Dentro de portas ainda há rua. As muralhas têm as suas portas e, lá
dentro, ruas. Das ameias vê-se quase tudo.
Sucedem-se: movimentos não
visíveis a olho nu. A seguir ao pico será a planície. É uma pergunta?
O mundo biológico não quer saber
da geografia (pano para mangas).
Lido cá de dentro, “Victoria”, de
Knut Hamsum, parece escrito sob o peso de um universo onde o mundo está apenas
a começar a morrer. Já morre há alguns dias. O filho do moleiro ainda escreve
poesia: estive a olhar as minhas fantasias
onde o sol é muito forte [e queima].
Arthur Koestler escreveu “O Zero
e o Infinito” (saiu da minha caixa de primeiros socorros). “O Zero e o Infinito”
é uma prisão: mesmo se considerarmos o exterior, dentro de cada um habita já
uma prisão: não havia certezas; só o
apelo a esse oráculo trocista chamado história que só lavrava as suas
sentenças quando os maxilares dos que para ele apelavam se tinham transformado
há muito em pó.
Ganha pouco [lay-off assim de forma simplificada]: bom nome para uma loja, inspirador de
confiança (Flaubert)
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