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agosto 20, 2012

The Soaked Lamb: a flor e o espinho



Tira o teu sorriso do caminho
que eu quero passar com a minha dor


(Portuguesíssima versão - dir-se-ia com odor Argentino - de um original brasileiro de Nelson Cavaquinho. Grande vídeoclip. Fabuloso.)

setembro 18, 2011

Por exemplo

"Montaigne acreditava que, já que não podemos derrotar a morte, a melhor forma de contra-ataque é tê-la constantemente em mente: pensar na morte sempre que o nosso cavalo cai ou cai uma telha dum telhado. Devíamos ter o sabor da morte na boa e o seu nome na língua. Antecipar a morte é soltarmo-nos da sua servidão; além disso, se ensinamos uma pessoa a morrer, ensinamo-la a viver.”

“Nada a Temer”, de Julian Barnes, Quetzal, Tradução de Helena Cardoso.

Julian Barnes, autor do genial “O Papagaio de Flaubert”, mereceria (temos quase a certeza) uma capa mais interessante para a versão portuguesa de “Nada a Temer”. Entre a aproximação xunga ao genério da série Sete Palmos, e as capas de livros de auto ajuda com as letrinhas em relevo e a arvorezinha num fundo cinza com sombreados, esta capa é menina para despertar em nós uma fúria raivosa capaz de decepar de um só golpe o frontão do moço que disserta ali perto sobre literatura, ou o caralho. Resta-nos a consolação de muita gentinha comprar isto ao engano.

junho 26, 2011

Pasmo mudo

Ontem: Noute. Quente, para não animar ninguém com vontade de “hostes”. E depois todo um programa semanal em que não participei, animei, ou sequer exclamei qualquer vontade, desígnio, ou empenho em verberar os hematomas de uma desgraça que, sendo alheia, é a própria, e a mais não serei obrigado. Posto isto, não reconheço a mudança.

Hoje, se calhar recordo que os “acontecimentos não aconteceram, estão à espera de acontecer no momento em que pensarmos neles”, relendo o “Austerlitz” de W.G. Sebald, e esperando subitamente melhores dias neste (outro) início de noite. Fui - evidentemente lá estive - à padaria, procurando a rosca e, ainda assim, na manhã quente desci e subi essa inclinada plataforma sem pensar em nada, atravessando um reservatório de calor e luz encoberto pelos muros e por um conjunto, segundo creio, de memórias, que me dificultaram, por momentos, atravessá-lo, sem que me detivesse por um momento. Chegado, recebi o chá numa ventura que encerrava trabalhos: carro; casa, livros; trabalho; discos…e um “pasmo mudo”?

dezembro 12, 2010

Por acaso até ia escrever umas coisas inteligentes sobre o momento Sporting que dura que dura mas: obrigado por tudo Manel

Imagem com a cortesia alvalaxia.blogspot.com 

De um lado uma espécie de equipa do Sporting, com (mais) um treinador a acostumar essa espécie de equipa a não ganhar. Ainda desse lado, uma espécie rara de dirigentes, gestores néscios bem barbeados, levam essa espécie de Sporting aos píncaros do derrotismo: qualquer derrota é uma boa derrota; qualquer derrota é um click(!).  Do outro lado, ontem, estava o Sporting a treinar o Vitória de Setúbal. Ainda vale a pena descer a correr as bancadas para junto da vedação e dizer “Olha o Manel Fernandes!”.

Nota: parece que essa espécie de Sporting perdeu com o Vitória de Setúbal, cujo treinador é o Sporting...

agosto 15, 2010

Como é que se espera?

A confusão instalou-se definitivamente. A casa sabe a pó e é pasto de aranhas insubmissas; estou sujo e uma membrana adiposa pende do meu abdómen, oferecendo ao conjunto, um corpo humano instalado à beira de um ataque de sofá, e um cérebro relativamente encaixado na cavidade craniana onde surge a questão: “qual terá sido o filme da semana?”. Ao sonho do final da manhã, em que um membro da raça felina, andrógino, e um outro da raça humana, género feminino, assistiam placidamente ao “Babel” do Iñárritu, foi-me objectado que me teria enganado na semana. E no dominó que tenho vestido ultimamente, não? – pensei, enquanto me dirigia ao local das escadinhas onde sempre leio a semana em atraso, através de uma manta de jornais.
Duas mortes: Ruy Duarte de Carvalho, antropólogo, o escritor cineasta e viajante, que morreu longe; um senhor que se recordava de “ter mudado inteiramente de pele, pelo menos uma meia dúzia de vezes ao longo da vida”, e que me transportou por momentos para outras minhas peles, enquanto assistia com a uma espécie de júbilo ao desenrolar da manhã. E outro escritor, historiador e cronista, Tony Judt, o mesmo que me levou a um pequeno ataque quando vi o preço do seu “Pós Guerra – A História da Europa desde 1945”, que vou ler, já estará algures numa prateleira em fila de espera, enquanto me entretenho solitariamente com o “Danúbio” de Magris. De resto, na imprensa, tudo nos recorda que o inferno é em Portugal.
Afinal, o filme da semana foi o “Zatoichi” de Takeshi Kitano, uma preciosidade adquirida por 1,95 Euros com o Público. Quanto ao “Origem” de Christopher Nolan, que fomos ver ao cinema, o melhor é aproveitar o “Memento”.
Mais tarde, ali ao lado do intrépido (vencido) Sporting, um “Almoço de 15 de Agosto”, de Gianni di Gregório, que eu sei que não viram, pois não?

fevereiro 02, 2010

Olha o bife e um gajo ainda fica como o Ozzy


Um jogo de bola é apenas um jogo de bola. Certo. A morte do artista, leia-se, Sporting, ocorre(u) logo no primeiro acto. À parte disso, não temos mais sonhos no mundo. 
Tecnicamente, e para espingardar, o Sporting está já ali ao lado do
(cabrão) Belém, descendo as calcinhas com um ronronar imperceptível mas dinâmico, caminhando inexoravelmente para a puta que o pariu…


janeiro 23, 2010

A semana requentada


Não sei bem, mas um destes dias, um destes dias, com a camisinha aberta até ao início do fim do diafragma, onde de resto (não faço por menos) pontificará um Cristo pendurado em prata de lei, entre convulsões mais ou menos enérgicas resultantes do consumo excessivo de espumante fita azul, comentarei, entre pratos, a notícia da semana; a saber, o Ricardo Sá Pinto, contra todas as expectativas, violentando um ex. caixa de supermercado que ganha agora 120.000 ouros, assim por alto. Por agora, não sei bem porquê, deambulo com o Chatwin, entre uma assoalhada e outra, enfarpelado de mutante intrépido, à procura de um tal Ravenstein, saído da pena de um gajo mais ou menos americano: um tal Bellow. “De belouuu não tinha nada”, remata o desaparecido Alfredo, menos fresco de que uma alface, e não é para menos, depois do temporal que se arremeteu contra as estufas do oeste. Depois, se tiver vagar, ainda vou ao youtube, guarnecer a minha sapiência de notas sobre fruta, bola e o sr. Pinto da Costa. Mas isso será lá mais para o fim da noite, quando encontrar o Céline espalmado numa vidraça, como consta numa obra apócrifa de um (outro) amigo meu. Que é um regalo para as vistas...

janeiro 20, 2010

Arroz de tomate e feijão com panadinhos

Estaria quase? Andávamos em experiências, envolvendo os nossos devaneios e um corte e sutura que não nos levava a lado algum.Em sintonia, cada vez mais, um conjunto inexorável de certezas acentuava o nosso falhanço: estávamos quase, quase lá. Por exemplo, cada vez menos leituras nos acompanhavam os dias, embora nos sonhos, entre o regurgitar solitário de um trabalho e outro, elas lá estivessem, as leituras, ou o seu negativo, sem se conseguir determinar a existência (visível) de livros, objecto indeterminado. Em cada momento, o seu contrário nos recordava o passar inexorável do tempo, sem que este jamais se apoderasse (a início) das coordenadas da nossa vida. Uma porta ali; uma pedra familiar acolá. E nada, nadinha de espaços com sentido abstracto, tudo palpável, concebível e, presumivelmente justo. Quem sabe com direito a férias…

janeiro 19, 2010

Afinal de contas uns enchidos e vinho tinto

Ali ao lado, um no parking afere cada visita como se fosse sua. Não é. Mais, só se for o rosto fechado de um conhecido quando, por acaso, nos cruzamos num desses túneis pedonais que nos carregam para o outro lado de um prédio em escadinhas sinuosas. O prédio, já de si desnecessário, alicerçou a ventura de um túnel, inventado para estes cruzamentos de poucos metros, justificando umas arrobas de cimento armado e afins. A gente até imagina o outro lado, é ali, ali mesmo, pouca coisa, e já está a subir um sobejo de empedrado que lá ficou à deriva de qualquer fôlego intervencionado. De resto, ah, aquele rosto, ali atrás, faz pitorescamente parte de uma paisagem interior, literalmente interior, alheia à sua própria passagem. E é muito mais fácil não nos cruzarmos. É para isso, julgo, que serve a modernidade: uma passagem, sem afectos, e afinal de contas, de encontro a um antigo empedrado. 

janeiro 17, 2010

"Nostalgia do interior"

À pergunta título de um livro do Chatwin "O que faço eu aqui?", a resposta enigma, singela e intermitente de Walser, algures num trilho esquecido: "As fadigas, os grosseiros esforços necessários para alcançar honras e fama neste mundo, não foram feitas para mim". Insatisfeito, pensei, não sei bem porquê, em Ruy Belo, e nesse instante que invoca um outro recente, sentei-me e li:
"Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?"
"Quanto morre um homem" enquanto procura o seu interior...

janeiro 10, 2010

A trincheira I: e se?

Não demora nada. Mas demora. Tudo isto pesa. Escrever, escrevinhar sublinhe-se, sobre cada coisa, qualquer coisa, e depois retomar, ainda assim não vem mal nenhum ao mundo, pois tudo entardece, como diria um amigo, na ventura de um segundo. Cada vez mais reconheço na maturidade a superficialidade de um desperdício: e se…? Certamente não me arrependo, enquanto no balouço imaginário da corda ao pescoço, ainda percorro um caminho. E depois o para onde?, cada vez mais, um passo à retaguarda, pese esse trilho torto que descai invariavelmente para um abismo. Não escolho. Não tenho como. 

dezembro 16, 2009

As ruínas não circulares

Estava a tentar ver televisão quando me sobreveio dos confins da memória o meu antigo recreio. Na minha primeira escola primária, em verdade, uma escola proveniente do aproveitamento de uma antiga casa do século XIX, em pleno centro da cidade, e em que orgulhosamente participei no seu encerramento na década de 1970, no final da segunda classe, deparei com meu primeiro recreio. Não seria propriamente um pátio, no sentido a que este normalmente está associado, mas um campo de terra rectangular, para onde nos levavam umas escadarias de pedra que desciam de ambos os lados das traseiras do edifício. Um gigantesco rectângulo parecia-me à época, já infestado nas margens de arbustos e ervas daninhas, com um centro pelado pelas correrias e jogatinas de futebol e, à margem, junto à casa, igualmente desgastado pelas meninas, nos seus jogos. Nessas incursões, vi jorrar sangue a primeira vez a sério, e não posso esquecer as tentativas frustradas de fuga à reguada conectadas por um medo miudinho que (ainda) ultrapassava o respeito. Para além disso, podia-se sonhar à tripa forra, não apenas na escola e no recreio, mas no caminho de casa, cheio de curvas que o adiassem, gelados de coca-cola e batoques e, depois, finalmente o rio. Encontrei igualmente um recreio, ou melhor um pátio, no romance de Vila-Matas, “Doutor Pasavento”, uma “pérola condensada do tédio escolar”, diz-nos Vila Matas, adoptando Robert Walser em Jacob von Gunten, quanto este escreve que «O pátio ficou abandonado como uma eternidade rectangular». De um lado a recreação e do outro o tédio, a terra versus o cinzentismo? Não me parece tão simples. De qualquer forma, a esta distância, e segundo o arquétipo actual, toda a gente iria querer um pátio, limpinho; todavia, creio ainda assim que, a minha antiga escola primária, e não apenas o edifício, ficaram abandonados na sua eternidade rectangular.