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abril 09, 2020

Isolamento (XIV)


Trieste, Dasa Drndic - Sextante Editora

Trieste: com imaginação e algum álcool à mistura, soaria, saído da boca de um amigo açoriano, como triste. A altas horas da noite, claro. A altas horas da noite da sua vida, Haya Tedeschi espera. A sua história é pequena, escreve Daša Drndić, uma das inumeráveis histórias sobre encontros, sobre os vestígios preservados do contacto humano. Haya vai retirando de um grande cesto vermelho pedaços da sua vida, e a história da sua família agita-se em contacto com o ar (por vezes irrespirável) da sua memória. Haya Tedeschi espera em Gorizia (ou Gorz - conforme nos deslocamos do Império Habsburgo à Itália), localizada a noroeste de Trieste, junto à fronteira com a Eslovénia. Esta zona é uma gamela (o uso desta palavra é intencional) cultural em constante vaivém de impérios, fronteiras, guerras e morte. Haya espera o seu filho. Sessenta e dois anos passaram.

Daša Drndić não aprecia particularmente a expressão ficção documental como classificação para o seu método de trabalho, ainda assim, na página 417 (nota da autora e permissões) escreve: no espírito e na tradição estabelecida da ficção documental, integrei as vozes de muitas figuras e palavras de muitos escritores ilustres. A sua escrita é uma mistura de ficção e faction (neste caso literature faction), isto é, um texto sustentado em figuras e eventos históricos reais misturados com ficção, socorrendo-se de fotografias, documentos, transcrições. Esta é uma história da decomposição que trespassa o século XX.

Como é que Haya conhece e se enamora de Kurt Franz? Pois, na tabacaria onde trabalha. Franz tem 30 anos, veste uniforme (já o imaginamos?), é vistoso, alto e forte e, oh, gentil. A sua alcunha polaca é “Lalka”, isto é, boneca. Franz é fotógrafo amador (parece que dos maus). Haya passeia com Franz: encontra-se com ele sorrateiramente nos arredores de Gorizia, vão a Trieste à ópera, ao cinema, sentam-se nas esplanadas. Kurt conta bonitas histórias a Haya, o seu cão Barry, o seu trabalho na Polónia numa linda floresta, perto de uma encantadora estação ferroviária, onde havia um parque zoológico. Bons tempos.

À sua volta, além da guerra, sucedem-se as viagens dos comboios de mercadorias com paragem em Triste e Gorizia (durante a noite). É preciso ordem. Destino: Mauthausen, Dachau, Treblinka, Auschwitz. Os nomes de cerca de nove mil judeus que foram deportados de Itália, ou mortos em Itália, ou nos países que Itália ocupou entre 1943 e 1945, constam deste livro (páginas 173 - 233). (Nem seria necessário ir para longe: San Sabba também dava conta do recado). Existem outras listas disponíveis, da Aktion T4 1943, por exemplo. Atrás de cada nome há uma história.

Kurt Franz (assim por alto): SS- Untersturmführer, nasceu em 17 de Janeiro de 1914, em Düsseldorf. Cozinheiro. Serve no exército de 1935 a 1937. Alista-se nas Waffen-SS, com o número 319 906. Inicia a carreira em fins de 1939 como cozinheiro no centro de eutanásia de Grafeneck. E depois? Bom, Kurt Franz ainda trabalha como cozinheiro em Buchenwald e em 1942 vai para Belzec e a seguir para Treblinka. Treblinka torna-se o seu reino. Depois da revolta de agosto de 1943, torna-se comandante do campo. Em Treblinka pavoneia-se, cavalga, sai de manhã para uma corrida, canta, canta, (…) mantém-se em forma, cuida do seu belo corpo, e o seu fiel Barry está sempre atrás dele. Gosta de flores. Antes de encerrar o campo, Kurt Franz passa o tempo a matar pessoas. E depois? No final de 1943 Kurt Franz é transferido para Trieste, onde conhece a judia Haya. E depois?...


Nota: “Trieste” é traduzido do inglês por António Pescada. “Trieste” é o título da edição inglesa. O título original da edição croata é Sonnenschein: uma palavra alemã que quer dizer luz do sol, segundo creio. Percebo que Trieste (um porto histórico atestado de estórias e mitos) como título seja muito estimulante. Não percebo a necessidade de os leitores portugueses lerem uma tradução da versão inglesa. Arriscar-me-ia dizendo que algo se perdeu?)

abril 05, 2020

Isolamento (XI)


Curzio Malaparte parece um nome saído de um Western Spaghetti. Curzio Malaparte é o pseudónimo de Kurt Erich Suckert, nascido em Prato, Itália, a 9 de Junho de 1898, filho de Erwin Suckert, de origem alemã. Malaparte foi quase tudo: teve uma educação proletária (tinha sido confiado a uma família de operários), aderiu ao partido republicano (do qual foi secretário), alistou-se (muito jovem) como voluntário na Legião de Garibaldi, combatendo em França, na primeira Guerra Mundial. Com a entrada da Itália na guerra alistou-se como voluntário, começando, aos dezassete anos, a trepar na hierarquia, de soldado raso a comandante, gaseado em Bligny, as sequelas pulmonares acompanhar-lhe-ão toda a vida. Volta a Itália em 1921, após um périplo (vamos assim chamar-lhe) burocrático por vários países, para trabalhar como jornalista e escritor. Adere ao partido fascista e em 1925 assina o Manifesto dos intelectuais fascistas, já como Curzio Malaparte. Entretanto, vai escrevendo e publicando. Viaja. Trava duelos. Conhece mulheres. Em 1931 publica “Técnica do Golpe de Estado” (já lá vamos). Cai em desgraça junto do partido fascista (as razões são várias) e é condenado ao desterro (curto) em Lipari, passando por Ischia e Forte dei Marmi. Escreve contos, prosa de reflexão, escreve em jornais (às vezes à socapa), edita revistas, eu sei lá que mais.

Pausa. Antes do isolamento cá do burgo, a 8 de Março, lia no blogue “Tempo Contado”, de Rentes de Carvalho: Agora que o medo é tanto e tão espalhado, procuro conforto na leitura de Malaparte, que tão bem soube descrever até que fundo de nós mesmos o medo pode torturar. A imagem de uma das suas obras, “Kaputt”, edição francesa, fazia as honras da casa. Procurei: as plataformas online de vendas reconheciam o autor. Esgotado. Apenas disponível em edições inglesas, espanholas, francesas. Todas as suas obras emblemáticas: A Pele, Kaputt, Malditos Toscanos, As Mulheres também perdem a guerra, O sol é cego, Técnica do Golpe de Estado, entre outras. Tudo (ou quase) havia sido publicado, noutro espaço-tempo, o dos anos 80 do século passado, em várias editoras (Europa-América, Livros do Brasil e colecções com organizadores livres), reflexo de uma época de grandes edições (as traduções são outra conversa), agora apenas disponíveis em alfarrabistas e vendas de usados. Existem muitos autores que definham no limbo dos usados. Eu tinha uma pulga atrás da orelha e esta chamava-se Malaparte.

Dias depois, estava eu deitado a ler “Trieste” de Daša Drndić quando, na página 31, esta faz uma referência ao signor Ugo Ojetti, com direito a uma grande nota de rodapé. Escreve Daša Drndić que o fascismo atraiu um certo número de intelectuais italianos. Mais tarde, escreve ainda Daša Drndić, viram a luz e abandonaram o partido. Lá está Luigi Pirandello (prémio nobel da literatura) e Curzio Malaparte. Em Março de 1925, no Congresso dos Intelectuais Fascistas realizado em Bolonha, o seu Manifesto é assinado por Curzio Malaparte, Tommaso Marinetti, Ugo Ojetti(…) entre muitos outros, escreve Daša Drndić. Ainda não tinha chegado àquela parte do livro onde se lê: atrás de cada nome há uma história. (“Trieste” também faz parte de uma história da decomposição, mas isso ficará para depois). A pulga continuava a insinuar-se.

Arrumações: a sala requeria uma barrela e assim foi. Ao abrir a caixa de primeiros socorros (uma surpresa de aniversário, anos antes), onde supostamente se guardariam elementos indispensáveis à sobrevivência, neste caso, um kit com livros (depois também carregadores de telemóvel), tudo edições Europa-América de bolso compradas em vários devaneios, feiras e arredores: por exemplo, “Da Guerra”, de Carl Von Clausewitz, “O Zero e o Infinito”, de Arthur Koestler e… “Técnica do Golpe de Estado”, de Curzio Malaparte, entre outros. Curzio Malaparte está cá em casa desde 17 de Março de 2016, comprado algures, perdido na caixa de primeiros socorros - abrir apenas em caso de emergência, possivelmente em fila de espera de leituras que se acumulam, ou apenas aproveitamento de espaço vital, não sei, não me recordo.


Edição de bolso de 1983, devidamente enquadrada com uma introdução de Luigi Martellini, escudada numa antologia crítica (Trotski, por exemplo), com uma nota bibliográfica de 6 páginas (a quem este texto é devedor) e bibliografia, e ainda sobra espaço para a obra: “Técnica do Golpe de estado”. A consequência disto tudo é a letra microscópica e um constante focar, mesmo recorrendo a auxiliares preciosos como óculos. Esforço a que nos dedicamos com algum prazer.

Já agora: em 1939 encontramos Malaparte na África Oriental como enviado especial do Corriere della Sera; em 1940, o oficial Malaparte (re)começa a sua viagem pelas ruínas e pela morte (segunda guerra mundial). Edita “O Volga nasce Na Europa”, “O Sol é Cego” e “Kaputt”. Segundo Martellini, estas são as obras que definitivamente cortam com o fascismo. Entre 1944 e 1945 terá solicitado a adesão ao PCI (Partido Comunista Italiano). “A Pele” é editado em 1949 (com o autor a residir em França): escandaloso, antipatriótico, imoral, blasfemo, dizem. Em 1949 Malaparte trabalha (sozinho, é o que consta) em  Il Cristo Proibito, rodado no ano seguinte na Toscânia. O filme é polémico e é premiado em Berlim. Escreve contos, teatro, poesia.

1956: a última aventura. Convidado a ir à Rússia visita igualmente a China de Mao. Está doente. Tem um tumor incurável. Volta a Itália e agoniza durante cem dias numa clínica da Roma. Parece que a sua cabeceira era muito requisitada. A névoa pernoita perto de si. Muitas coisas saem dessa névoa. Curzio Malaparte morre no dia 19 de Julho de 1957.

março 28, 2020

Isolamento (VIII)


Não há fins. Quem pensar que há está iludido quanto à sua natureza. São tudo começos. (escreveu Hilary Mantel). Mas já começa, escreve Daša Drndić em “Trieste”, a ser evidente (não interessa para aqui a que propósito), que qualquer tentativa de criar um novo começo (…) conduzirá a um fim, tal como todos os fins contêm um início. Dois livros que se tocam (de forma livre), através de minha decisão de os ler em sequência, sabe-se lá porquê, talvez por se encontrarem na pilha dos não lidos, pilha essa que também incluirá os a reler, ou os complementares àqueles, lidos ou em leitura. As semelhanças dos dois textos, devidamente truncados, levaram-me, ontem, para um patamar de ebulição cerebral próximo da criação de deuses por crianças. Sabemos que ao são tudo começos, seguia-se: aqui está um. E esse um, especificamente, esse começo, era “Trieste” de Daša Drndić. Bem vindos à minha loucura. Obrigado.

março 27, 2020

Isolamento (VII)


Todavia. (…) A palavra “todavia” é como um duende enroscado debaixo da nossa cadeira. Induz a tinta a formar palavras que ainda não vimos e as linhas a marcharem pela página fora e a passaram das margens. E depois? Não há fins. Quem pensar que há está iludido quanto à sua natureza. São tudo começos. Escreveu Hilary Mantel em “O Livro Negro”. 

E continuou: aqui está um.

Trieste, Dasa Drndic - Sextante Editora
E estava mesmo...