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março 18, 2014

E apressou-se a ironizar para encobrir a nudez do vício


– A poesia é como o sol que faz crescer as eternas florestas e que gera culicídeos, mosquitos e melgas – disse Blondet. – Não há virtude que não venha acompanhada de um vício. A literatura também gera livreiros.

Balzac ("Ilusões Perdidas")
[fotograma de os 400 Golpes de Truffaut]

novembro 11, 2012

“O círculo dentro do qual os homens se agitam alargou-se insensivelmente”


Vivemos numa época em que o defeito dos governos consiste em terem feito mais o Homem para a Sociedade que a Sociedade para o Homem. Existe um eterno combate entre o indivíduo e o sistema que pretende explorá-lo e que ele trata de explorar em seu proveito; ao passo que, dantes, o homem, realmente mais livre, se mostrava mais generoso para com a coisa pública.

“O padre de Tours”, Balzac (1832). Tradução de Pedro Tamen. Relógio D’Água

outubro 30, 2012

A avó: o espectro sublime



«Houve então algo que fez estremecer os marceneiros, que foi ver a velha Lorrain, aquele espectro sublime, de pé à cabeceira da sua menina. O terror e a vingança insinuavam as suas chamejantes expressões em milhares de rugas que lhe franziam a pele de marfim amarelecido. Aquela testa encimada de esparsos cabelos grisalhos exprimia a cólera divina. Com aquele poder de intuição que é próprio dos velhos perto da sepultura, lia toda a vida de Pierrette, na qual, de resto, pensara durante a viagem. Adivinhou a doença de rapariga que ameaçava de morte a sua menina querida! Duas grossas lágrimas penosamente brotadas dos seus olhos brancos e cinzentos, a que os desgostos haviam arrancado pestanas e sobrancelhas, duas pérolas de dor formaram e lhes transmitiram uma assustadora frescura; foram engrossando e rolaram-lhe pelas faces ressequidas sem as molhar.»

“Pierrette” (pp. 127), Honoré de Balzac. Tradução de Pedro Tamen. Relógio D’Água.

outubro 24, 2012

Como sabemos, “todo o mercador aspira à burguesia”, vai daí, os primos:


«Rogron e Sylvie, estas duas máquinas sub-repticiamente baptizadas, não possuíam, nem em germe, nem em acto, os sentimentos que conferem ao coração a sua vida própria. Por isso, aquelas duas naturezas eram excessivamente fibrosas e secas, endurecidas pelo trabalho, pelas privações, pela memória das suas dores durante uma longa e rude aprendizagem. Nem um nem outro lamentavam qualquer infelicidade. Eram, não implacáveis, mas intratáveis para com as pessoas em dificuldades. Para eles, a virtude, a honra, a lealdade, todos os sentimentos humanos consistiam em liquidar as letras regularmente. »

“Pierrette” (pp. 28), Honoré de Balzac. Tradução de Pedro Tamen. Relógio D’Água.

outubro 21, 2012

O tio era: “a imagem vaga de um vasto vinhedo batido pelo granizo”


«Rogron gostava da boa mesa e de ser servido por raparigas bonitas. Pertencia à seita dos egoístas de comportamento brutal, dos que se entregam aos seus vícios e fazem as suas necessidades com todo o descaramento. Ávido, interesseiro, pouco delicado, obrigado a satisfazer as suas fantasias, foi comendo os seus lucros até ao dia em que lhe faltaram os dentes. A avareza manteve-se. Na velhice, vendeu a estalagem, ficou, como se viu, com toda a herança do sogro, e retirou-se para a casinha da praça, comprada por tuta e meia à viúva do tio Auffray, avó de Pierrette.»

 “Pierrette” (pp. 23), Honoré de Balzac. Tradução de Pedro Tamen. Relógio D’Água.

[brasserie]