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fevereiro 09, 2020

Não consigo

Resultado de imagem para a bola não entra labirinto

Não consigo é um bom slogan. Frederico já não está perdido numa encruzilhada. Frederico é a encruzilhada. Ontem ouvi parte da sua entrevista ao Record num canal qualquer. Frederico perora sobre o seu trabalho invisível, as obras na academia o (re)negociamento da dívida (curiosamente, Carlos Barbosa, poucas horas antes declarando-se seu apoiante falava de um clube sem dinheiro para mandar cantar um cego e que devíamos vender 50% do capital da SAD), o blá blá da aposta na formação (sem se rir), e quanto ao resto ele simplesmente não consegue.

Fatia considerável desse resto fazia parte do seu putativo domínio do conhecimento do futebol, do balneário, das contratações cirúrgicas, para usar um termo que lhe deve ser caro. De engano em engano, com sucessivos tiros no pé e noutras partes anatómicas, atropelado pelas evidências, Frederico lá vai reconhecendo alguns erros. Meses de atraso medeiam uma ou outras dessas pequenas epifanias que lhe permitem ver (e contradizer-se) com espanto a realidade.

Eu não consigo, seria um mote muito interessante para um candidato a eleições, pelo menos ficávamos logo a saber com o que contar. Assim, o não consigo, revela-se não apenas como um exercício penoso, mas irremediavelmente tardio, a reboque das circunstâncias, dos resultados, aflorando de uma epiderme visivelmente desgastada por constantes retoques.

Não consigo poderia igualmente entrar para os anais da literatura light de supermercado. Está ao nível do Prometo Falhar e Prometo Perder de Pedro Chagas Freitas, ou do Não Há Coincidências de Margarida Rebelo Pinto. Muito longe do preferia não o fazer, personalizado por Bartleby, no clássico de Melville, Bartleby o Escrivão.

Recentemente, no Aleixo FM, programa de Bruno Aleixo na Antena 3, dizia-se que o futebol português é uma porcaria lenta e que as porcarias lentas são sempre (consideradas) muito estratégicas. E quando não são lentas estão paradas. Assim é o jogo e assim é governado o futebol que supostamente o gere. Sobre isto as palavras voaram alto. Relativamente à lentidão de processos estamos conversados.

(publicado originalmente no insustentável)

setembro 26, 2019

A saga de Frederico*


Tinha saído de um cruzamento com algum tráfego, após se ter perdido numa rotunda, vindo de uma cangosta em terra batida com a ajuda de um GPS. Saiu da viatura a arfar. Olhou em redor. Se olhássemos com atenção víamos mais duas ou três pessoas dentro da viatura. Parece que ninguém o terá acompanhado nessa saída. Estava escuro. Minutos depois voltou a entrar. Um pouco mais à frente encontrou um entroncamento com os semáforos desligados. Deitou à sorte e seguiu com determinação. A noite trazia-lhe agora algumas luzes que lhe deram algum alento. Mas a estrada era secundária e sem grandes referências. Deixou o GPS e urdiu um plano com a cumplicidade dos demais. Não andou muito até encontrar mais uma encruzilhada. Desta vez não hesitou e acelerou. Reconhecia aqueles lugares mas não lhes conseguia dar um nome. Ficou confuso. Já era dia alto quando, finalmente, encontrou o seu labirinto, ficava junto a um promontório que dava para um abismo. Pelo menos não era um beco sem saída.

(* 43º Presidente do Clã Sporting)

[publicado originalmente no Insustentável Leveza de Liedson - deixo igualmente algumas postas anteriores, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui]

janeiro 29, 2019

Há VAR e BAR, há ir e voltar


A chegada de Keiser despertou as luminárias da bola, todas elas versadas em futebol holandês e croissants amanteigados. Com as primeiras vitórias o desassossego instalou-se (Bernardo Soares escreveu sobre isso), e tiveram que se arranjar duas ou três explicações para o fenómeno enquanto se entrevistava Jorge Jesus algures no médio oriente. Após as primeiras derrotas, um dos analistas avançou com um ou dois pensamentos que fizeram escola no liceu de Carrazeda de Ansiães: nas vitórias os oponentes eram fracos, nas derrotas os oponentes eram consideravelmente superiores. Por exemplo, o Tondela. Do lado dos fracos ficava o Rio-Ave, a mesma equipa que o analista havia elogiado pouco tempo atrás como grande candidata ao quinto lugar. Em Carrazeda, duas teses de finalistas explicam em dezoito páginas esta linha avançada de pensamento.

Entretanto, uma convenção de treinadores portugueses reunia-se para discutir o calendário do cozido à portuguesa nos estágios e a importância das chicotadas psicológicas num curriculum vitae que se preze. José Mota foi um dos oradores mais aplaudidos. Lito Vidigal e Jorge Simão terão sido vistos a trocar papelinhos suspeitos. Conceição dissertou sobre bipolaridade: uma coisa é quando se ganha, outra quando se perde. Aplausos. Este debate foi seguido com muita atenção por todo o país.

Mais ou menos por essa altura, talvez um pouco antes, um conhecido dirigente terá visto a luz. Primeiro ainda se pensou que este iria a caminho do estádio com o mesmo nome, mas não, estávamos apenas a entrar num território bem conhecido do futebol português: o espiritismo. Quem diz espiritismo diz mezinhas, bruxaria, capelinhas, ou apenas feelings. Talvez seja por isso que o treinador contratado de seguida pelo dirigente que viu a luz, seja um expert em feelings. Tudo coisas que um treinador holandês, não possui, nem nunca possuirá, obviamente. A associação de treinadores portugueses que vão para os jogos de motorizada, aplaudiu com agrado.

Se possível fazer golos. Foi mais ou menos assim que Abel Ferreira lançou o jogo da meia-final da taça da liga contra o Sporting. Ainda não se descobriu outra forma de ganhar jogos, mas Abel, ainda assim acrescentou: e se possível não sofrer. Diz isto em todos os jogos, e apostamos que nas convenções de treinadores portugueses também, mas é sempre bom escutar estes pensamentos. Como já se sabia que o Braga ia à final, embora tivesse que marcar mais golos que o adversário, ficava apenas em suspenso quem seria o oponente. Salvador, lá no íntimo (como muitos bracarenses) preferia o Benfica, mas a conduta do dirigente que tinha visto a luz ao ir buscar dois jogadores ao Leixões com quem o Braga tinha (supostamente) acordo, deixou Salvador triste. Embora traído reagiu com elevação, à imagem do ano passado quando a altercação era com BdC e o Sporting.

Depois aconteceu aquilo: o VAR foi ao BAR, ou ao contrário, existem várias versões. Registe-se a conduta digna, urbana e elevada dos dirigentes mesmo na derrota. Um dos árbitros decidiu até auto suspender-se por se achar indigno de acompanhar tão ilustres personagens. Entregou-se a taça ao Porto, com o jogo da final a servir apenas de consagração. Sérgio Conceição apelou (sem se rir) ao desportivismo e contenção relativamente aos árbitros. As favas contadas chegaram a uns colegas meus de trabalho. Antes do jogo já estava três a zero. Chegou o dia e foi o que se viu e se poderá ler na excelente posta anterior do Rui. No final, destaque-se, mais uma vez,  a conduta digna e elevada, tanto de treinadores como de dirigentes do Porto. A nova modalidade de lançamento de medalhas avançará inexoravelmente rumo às olimpíadas. Está tudo na nova dissertação de Conceição aos peixinhos, perdão, aos treinadores portugueses. O mestre Madureira, da claque, também estará presente. Por via das dúvidas.


(originalmente publicado no aqui)

novembro 16, 2018

Para uma nova taxonomia dos afectos


Tenho um amigo sportinguista que tem sempre teorias sobre tudo. Por isso mesmo não precisa da Netflix para nada. Desta vez engendrou uma teoria da conspiração que dá bem com o seu humor (quando não se fala do Sporting), embora ele não se aperceba. Essa teoria diz mais ou menos o seguinte: a detenção de Bruno de Carvalho (e do Mustafá) a um domingo e perto da hora do jogo foi responsabilidade do próprio (embora não saiba explicar como) e dos seus novos (velhos?) amigos benfiquistas, para (mais uma vez, diz ele) ocultar e deixar passar em claro os e-toupeiras, emails, e por aí fora, até porque hoje tem início a instrução do e-toupeira. Desta forma, o ruído instalado superaria tudo. Quanto ao ruído e às patetices dos jornalistas e comentadores não poderia estar mais de acordo, relativamente ao resto, fico agradecido por vivermos num país onde o humor (e a imaginação) suplantam, em muito (ainda), o horror. Embora o Artur Albarran não o saiba.

Este amigo é um apoiante (enganado, claro está - diz ele) de primeira hora de BdC. Ele e muitos. Os mesmos que agora (recentemente) se juntam em fila indiana, batendo-se por serem os primeiros a atirar a primeira pedra. Não estivéssemos perto do Natal e dir-se-ia que a Páscoa era a época festiva que vivíamos, divertidos, tantas são as crucificações em praça pública, tantos são os que acompanham a via dolorosa, julgando e enxovalhando quem passa (caído em desgraça). Isto é, quem foi detido. Duas ou três passagens pela TV e percebemos que todos o sabiam, ou pressentiam, ou tinham avisado, o que tarde ou mais cedo seria inevitável. Todos os outros: enganados. Vê-se muito disto nos divórcios.

A forma como a imprensa (vamos chamar-lhe assim, à falta de melhor) cobre estas (e outras) detenções, estando previamente nos locais, tendo acesso a informação (supostamente) em segredo de justiça, diz-nos bem da formosa estrebaria (esta foi roubada a um viajante do século XVIII) em que vivemos. Fosse esta imprensa tão avisada noutras situações, fizesse investigação verdadeira e reportagem a sério e seríamos o Bas Dost da imprensa europeia.

Mas não se pense que a imprensa é o melhor disto tudo. Os comentadores (a soldo de quem agora?) são a cereja no topo da estrebaria (já sem tanta formosura). Passe a gritaria, passe a ignorância, o dinheiro a jorrar (não é só para as claques, estes tipos descobriram as claques agora, parece, como se fosse possível assobiar para o lado consoante a cor da camisola), mas o que não passa, ou não pode passar incólume, é aquela velha forma de adaptação ao status quo vigente, seja ele qual for, capacidade apenas disponível ao nível dos invertebrados. O meu amigo deve ter uma teoria para isto. Depois pergunto-lhe.

(originalmente publicado aqui)

novembro 12, 2018

Mau tempo no canal


Estiveram apenas vinte mil pessoas em Alvalade. E isso diz muito sobre a actualidade do Sporting. O temporal (quando é em Lisboa) é sempre de pôr os cabelos da nação em pé. A ventania levou também a JUV LEO a reboque e mais um ex.presidente. Tudo ao domingo, dia santo de jogo. Jogo houve pouco. Esta equipa do Sporting continua a treinar apenas nas horas vagas, nas restantes deve andar por aí a ler bons livros e a apreciar um bom ballet. Culturalmente, parece-me, estamos melhores. Um treinador que joga em qualquer lado, desde que mantenha o emprego, jogadores que não jogam em lado nenhum, mantendo-se bem empregados.

Na segunda parte não contei um remate enquadrado com a baliza. Pouco importa. O Bas Dost chega e vai sobrando (já o tinha feito na primeira parte) para as encomendas, e o Acuña, vá-se lá saber porquê, tem a mania de dar alguma intensidade ao jogo, ainda que inconsequente. O Bruno Fernandes desde que conviveu em conferências de imprensa com o Cintra (e, quem sabe, com o seu amigo que percebe de futebol) teima em não encarreirar no jogo, pelo menos dentro de campo. Até nisso há mão do Peseiro. O Nani vai-se passeando de peito feito, cabeça levantada, mas sem futebol digno desse nome. A sensação que fica é que o Gudelj até passa por jogador da bola neste conjunto de banalidades, e o Gaspar continua a marcar bem com os olhos. Raramente uma jogada sobrevive, faça chuva ou faça sol, a um ou dois toques com desmazelo à mistura.

Acabamos à toa, contra dez. Talvez por isso terá entrado o Misic, para equilibrar as coisas. Ganhámos, com ou sem casos, lá ganhámos. Mas não conseguimos enganar ninguém, a não ser os próprios. Não há chuva ou vento que nos leve a ilusão. Nem em Lisboa.

(publicado originalmente aqui)

setembro 09, 2017

Os milagres e a minha bomba da asma



A minha bomba da asma não faz milagres. Na verdade é um dois em um: ventila através do fumarato de formoterol di-hidratado que é um broncodilatador, e previne a inflamação dos pulmões através de um corticosteróide chamado  budesonida. Não faz milagres, mas tomada regularmente ajuda-nos a respirar com normalidade e sem sintomas. Muno-me sempre da bomba quando está um jogo do Sporting por perto. Foi o que aconteceu ontem. Já se sabe, o Sporting é meio caminho andado para um pacemaker. Não convém esquecer.

A primeira parte do jogo mostrou-nos que a genica dos imponderáveis se dá bem com o planeamento de uma época, principalmente se o principal actor da mesma for o nosso Sporting. O jogo estava controlado, com o Feirense a fazer uma fantástica exibição, segundo o Sr. Freitas Lobo. Com a saída do Piscinas, não tendo nenhum defesa direito no banco (por onde anda o Ristovski?), tivemos que fazer aquilo que fazemos melhor: inventar. O Sr. Freitas Lobos tocou a rebate. Ainda estava a tocar a rebate quando a primeira parte acabou. O Ruiz bate pouco nos adversários, mas é um picanhinha em potência ao nível dos lípidos.

Foi com naturalidade que chegamos depois à vantagem. O Ruiz continuava à procura de um churrasco no relvado. E foi ainda com mais naturalidade que nos deixamos empatar. O Sporting tem destas coisas. A bomba estava por perto. Um pacemaker também não é difícil de arranjar. A malta, mesmo não religiosa, acredita sempre. E vale a pena acreditar quando a equipa de arbitragem ainda não precisa de ir ao oftalmologista. Nem todos os jogos tiveram esse privilégio. É marcar uma consulta...

(publicado originalmente aqui)

agosto 17, 2017

(des)orientados


Sobre o jogo (de ontem) não há muito para dizer, a não ser que em termos de previsibilidade o Sporting já é uma equipa de topo.

Com os dados disponíveis até ao momento podemos fazer uma análise interessante da época em curso: ficamos a saber, por exemplo, que o Mathieu é o nosso melhor defesa esquerdo. Ficamos a saber, por exemplo, que o Mathieu quando sobe com a bola de cabeça levantada e vai por ali fora, é o nosso melhor jogador a fazer de William Carvalho. Ficamos a saber que o William Carvalho quer fazer de William Carvalho noutro sítio. Ficamos a saber que o Fábio Coentrão é o Fábio Coentrão dos últimos tempos (no Real e Mónaco), e não o Fábio Coentrão que foi vendido por um camião de notas (o Sr. Mendes é o melhor jogador de todos). Ficamos a saber que o Fábio Coentrão é sportinguista desde pequenino. Ficamos a saber que do Cristiano Piccini só a parte do Cristiano é que é nome de jogador de futebol, já Piccini, soa a compositor de opereta de segunda categoria, ou a piscinas em italiano, coisa que o senhor faz bem. Ainda nos vai dar muitas alegrias quando for transferido para o Real Massamá. Nota: O Mathieu recusa-se a ser também o nosso melhor defesa direito, já não tem idade para isso.

Ficamos ainda a saber que o Battaglia é muito jeitoso a destruir mesmo quando tenta construir. Ainda viveremos o suficiente para ver o Battaglia fazer falta sobre o Battaglia, ou mesmo o Battaglia errar um passe para o Battaglia. Ficamos a saber que o Adrien se recusa a fazer de Adrien, pelo menos por enquanto, ou pelo menos, com esta camisola. Ficamos a saber que o Podence e o Dost fazem uma dupla fixe a fazer tabelas numa espécie de bilhar de bolso. O Bas Dost, não tarda, também se esquecerá de como se faz de Bas Dost. O Acuña teve uma vida difícil e já está habituado a sofrer. Continuará a ser Acuña sem dificuldades de maior. Como disse o JJ no final: só faltou o golo, o resto até não esteve assim tão mal. Ficamos a saber que continuamos bem orientados…

(publicado originalmente no Insustentável)

abril 28, 2016

março 21, 2016

A tradição já não é o que era, senhor Duchamp


As minhas outras (modestas) contribuições na blogaria: esta, esta e esta. Já se sabe que ser sportinguista é meio caminho andado para um pacemaker. Passeando por aí, duas postas do Cão, esta e aquela da forma que aspira a um fim. Sem dúvida. 

março 09, 2016

A insustentável leveza de...Liedson


Fui amavelmente convidado, aceitei com enorme prazer. Farei parte dessa grande equipa, com uma grande massa associativa, que dá pelo nome de A insustentável leveza de Liedson (também se pode ler Sporting). Apenas posso prometer muito trabalho, de resto já se sabe: prognósticos só no fim do jogo. Falaremos do Sporting, mais mal do que bem. Falaremos do Benfica, sempre mal. Falaremos do Porto, cada vez menos conformados.