março 11, 2020

A minha vida é muito interessante


A propósito da picadora de carne, lembrei-me que tinha isto algures atrás de alguns arbustos da estantina.


São seiscentas e tal páginas de um lado mais seiscentas e tal páginas do outro. Cerca de dois quilos de papel que nos obrigam a caminhar junto ao abismo, ali próximo, onde os seres humanos são esquecidos como sucata, ou nem isso. Uns mudam de pele ao ler isto, outros escondem a memória junto às traseiras do esquecimento. Há por aí um bricabraque que se encontra nas lojas de conveniência política, na moda que tudo recicla em bidões ilustrados pela ignorância. Os bem pensantes (não confundir com os bem pensantes de Soljenitsine), os ortodoxos, aqueles intelectuais que no cume da sua máquina de escrever bebericavam em cafés de tédio, os indiferentes que são esmagados pelo espírito democrático da liberdade de pacotilha; todos (e mais alguns) rondam estes livros, construindo as suas cercas, os seus muros, as suas narrativas. Sei bem disso. Ajudei a carregar alguns tijolos em forma de palavras.

março 08, 2020

Pearl Jam: Dance of The Clairvoyants



Palavra que quando escutei isto a primeira vez me soou a Talking Heads. O início da música, a voz temperada com flor de sal, menos saltitante, muito menos óbvia, apenas aos poucos percebemos que estamos perante os Pearl Jam, mais maduros, menos roque de pijama às riscas e camisa atada à cintura. O Miguel Guedes dos funestos Blind Zero (zero é uma palavra apropriada para este conjunto) vai se ver à rasca para tentar imitar a voz deste Eddie Vedder. Acho que conseguimos sobreviver a isso. Mas não tenho a certeza.