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fevereiro 16, 2012

Em busca do tempo perdido...


“No final de 1916, o governo [francês] «autoriza» os condenados de delito comum a irem para a frente; em Outubro, a lei Dalbiez obriga todos os soldados dos serviços auxiliares e os reformados a serem submetidos a nova inspecção médica. É a caça aos que tinham conseguido escapar ao serviço militar, que Gallieni reclamava em 1914. «Convocam-se mesmo os cegos», conta Paul Morand. «Marcel Proust aguarda ser convocado. Se a convocação vier de dia, o que é provável, não poderá apresentar-se à inspecção pois está a dormir. Teme ser considerado desertor. Pede então a Lucien Daudet se o seu irmão Léon lhe poderia fazer um grande favor de conseguir uma inspecção para a meia-noite» ”.

“A Grande Guerra 1914-1918”, Marc Ferro. Edições 70. Tradução de Stella Lourenço.

fevereiro 06, 2012

A infâmia como uma das belas artes


«Sobre toda a frente do cabeço de Souain, desde Setembro de 1915, os soldados de infantaria ceifados pelas metralhadoras jazem estendidos de barriga para baixo, alinhados como num exercício.
A chuva cai sobre eles, inexorável, e as balas partem os seus ossos embranquecidos.
Uma noite, Jacques, durante uma patrulha, viu sob os seus capotes descoloridos ratazanas a fugir, ratazanas enormes, engordadas a carne humana. Com o coração a bater, ele rastejava em direcção a um morto. O capacete tinha caído. O homem apresentava a cabeça contorcida, vazia de carne: o crânio à vista, as órbitas vazias, os olhos comidos. A dentadura tinha deslizado sobre a camisa podre e da boca escancarada saltou um bicho imundo».

Testemunho de Raymond Naegelen (combatente francês), in “A Grande Guerra 1914-1918”, Marc Ferro (pp.126). (Tradução Stella Lourenço, Edições 70).

janeiro 23, 2012

E mais tarde as classes a crédito

“Prisioneira de um universo cujos mecanismos lhe são misteriosos, ainda que a escola ensine o futuro da ciência e a fé no progresso, a massa dos cidadãos do século XX não participa nos assuntos públicos. A democratização das instituições, durante os decénios precedentes, não foi mais do que uma ilusão e as reformas quase nada mudaram. É um facto que estas tinham permitido uma melhoria global das condições de vida, do equipamento, da instrução ou das condições sanitárias. Estas reformas ocupam e estimulam as classes instruídas; enriquecem-nas igualmente e aumentam o seu poder na sociedade; mas isso não contribui em nada para que as classes populares participem nos assuntos que lhes dizem respeito.”


“A Grande Guerra 1914-1918”, Marc Ferro, Edições 70. Tradução de Stella Lourenço