setembro 11, 2008

O amanhecer da bola

O meu amigo Alfredo azougou-me a manhã com a manchete do Público onde se observava que “Portugal joga bem mas perde com a Dinamarca”, e da Bola “À antiga portuguesa”. 
“Não se trata (apenas) de morrer na praia”- avançou, “é uma questão civilizacional e muito nossa”. “Como?”, perguntei, sem perceber nada. “Voltamos ao jogo como uma das nossas belas artes: bonito, singelo, envolvente, ilusório e, claro, de preferência sem balizas, com falhanços estrondosos à frente e atrás, já para não falar no azar e na injustiça. A coisa, enfim, não é nova, é velhinha de anos e anos.”
Ainda me deu para esboçar, num gesto imperceptível, não sei bem, uma resposta, mas Alfredo continuou de dedo em riste: “A passeata e o desdém não são para aqui chamados. O jogo, esse, tem 90 minutos e o “mestre” lá no banco é, oh, é um cientista com o pé gelado e sem ícones que lhe valham. Nos últimos dez minutos quando se está a ganhar esquecem-se os escrúpulos e a beleza… e aquela última substituição foi uma prenda de anos, que foi aquilo afinal?”Antes de sair ainda teve tempo para me recordar “o europeu de 1984, o expoente máximo do desperdício”…”Não te levantas?”,concluiu, e saiu.
Quanto aos paralímpicos, queria eu dizer-lhe, depois da visita de um secretário de estado inexistente, e da partida com alguma fumaça, eis que chegamos à normalidade: dois pesos, duas medidas, a mesma bandeira.
E voltei a adormecer...

2 comentários:

Eduardo F. disse...

Muito bem! Estás com uma ironia cada vez mais acutilante.
Gosto disso.

Ana mas não de Amesterdão disse...

Volto todos os dias mas este artigo, em especial, merece um tributo. Talvez um dia mereça livro...ou já escreves??