abril 06, 2020

Isolamento (notas)

Fileiras realistas de assentos de cinema ou teatro vermelhos ...

"A Arte Eléctrica em Portugal" é o único programa (vários episódios) de música da televisão portuguesa. Por acaso é um documentário: jornalistas, produtores, radialistas (vamos pô-los assim num saco), músicos e áreas adjacentes, como editores ou programadores, dizem umas coisas, e nós lá vamos ouvindo e esperando pela música, enquanto percebemos que tudo tem uma história e até fazemos parte dela. No programa da semana passada o tema era “A Era Global” (está disponível). Fui marcando com um sorriso os músicos e as bandas que já tinha assistido ao vivo (todos, exceptuando a Rita dos sapatos vermelhos), incluindo o improvável Tiago Miranda, mais conhecido como Conan Osíris: foi em Braga - noite branca - numa época (longínqua) em que a distância social mínima era de dois milímetros e ainda assim não era respeitada. 

abril 05, 2020

Isolamento (XI)


Curzio Malaparte parece um nome saído de um Western Spaghetti. Curzio Malaparte é o pseudónimo de Kurt Erich Suckert, nascido em Prato, Itália, a 9 de Junho de 1898, filho de Erwin Suckert, de origem alemã. Malaparte foi quase tudo: teve uma educação proletária (tinha sido confiado a uma família de operários), aderiu ao partido republicano (do qual foi secretário), alistou-se (muito jovem) como voluntário na Legião de Garibaldi, combatendo em França, na primeira Guerra Mundial. Com a entrada da Itália na guerra alistou-se como voluntário, começando, aos dezassete anos, a trepar na hierarquia, de soldado raso a comandante, gaseado em Bligny, as sequelas pulmonares acompanhar-lhe-ão toda a vida. Volta a Itália em 1921, após um périplo (vamos assim chamar-lhe) burocrático por vários países, para trabalhar como jornalista e escritor. Adere ao partido fascista e em 1925 assina o Manifesto dos intelectuais fascistas, já como Curzio Malaparte. Entretanto, vai escrevendo e publicando. Viaja. Trava duelos. Conhece mulheres. Em 1931 publica “Técnica do Golpe de Estado” (já lá vamos). Cai em desgraça junto do partido fascista (as razões são várias) e é condenado ao desterro (curto) em Lipari, passando por Ischia e Forte dei Marmi. Escreve contos, prosa de reflexão, escreve em jornais (às vezes à socapa), edita revistas, eu sei lá que mais.

Pausa. Antes do isolamento cá do burgo, a 8 de Março, lia no blogue “Tempo Contado”, de Rentes de Carvalho: Agora que o medo é tanto e tão espalhado, procuro conforto na leitura de Malaparte, que tão bem soube descrever até que fundo de nós mesmos o medo pode torturar. A imagem de uma das suas obras, “Kaputt”, edição francesa, fazia as honras da casa. Procurei: as plataformas online de vendas reconheciam o autor. Esgotado. Apenas disponível em edições inglesas, espanholas, francesas. Todas as suas obras emblemáticas: A Pele, Kaputt, Malditos Toscanos, As Mulheres também perdem a guerra, O sol é cego, Técnica do Golpe de Estado, entre outras. Tudo (ou quase) havia sido publicado, noutro espaço-tempo, o dos anos 80 do século passado, em várias editoras (Europa-América, Livros do Brasil e colecções com organizadores livres), reflexo de uma época de grandes edições (as traduções são outra conversa), agora apenas disponíveis em alfarrabistas e vendas de usados. Existem muitos autores que definham no limbo dos usados. Eu tinha uma pulga atrás da orelha e esta chamava-se Malaparte.

Dias depois, estava eu deitado a ler “Trieste” de Daša Drndić quando, na página 31, esta faz uma referência ao signor Ugo Ojetti, com direito a uma grande nota de rodapé. Escreve Daša Drndić que o fascismo atraiu um certo número de intelectuais italianos. Mais tarde, escreve ainda Daša Drndić, viram a luz e abandonaram o partido. Lá está Luigi Pirandello (prémio nobel da literatura) e Curzio Malaparte. Em Março de 1925, no Congresso dos Intelectuais Fascistas realizado em Bolonha, o seu Manifesto é assinado por Curzio Malaparte, Tommaso Marinetti, Ugo Ojetti(…) entre muitos outros, escreve Daša Drndić. Ainda não tinha chegado àquela parte do livro onde se lê: atrás de cada nome há uma história. (“Trieste” também faz parte de uma história da decomposição, mas isso ficará para depois). A pulga continuava a insinuar-se.

Arrumações: a sala requeria uma barrela e assim foi. Ao abrir a caixa de primeiros socorros (uma surpresa de aniversário, anos antes), onde supostamente se guardariam elementos indispensáveis à sobrevivência, neste caso, um kit com livros (depois também carregadores de telemóvel), tudo edições Europa-América de bolso compradas em vários devaneios, feiras e arredores: por exemplo, “Da Guerra”, de Carl Von Clausewitz, “O Zero e o Infinito”, de Arthur Koestler e… “Técnica do Golpe de Estado”, de Curzio Malaparte, entre outros. Curzio Malaparte está cá em casa desde 17 de Março de 2016, comprado algures, perdido na caixa de primeiros socorros - abrir apenas em caso de emergência, possivelmente em fila de espera de leituras que se acumulam, ou apenas aproveitamento de espaço vital, não sei, não me recordo.


Edição de bolso de 1983, devidamente enquadrada com uma introdução de Luigi Martellini, escudada numa antologia crítica (Trotski, por exemplo), com uma nota bibliográfica de 6 páginas (a quem este texto é devedor) e bibliografia, e ainda sobra espaço para a obra: “Técnica do Golpe de estado”. A consequência disto tudo é a letra microscópica e um constante focar, mesmo recorrendo a auxiliares preciosos como óculos. Esforço a que nos dedicamos com algum prazer.

Já agora: em 1939 encontramos Malaparte na África Oriental como enviado especial do Corriere della Sera; em 1940, o oficial Malaparte (re)começa a sua viagem pelas ruínas e pela morte (segunda guerra mundial). Edita “O Volga nasce Na Europa”, “O Sol é Cego” e “Kaputt”. Segundo Martellini, estas são as obras que definitivamente cortam com o fascismo. Entre 1944 e 1945 terá solicitado a adesão ao PCI (Partido Comunista Italiano). “A Pele” é editado em 1949 (com o autor a residir em França): escandaloso, antipatriótico, imoral, blasfemo, dizem. Em 1949 Malaparte trabalha (sozinho, é o que consta) em  Il Cristo Proibito, rodado no ano seguinte na Toscânia. O filme é polémico e é premiado em Berlim. Escreve contos, teatro, poesia.

1956: a última aventura. Convidado a ir à Rússia visita igualmente a China de Mao. Está doente. Tem um tumor incurável. Volta a Itália e agoniza durante cem dias numa clínica da Roma. Parece que a sua cabeceira era muito requisitada. A névoa pernoita perto de si. Muitas coisas saem dessa névoa. Curzio Malaparte morre no dia 19 de Julho de 1957.

abril 02, 2020

Isolamento (I - actualização)

De cabeça, sinónimos de parado, deixa ver: imóvel, inerte, estático, fixo, quieto, sei lá, estagnado, barrado, bloqueado, descontinuado, detido, estacado, interrompido, paralisado, travado, em suma… encostado.

(01-04-2020)

A condizer com o meio envolvente a obra (acima) deixou de sair à rua. Não terá sido de um dia para o outro. Foi sorrateiramente, como quem não quer a coisa. Até que parou. Temos seguido a sua curta história, como se poderá ler aqui

março 31, 2020

Isolamento (notas)


 Hieronymus Bosch - A Morte e o Avarento (1494)

"La pandemia de estos días encaja en el segundo apartado, el de la fragilidad de nuestro cuerpo, pero es evidente que comunica con todos los demás, incluido el apartado último, el que habla de monotonía al vivir, aunque, a decir verdad, cuando se vive como en estos días en un pronunciado riesgo de muerte, ese sentimiento de monotonía puede incluso parecernos ridículo, aunque lo más probable es que sigamos desperdiciando buena parte de nuestra vida en futilidades. ¿La causa de esa propensión a tirar tanto el tiempo y a malgastarlo encima en una gran cantidad de ocupaciones tontas, como, por ejemplo, llevar una bitácora-tostón de nuestro confinamiento? Que seguimos teniendo tendencia a ir viviendo como si tuviéramos que vivir siempre y no dispusiéramos ni de un segundo para acordarnos de que hemos de morir, una realidad que estos días, de todos modos, aflora cada vez con mayor potencia, para sorpresa mayúscula de muchos." (Enrique Vila-Matas, aqui).

"O nosso presente não é o confinamento que a sobrevivência nos impõe, é a abertura para todos os possíveis. É sob o efeito do pânico que o Estado oligárquico é forçado a adoptar medidas que ainda ontem declarava impossíveis. É ao chamamento da vida e da terra a restaurar que queremos responder. A quarentena é boa para a reflexão. O confinamento não abole a presença da rua, reinventa-a. Deixai-me pensar, cum grano salis, que a insurreição da vida quotidiana tem virtudes terapêuticas inesperadas." (Raoul Vaneigem, aqui por aqui)

março 30, 2020

Isolamento (X)



"Voltar ao fim.
  Pintar três vezes o sete: 
  ficar doido."

(roubado a Mário Cesariny - pintar o sete)

março 29, 2020

Isolamento (IX)


Foram tantas as vezes que a escutei que, de certa forma, interiorizei um sentido. A música que antecede e circunda (assim me parece) a letra não soa como um manto sombrio, antes como uma batida belicosa, deixando ao baixo a ilusão de melodia. (já agora, a componente eletrónica anuncia os New Order dentro de alguns momentos – bem duros, por sinal). Quando a voz finalmente se insinua já passaram mais de trinta segundos. A carruagem parecia-nos um lugar seguro. Nunca é. 

In fear every day, every evening,
He calls her aloud from above,
Carefully watched for a reason,
Painstaking devotion and love (…)


Não sabemos o que escreveria hoje Ian Curtis. Não interessa. Isolamento é apenas uma tradução livre de Isolation. Ou, pelo menos, fica a ganhar (ou a perder?) mais alguns sentidos.   

março 28, 2020

Isolamento (VIII)


Não há fins. Quem pensar que há está iludido quanto à sua natureza. São tudo começos. (escreveu Hilary Mantel). Mas já começa, escreve Daša Drndić em “Trieste”, a ser evidente (não interessa para aqui a que propósito), que qualquer tentativa de criar um novo começo (…) conduzirá a um fim, tal como todos os fins contêm um início. Dois livros que se tocam (de forma livre), através de minha decisão de os ler em sequência, sabe-se lá porquê, talvez por se encontrarem na pilha dos não lidos, pilha essa que também incluirá os a reler, ou os complementares àqueles, lidos ou em leitura. As semelhanças dos dois textos, devidamente truncados, levaram-me, ontem, para um patamar de ebulição cerebral próximo da criação de deuses por crianças. Sabemos que ao são tudo começos, seguia-se: aqui está um. E esse um, especificamente, esse começo, era “Trieste” de Daša Drndić. Bem vindos à minha loucura. Obrigado.

março 27, 2020

Isolamento (VII)


Todavia. (…) A palavra “todavia” é como um duende enroscado debaixo da nossa cadeira. Induz a tinta a formar palavras que ainda não vimos e as linhas a marcharem pela página fora e a passaram das margens. E depois? Não há fins. Quem pensar que há está iludido quanto à sua natureza. São tudo começos. Escreveu Hilary Mantel em “O Livro Negro”. 

E continuou: aqui está um.

Trieste, Dasa Drndic - Sextante Editora
E estava mesmo...

março 26, 2020

Isolamento (notas)



Os Pop Dell'Arte estão de volta. Acho. Sem Nome é (supostamente) o single de avanço a "TransgressioN Global", o novo álbum de originais. O resto não estava previsto. 

março 25, 2020

Isolamento (VI)


Reabrir o (seu) país até à Páscoa, é a intenção de Trump. Parece que contrariando os especialistas. Ou qualquer outra forma de inteligência. Entretanto, Bolsonaro já terá aprendido a pôr a máscara, mas recusa-se a admiti-lo. Por aqui e por ali, o menos Estado apregoado por muitos, passa(rá) em breve a mais Estado para todos. (Para todos?) Toda a gente vai estender a mão. Mesmo quem a costuma esconder. A dois metros, ainda assim, não nos sabemos protegidos de mãos escondidas. Passámos de um mundo de peritos e comentadores de futebol e arredores para outro de especialistas em virologia e epidemiologia. Como escreve hoje no Público Miguel Esteves Cardoso: “É muito mau sinal não encontrar notícias novas: é porque não se está a fazer mais nada senão procurá-las”.

março 23, 2020

Isolamento (V)


Agora imaginem estar algum tempo sem televisão, sem whatsapp, sem rádio, melhor: esqueçam o telemóvel por momentos, as redes (sociais ou não, nem sequer frequento), esqueçam. Nada muda? As estatísticas continuam, os gráficos, as curvas… (as curvas já não são em estádios ou em corpos femininos, pois não?), as prescrições por certo também continuam, provavelmente surgirão novas advertências, algumas admoestações, os vossos corpos seguem ansiosos e comunicam-no ao cérebro (não necessariamente por essa ordem), a angústia da espera (não é disso apenas que se trata, eu sei) é um fertilizante de dores desconhecidas. E depois? Por momentos escuta-se um silêncio recortado pelas cantorias dos pássaros (os pássaros sempre lá estiveram, não achais?), passa um carro ou outro, duas ou três pessoas jogam um estranho jogo de distâncias, vestindo roupas a rigor.

A tua janela é uma outra cidade. Como se os deuses estivessem loucos. Como num filme que julgas ter visto. Havia um silêncio assim num conto, algures. A sério?

Toca o telefone. Não o desligaste. Ou alguém te chama. Que sorte não estares sozinho.

março 22, 2020

Isolamento (IV)



Tudo neste livro está em avançado estado de decomposição. Tudo menos a memória. O corpo debate-se, não é bem um corpo, é uma forma vaga de espaço anatómico, algo que habita o pré-pensamento. O “Arquipélado Gulag” de Aleksandr Soljenítsin é um conjunto de fragmentos, vivências, histórias com pessoas (dir-se-ia que sim) lá dentro, quase sempre lá dentro: detenções, processos, prisões, campos, timoneiros, siglas, números. Sem lugar na “História universal da infâmia” de Borges, por manifesta incapacidade imaginativa do autor. Sem lugar no mundo. Apenas no fim do mundo. Com licença: Não, nós somos pó! Estamos sujeitos às leis da poeira. E nenhuma medida do nosso sofrimento é bastante para nos fazer sentir para sempre a dor geral. Espera aí, tenho que respirar, estou a chegar ao fim, falta-me apenas o prefácio. A edição é da Sextante Editora, tradução directamente do russo de António Pescada. Incompleta relativamente ao original, diz-se.

Tinha que desopilar e segui para o século XVI: Ele, Thomas Cromwell, é um bom pretexto. Seguimo-lo em Wolf Hall, caminhamos agora a seu lado em “O Livro Negro”. “Falcões. Wiltshire, setembro de 1535”, escreve à partida Hilary Mantel. Resolvemos a questão não a levantando. E seguimos viagem (página 253 neste preciso momento).

Um fartote de tempo. Banda sonora: álbuns dos The Cure (“Faith” e mais alguns antigos a dar com a chuva). “Virus meadow” (não foi propositado), dos And also the trees. The Felt (qual?). Uma pen antiga a rolar: vários. ANTENA 3, RUM. Acasos. Jornais no ecrã. Ao que nós chegamos. 

E filmes? Filmes ou cinema? Como assim?
Foi um prazer revisitar “Blade Runner” de Ridley Scott. Rever Rutger Hauer, por exemplo: I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Mais chuva. Lágrimas. Coisas nunca vistas. Tive que sair dali a correr, mas só depois de acabar o filme. E depois? “Promessas Perigosas”, ou melhor, “Eastern Promises”, de David Cronenberg. Mais chuva. Máfia russa – a sério? Um filme que nos ensina a não brincar às tatuagens e andar por aí a mostrá-las em banhos públicos. O poder dos símbolos é tramado. E por fim (outros não chegaram a secar no meu cérebro), o mais surpreendente: “Split” (Fragmentado, até lhe fica bem) daquele gajo de A Vila e do Sexto Sentido, M. Night Shyamalan, com um James McAvoy em grande, e não é o único. Diz que é um psychological horror thriller film, mas talvez seja um pouco mais de que isso. No fim, e após apurada pesquisa durante o sono, ficamos a saber que (supostamente) faz parte de uma trilogia. Apenas vi o Fragmentado.  
Agora vou lanchar e depois quem sabe tirar um Tarkovski do armário. 

março 21, 2020

Isolamento (III)

Resultado de imagem para isolamento social

A linguagem bélica está na ordem do dia. A comparação a cenários de guerra entra-nos pelo sofá: sentados, em casa, assim combatemos. Não se trata apenas de guerra, há muito que as empresas e os empreendedores se refugiaram nesse (suposto) paralelismo entre o mundo militar e os negócios (criando uma novilíngua): formações e equipas, treino, estandartes, disciplina, competição (dinheiro, em suma).Temos também os heróis. Descem do nosso imaginário para o quotidiano (qual quotidiano?). Estão agora por todo o lado. Quase esquecemos: os sem-abrigo, os borrachões patibulares de Bolaño, os drogados, os indigentes, os esquecidos e os isolados de ontem. É-nos familiar o esquecimento de todos os dias. Temos sobretudo medo. Literalmente, daquilo que não vemos. Mas não podemos esquecer que o clã securitário se senta connosco no sofá. É o único Couchsurfing a que assistiremos nos próximos tempos.

O presidente diz: 

Somos? Cheira aqui e ali a mofo, a populismo barato, a bazófia farsola. Quem são os outros? Onde fica a fronteira?
Alguém sabe?

Isolamento (II)


Resultado de imagem para comprar bilhetes

Diz-nos a intuição que fazer grandes planos é burrice. Não ouvimos. Normalmente escutamos aquilo que por aí se denomina de razão. Essa razão é hoje (ou foi… até ontem) um naco travestido de pensamentos entremeados com a gordura do fluxo social, informativo, normativo, profissional e, sobretudo, publicitário ou propagandístico, parece-me. (As redes sociais surgem aqui apenas na sua versão de fluxo, não de informação). Em suma, o consumo é o produto final da razão que o sustenta. Aqui chegados somos bem capazes de observar o nosso mundo sem necessidade de subir às árvores.

março 20, 2020

Isolamento (I)

As ruas estão desertas mas a cidade continua povoada. Menos movimentos pendulares e muita gente em casa, eis a cidade de Braga vista (sonhada?) da janela. Ontem em conversa telefónica um amigo dizia-me, meio a brincar mas muito a sério (pareceu-me), que esta cidade (talvez nem tanto) com menos automóveis, menos ruído, menos poluição, menos gente a correr de um lado para o outro, era a cidade que ambicionávamos. Não era. Não podia ser. O que desejávamos era uma cidade de escala humana (e Braga geograficamente ainda não é uma cidade demasiado grande), onde se pudesse andar a pé, de bicicleta, com bons transportes públicos, melhor urbanismo (bem sei dos erros estruturais do passado), mais parques, menos trânsito. Mais tempo para todos. Sem fundamentalismos.

A primeira fotografia que aqui vos deixo foi tirada a 13 de Fevereiro. Cerca de um mês antes, talvez um pouco mais, tinham-me dito que por ali (eu já digo o sítio e a situação) iria nascer mais um espaço comercial ligado à distribuição (e/ou fast food). Pelo menos mais um. Durante anos a única construção do local era uma barraca de uma qualquer imobiliária, associada a uma suposta urbanização que nunca surgiu, ou a mais uma empresa de construção que desapareceu do mapa. Tudo coisas não documentadas pela Netflix. Estas nesgas de terrenos que restam na cidade, interstícios deixados ao acaso entre prédios, automóveis (sobretudo automóveis) entulho e ervas daninhas, são pequenos nacos à espera de serem devorados e especulados.  

(Braga - 13/02/2020)

Este espaço em construção fica na rua Américo Rodrigues Barbosa, uma rua cuja entrada apenas é permitida a quem desce, isto é, quem venha da Rotunda de Infias, ou da Rua do Regimento da Cavalaria 8, onde sita o Pingo Doce. A situação? Bom, estamos ao largo da caótica rotunda de Infias, vários colégios (D. Diogo é uma dor de cabeça permanente), Liceu Sá de Miranda, vários milhares de pessoas a residir; junto ao nó de Infias, porta de entrada/saída da cidade tanto para Norte, como para Oeste, à rodovia, às autoestradas e vários destinos, ligação à corda comercial da cidade que se estende do espaço comercial Nova Arcada a Norte onde sita o IKEA, passando pelo Braga Parque, e por aí fora, até ao Minho Center, Leroy Merlin, etc. Não vamos perder tempo com as minudências do trânsito, dos estacionamentos, dos atrasos, do stress, nem vamos lembrar a Braga dos dias de chuva, linda, caótica, cinzenta. Importa referir que nos últimos três anos o tempo perdido nesta zona em hora de ponta praticamente triplicou. Eu sou um bom estudo experiencial para aqui chegarmos.

(18/03/2020)

E aqui chegados, pensamos na importância estratégica(?) de mais este espaço comercial, na sua localização (a propósito, a rua Américo Rodrigues Barbosa é um beco sem saída, - o que sairá daqui?), no trânsito resultante, nos estacionamentos. Na nossa vida de todos os dias. As obras continuam (como continuam as operações cosméticas das ruas António Marinho e adjacentes) como se poderá ver na fotografia acima. Mas agora as ruas estão desertas numa cidade povoada de fantasmas. De medo. De solidão e isolamento. E de repente estas coisas todas são vistas sob uma outra perspectiva, à luz de um desejo absurdo de normalidade. Mas não nos deixemos enganar. A normalidade, ainda assim, poderia ser bem diferente. E agora até temos algum tempo para pensar nisso.   


Nota: a desatar o nó de Infias desde 29/04/2019, mas sem mãos.