março 16, 2019

Soldados de Salamina



Alguns ingénuos, tal como alguns guardiões da ortodoxia de esquerda, e também alguns tolos, denunciaram que vindicar um escritor falangista era vindicar (ou preparar o terreno para vindicar) o falangismo. A verdade era exactamente ao contrário; vindicar um escritor falangista era apenas vindicar um escritor; ou, mais concretamente, era vindicar-se a si próprios como escritores vindicando um bom escritor. 

fevereiro 26, 2019

Dignos de um eufemismo



Escrevo isto (para seguir a rotina do Cão) mentalmente. Lafargue está no século XIX bem aconchegadinho. A França vai muito atrás (diz ele) e não a reboque (ele fala de diferenças) da visionária Inglaterra. Ainda acredita nas máquinas e na mecânica de um pensamento que submerge a dor num caldo que, mais tarde (ou mais cedo) se denominará de bem comum. Não percebe a dinâmica predadora do capitalismo, nem o seu refúgio sincero nos céus plúmbeos do progresso. O progresso encontra aqui (aí) a sua verdadeira voz, derramada em torrenciais (e inacessíveis) demandas da filosofia antiga, sem compreender a razão de tanta loucura. O “vício do trabalho"(palavras de Lafargue), as horas intermináveis de trabalho, o caldo frio da fome, não são, não eram, um ponto de partida discutível, mas o veículo, melhor, os carris, que ditar(i)am o (supostamente) direito ao trabalho, esse caminho que desaguou na insanidade que hoje vivemos. A contradição nunca é paradoxal por aqui. No seu (presume-se) comunismo, socialismo, sei lá, os operários continuam a ser operários, continuam operários, obreiros de um futuro cujo direito à preguiça lhes daria um  complemento suplementar (que passe a ironia da redundância). Chegariam, como chegaram, aos dias de hoje, dignos de um eufemismo: colaboradores (e consumidores). Com toda a justiça, diga-se…

fevereiro 25, 2019

O direito à preguiça


Em regime de preguiça, para matar o tempo que nos mata segundo a segundo, haverá permanentemente espectáculos teatrais; é um trabalho muito adequado aos nosso burgueses legisladores. Organizar-se-ão em bandos que correm as feiras e as aldeias, dando representações legislativas. 

fevereiro 15, 2019

Hollywood Palace


De forma que, muito antes de Estalinegrado ter tido lugar, antes de ter sido delineado o plano da operação Barbarossa, antes que o tenham pesado e decidido; antes da campanha de França, antes mesmo de os alemães se terem lembrado de a levar a cabo, a guerra já ali estava, na estanteria do espectáculo. 

fevereiro 10, 2019

O Vollmann, eu, o Gabriel, e outras cenas literárias (II)


(continuação daqui)

Sabática nem vê-la. Fui ao fundo do fundo buscar coragem e acabei por arranjar um manual indicado para a leitura (deixem passar) de grandes calhamaços, enquanto providenciamos pães de ração através da força do nosso trabalho. Numa dessas noites, após a dose de cervejas diária, sonhei com Paul Lafargue (meu deus, em vez de sonhar com ninfas de dentes afiados) e o seu “O direito à preguiça”, acordei todo suado e com o cérebro a indicar-me variadíssimas direções. Todas elas indefinidas. Não se pode confiar no nosso próprio (deixem passar) cérebro. Apenas nesse momento, antes do pequeno-almoço, percebi que ao ler um manual para a leitura de grandes calhamaços, passam a ser dois livros em vez de um que temos de ler. Fiquei todo contente com esta minha ideia que era ao mesmo tempo uma evidencia e deixei o manual para trás, não sei bem onde. Consegui finalmente começar a ler o Central Europa, uma edição de apenas quinhentos exemplares, um quilograma e picos de livro, mais de novecentas páginas (dados do Gabriel), dois pares de óculos, alguns livros de reserva para o caso da coisa correr mal, uma enciclopédia para embelezar o quadro e algumas rações de combate, providenciadas pela força do meu trabalho que continuei a realizar sem qualquer tipo de alegria e com o Lafargue à perna. Todos os dias ia para o trabalho com esta imagem de fundo:

Imagem relacionada

e esta:

Europe Central

Depois de uma grande dor nas costas, doze dores nos olhos (não consecutivas), e uma sensação de estranheza na clavícula (porquê?), lá fui ler outra vez. Um mês (ou quase) entre despertadores, dores, almoços, lanches, centenas de cervejas e duas (pelo menos) derrotas do Sporting, acho. Sempre a trabalhar e a ler quando podia. Quando acabei senti-me possuído por uma grande tristeza, uma daquelas tristezas que experimentava quando era pequeno e uma novela acabava, ou uma coleção de cromos do Sandokan acabava, uma sensação de vazio acompanhada de um uuf, que mais ou menos se poderá traduzir por: finalmente.


Eu já volto com a análise técnico táctica da obra Central Europa, de William T. Vollmann. Obrigado.


fevereiro 09, 2019

O Vollmann, eu, o Gabriel, e outras cenas literárias

O Gabriel tinha-me falado do Vollmann. O Gabriel tinha escrito sobre o Vollmann, mais do que uma vez, acho, embora eu já o tivesse encontrado aqui e ali, ou por acolá, não sei bem, não sei se já leram Sebald?, pois o Sebald está na ordem do dia de Vuillard, eu disse isso ao Gabriel, lembro-me bem, disse-lhe vai mas é ler a ordem do dia, e já agora apanhas o Sebald no Livrarias do coiso, a sua voz rouca de pequenos nadas até está no Vollmann, a espaços, bem entendido, mas está lá, já agora  – disse-lhe –, o Vollmann e o Kis estão sempre presentes no Livrarias do coiso. A sério? Sério. O coiso, quer dizer, o Carrión é um intelectual que apanha a liana que está mais à mão, sociologicamente criativo, dá-se bem com a industria cultural e coiso, mas faz boas listas, levantamentos, recorda-nos cenas, aponta campos, têm de existir gajos assim viajados para que um gajo esteja mais descansado em casa.

Mas… sim, claro, o Vollmann e tal, solicitei à entidade patronal uma sabática, sei lá, tipo residência artística, ou bolsa literária, mas para ler, ler o Central Europa, que diabo, o Vollmann teve direito a isso, esteve por Berlim, por exemplo, a expensas não sei de quem a trabalhar, diz ele, quer dizer, a ler e a ver cenas para o livro com uma cambada de tipos e tipas em rede, que aquilo é um trapézio colocado a uma altura considerável. E o peso, o peso, leva-nos a espinha a momentos de desordem, momentos que nos levam (deixem passar) a sobrevoar o século XX de cadeirinha no antigo teatro Gil Vicente de Barcelos, agora – dizem-me – remodelado. Para não me perder vou agora fazer uma pausa. Já volto...

janeiro 29, 2019

Há VAR e BAR, há ir e voltar


A chegada de Keiser despertou as luminárias da bola, todas elas versadas em futebol holandês e croissants amanteigados. Com as primeiras vitórias o desassossego instalou-se (Bernardo Soares escreveu sobre isso), e tiveram que se arranjar duas ou três explicações para o fenómeno enquanto se entrevistava Jorge Jesus algures no médio oriente. Após as primeiras derrotas, um dos analistas avançou com um ou dois pensamentos que fizeram escola no liceu de Carrazeda de Ansiães: nas vitórias os oponentes eram fracos, nas derrotas os oponentes eram consideravelmente superiores. Por exemplo, o Tondela. Do lado dos fracos ficava o Rio-Ave, a mesma equipa que o analista havia elogiado pouco tempo atrás como grande candidata ao quinto lugar. Em Carrazeda, duas teses de finalistas explicam em dezoito páginas esta linha avançada de pensamento.

Entretanto, uma convenção de treinadores portugueses reunia-se para discutir o calendário do cozido à portuguesa nos estágios e a importância das chicotadas psicológicas num curriculum vitae que se preze. José Mota foi um dos oradores mais aplaudidos. Lito Vidigal e Jorge Simão terão sido vistos a trocar papelinhos suspeitos. Conceição dissertou sobre bipolaridade: uma coisa é quando se ganha, outra quando se perde. Aplausos. Este debate foi seguido com muita atenção por todo o país.

Mais ou menos por essa altura, talvez um pouco antes, um conhecido dirigente terá visto a luz. Primeiro ainda se pensou que este iria a caminho do estádio com o mesmo nome, mas não, estávamos apenas a entrar num território bem conhecido do futebol português: o espiritismo. Quem diz espiritismo diz mezinhas, bruxaria, capelinhas, ou apenas feelings. Talvez seja por isso que o treinador contratado de seguida pelo dirigente que viu a luz, seja um expert em feelings. Tudo coisas que um treinador holandês, não possui, nem nunca possuirá, obviamente. A associação de treinadores portugueses que vão para os jogos de motorizada, aplaudiu com agrado.

Se possível fazer golos. Foi mais ou menos assim que Abel Ferreira lançou o jogo da meia-final da taça da liga contra o Sporting. Ainda não se descobriu outra forma de ganhar jogos, mas Abel, ainda assim acrescentou: e se possível não sofrer. Diz isto em todos os jogos, e apostamos que nas convenções de treinadores portugueses também, mas é sempre bom escutar estes pensamentos. Como já se sabia que o Braga ia à final, embora tivesse que marcar mais golos que o adversário, ficava apenas em suspenso quem seria o oponente. Salvador, lá no íntimo (como muitos bracarenses) preferia o Benfica, mas a conduta do dirigente que tinha visto a luz ao ir buscar dois jogadores ao Leixões com quem o Braga tinha (supostamente) acordo, deixou Salvador triste. Embora traído reagiu com elevação, à imagem do ano passado quando a altercação era com BdC e o Sporting.

Depois aconteceu aquilo: o VAR foi ao BAR, ou ao contrário, existem várias versões. Registe-se a conduta digna, urbana e elevada dos dirigentes mesmo na derrota. Um dos árbitros decidiu até auto suspender-se por se achar indigno de acompanhar tão ilustres personagens. Entregou-se a taça ao Porto, com o jogo da final a servir apenas de consagração. Sérgio Conceição apelou (sem se rir) ao desportivismo e contenção relativamente aos árbitros. As favas contadas chegaram a uns colegas meus de trabalho. Antes do jogo já estava três a zero. Chegou o dia e foi o que se viu e se poderá ler na excelente posta anterior do Rui. No final, destaque-se, mais uma vez,  a conduta digna e elevada, tanto de treinadores como de dirigentes do Porto. A nova modalidade de lançamento de medalhas avançará inexoravelmente rumo às olimpíadas. Está tudo na nova dissertação de Conceição aos peixinhos, perdão, aos treinadores portugueses. O mestre Madureira, da claque, também estará presente. Por via das dúvidas.


(originalmente publicado no aqui)

janeiro 23, 2019

Fica V. Exa notificado


Quando recebemos uma carta das finanças isso reforça a nossa confiança no sistema. Quando a carta é precedida, algures, por um email, rejubilamos agradecidos a tão inteligente país. Querendo, poderia exercer o direito de audição nos termos e para os efeitos do artigo tal. Ou poderia pagar. Coima (19 cêntimos) incluída. Querendo, eu queria pagar, mas não podia deixar de notar alguma agressividade naquela missiva, cujo linguajar deveria constituir-se como prova da superioridade moral do (nosso) sistema. Pena que nem toda a gente o consiga perceber, funcionários incluídos. Repliquei (mentalmente, apenas) que a culpa era dos meus assessores, que também os tinha, dos advogados, dos empresários, da carripana em causa, velhinha de 1999. E lá fui ao sítio procurar uma forma de pagar e não bufar. Liquidação oficiosa de IUC: feito. E saí dali a sorrir, mais ou menos como o Cristiano Ronaldo e aquela moça jeitosa, após a tal audição, onde o jogador terá assumido culpa de quatro delitos fiscais entre 2011 e 2014 – durante a sua passagem pelo Real Madrid –,aceitando pagar 18,8 milhões de euros de multa, além de 23 meses de prisão, com pena suspensa. E tudo por coisas que não sabia, nem fazia a mínima ideia sequer que não sabia. Os heróis são assim, sorriem apesar de notificados. Às vezes também se riem, mas isso é mais quando sabem de coisas que se revelam uma demonstração da natureza ética/humorística deste país, mais ou menos como: Mãe de dirigente do Aves esconderia contratos com o Benfica. É insustentávelTerão sido notificados?

[este vem a caminho]


Lares postiços


Os salões, os gabinetes de leitura, os ateneus, os cafés ou as livrarias partilham a mesma natureza de lares postiços e de núcleos políticos de tráfego de informação, como se observa no romance "O Viajante do Século, de Andrés Neuman, que de resto escreveu que as livrarias são "lares de passagem".