junho 19, 2020

Música de uma fanada melancolia

Aventuras na História · Por que as estátuas gregas tinham um pênis ...

A canonização em curso da burrice e da imbecilidade teve mais um momento zen (vários até), através da vandalização bacoca de estátuas; maria-vai-com-as-outras, a volúpia do politicamente correcto aproveita qualquer acção, qualquer mecanismo, qualquer movimento que (supostamente) a justifique. Os seus defensores: censores de livros e escritores, de filmes e músicas, censores e revisionistas da história, simples ignorantes (outro cânone dos nossos dias), jornadeiam a reboque das redes socais, de abaixo-assinados, advogando as (nossas?) causas, definindo o que devemos comer, dizer, foder. Está tudo ligado ao vórtice da liberdade como lifestyle, sempre passageira como o piropo proibido. O resto fica na mesma, subindo alguns (sempre bem posicionados) aos meandros do poder que juraram derrubar, ficando os outros a pairar no vazio, ou a carregar a padiola do costume. "Escutando bem", como escreveu um dia Sebastão Alba, "ouve-se como ao pé das estátuas/música de uma fanada melancolia".  

Je ne fais que passer


Não conhecemos a verdadeira identidade de Miss. Tic; a artista perde oito anos de trabalho no incêndio do seu ateliê; publicou "je ne fais que passer" [apenas de passagem], livro esgotado
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Nunca saberemos a data exacta do óbito do escritor Pierre Siniac, descoberto inerte aproximadamente um mês depois do início da sua morte
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Por sua vontade, respeitada até hoje, o nome de Frédéric Mistral não está inscrito no seu túmulo

junho 18, 2020

A vida a passar por um canudo (actualização)

(18/06/2020)

A saga continua. As obras espalham-se como uma grande mancha de óleo. Rodeando a construção das novas superfícies comerciais (e talvez com o patrocínio destas), uma nova alcatifa vai surgindo na rede viária, com os trabalhos a durarem de noite e de dia. Por perto, em várias ruas de São Vicente, continua a operação cosmética dos passeios e estacionamentos e mobiliário urbano. Aqui a saga ganha contornos de uma portugalidade inequívoca. Uma espécie de cosmética de preguiçosos, eivada de um espírito de serviço público que a arrasta no tempo. Até às eleições, presume-se. A modernidade saloia veio para ficar. 

Palavras bruxuleantes


Entretanto, o esquecimento pariu as aldeias resilientes...

Bom dia, doamna princesa


E, com um alegre tilintar de campainhas, a carruagem passou entre os montes de cadáveres nus e de duas fileiras de gente humildemente curvada, que apertava nos braços o cruel espólio. Passou a trote largo, puxada pelos belos cavalos brancos, que o chicote do eunuco Grigori, solene e inchado na boleia, excitava com o ligeiro baloiçar da comprida ponta vermelha.

junho 01, 2020

É o maior



Clint Eastwood afirmou que ia deixar Hollywood? - Polígrafo


As peças que faltam


Por exemplo: 

A autobiografia de Agripa desapareceu, assim como o seu tratado de geografia
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Georges Perec morre sem acabar de nascer; "Eu Nasci" é o título do livro que ele deixa inacabado
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Dorothy Parker foi cremada em 1967 (o epitáfio sugerido por Dottie: "Desculpem a poeira"); a urna ficou na funerária ate 1973, data em que acabou no notário, que a guardou numa gaveta, onde ficou esquecida até 1988
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maio 28, 2020

Kaputt


Parte da sua história poderá ser, eventualmente, encontrada aqui. Em pleno isolamento, através de um amigo, foi possível descobrir esta edição de bolso da Europa-América disponível numa livraria de Braga: nova, mas com idade avançada. Entretanto, parece que temos na calha reedição (já não era sem tempo) com a chancela da Cavalo de Ferro.

Até tu, Suécia?

Leyaonline - A Rainha No Palácio Das Correntes De Ar - LARSSON, STIEG

Não estou a propor que percam dinheiro, mas é bem possível que lá cheguemos. Ser proprietário implica uma responsabilidade. Acaba agora mesmo de dizer que aqui é o capitalismo que prevalece. Os proprietários do SMP [jornal] querem lucros. Mas as regras são tais que é o mercado que decide se há lucros ou prejuízos. Segundo o seu raciocínio, quer que as regras do capitalismo sejam selectivamente válidas para os trabalhadores do SMP, mas que os accionistas, e o senhor, claro, não lhes estejam sujeitas. 

maio 15, 2020

Isolamento XXXI


A Oeste nada de novo, ou, a nova (velha) normalidade: o Novo (velho) Banco, a velhíssima história de sempre: as constantes injecções (qual a novidade?), ou aquela dos prémios, not so fast you greedy bastards, como se alguém objectasse o saque. A tradição ainda é o que era. Ainda se admiram com as bujardas dos golpes baixos. O patriotismo é fundamental para o bolso.

maio 13, 2020

Isolamento XXX


"O Enigma de Paris" não contém nenhum enigma a não ser o que me terá levado à compra do livro. Mas até esse tem uma explicação: a entrada, obra de um acaso, numa feira do livro (assim era denominada), numa das minhas deambulações pelo interior, concretamente, em Figueira Castelo Rodrigo, 23-04-2019, um ano antes de A.C (antes da coisa). O nome do autor, embora não estranho, soava a jogador de futebol argentino ou uruguaio, De Santis, Pablo de Santis. A tradição da literatura argentina e a ausência de alternativas fizeram o resto. Cumpriu-se assim a tradição, consumista, da compra de um livro em quaisquer circunstâncias, especialmente numa feira do livro realizada no hall de um pavilhão, sem público, e com uma senhora muito simpática a tricotar pensamentos atrás de um balcão. Quanto ao resto, exceptuado sejam, algumas boas tiradas, e o enquadramento de um velho mundo de detectives prestes a desmoronar-se à sombra da Exposição Universal (onde já vimos isto?) e da inauguração da Torre (poderes ocultos e sociedades remotas se digladiam), não fica muito para deixarmos aos nossos descendentes. Entretanto, após a exposição universal de Paris, apeteceu-me uma visita a uma outra exposição: a da estupidez e crueldade humanas:


Entre uma e outra não medeiam muitos anos. 


Isolamento (notas musicais)

maio 10, 2020

Isolamento (notas)

(aqui)

Da emergência à calamidade:  O novo CEO do BPI «promete manter o legado deixado pelos seus sucessores.» (daqui). Risinhos. 

Entretanto, diz que o futebol (onde está a massa?) vai voltar. A sério?

Já agora, visite o Museu Virtual do Cartoon (Galeria Anti COVID-19). É à borla.  

maio 09, 2020

Isolamento XXVIII

Computer Says No Little Britain Men's T-shirt | Kidozi.com

Calamidade: desgraça, catástrofe, flagelo, adversidade, o mal? Computer says yes. Rubem Fonseca says no. Ele dizia que cada palavra vive por si própria. Não existiam sinónimos, isso era coisa de gramático. A gramática actual, à falta de corrector ortográfico (esse fiasco cognominado de acordo) vive na matemática, na estatística. Ninguém (por aí além) se questiona: aplicações no telemóvel, certificados de imunidade, câmaras ocultas? Certamente. Praias com torniquetes, drones, raides aéreos? Se necessário. Os velhos por casa, no asilo (existem palavras que se adequam) sine die, restringidos por zonas e horários? É para o bem geral.

Rentes de Carvalho: Assusta-me também a perspetiva de que este ambiente de medo veio para ficar, porque ajuda eficazmente a manter o cidadão assustado, obediente, pronto a denunciar o vizinho que não obedece. o vizinho que não obedece.(…) Em matéria de catástrofes, a minha imaginação tem tendência para disparar, mas em momento nenhum me ocorreu que isto poderia acontecer, como ainda considero incrível o pouco valor que os indivíduos dão à liberdade e o tremendo poder do medo. (Diário de Notícias – 09/05/2020)

maio 01, 2020

Isolamento (XXVI)


Da emergência à calamidade: melhorou?
Infecção financeira na economia (assim, de ouvido): previsão, ou gosto pela roupagem vírica?

Dá-me a honra de uma dança? Uma valsa com a língua portuguesa (para desenfastiar): o pregador não tinha dois dentes na frente e isso, para mim, lhe dava alguma credibilidade. As pessoas sem dentes me comoviam. Além do mais era pálido e parecia hospedar em seu corpo todos os vermes conhecidos e desconhecidos da parasitologia tropical, escreve Rubem Fonseca em “A Grande Arte”. A falta de dois dentes na frente, para efeitos de credibilidade, recordou-me os Gato Fedorento (antes da criminalização do piropo, mesmo com o uso de máscara): aos 2m:11s, por favor.

Henrique Raposo é um conservador de direita, pertencente ao clube de fãs de Scruton, ao menos isso. Começo sempre, se disponível, o Expresso pelo fim. É uma questão de credibilidade, a entrada pelas traseiras. Ainda há pouco lia: Não aceito que você seja tratado como uma criança ou como um escravo. Se estas app que imitam as soluções chinesas não são inconstitucionais, então não sei para que serve a Constituição. Ser livre tem um preço. A liberdade tem um custo. Não podemos querer uma coisa e o seu contrário, não podemos desejar uma liberdade ocidental nos tempos normais e um Estado totalitário chinês quando os tempos apertam. Até porque estas app que surgem no sulco aberto pelo arado da covid-19 são apenas a porta de entrada para uma tentação possibilitada pela tecnologia. Começo a ter uma estranha relação de proximidade com Raposo, potenciada pelas nossas diferenças.

E a língua portuguesa continua: no sulco aberto pelo arado da covid-19, ou descarregado por um outro afluente, surge a inevitável (dizem-nos) questão: qual a primeira coisa que quer fazer (quando voltarmos à normalidade)? Pergunta do Expresso. Resposta de Adolfo Lúxuria Canibal: Estou a dar-me muito bem com o confinamento. É a realização do sonho pré-adolescente de um amor e uma cabana. Já tenho saudades disto, pensando que um dia vai acabar. Foi a desculpa perfeita para ser antissocial sem levantar suspeitas. Ainda há esperança. 

Isolamento (notas artísticas)


abril 28, 2020

Isolamento (notas artísticas)

Isolamento I (actualização II)



(28/04/2020)

Tudo volta, até as obras. A sua evolução foi sendo exposta aqui e aqui. O resto é obra da primavera, expressa nas folhagens das árvores. A minha rua e a senhora da caixa do Mini tinham ambas razão: são duas construções, a mais recente teve início ontem, e fica bem ao lado da referida anteriormente, uma supostamente ligada à distribuição, outra, dizem, à comida rápida, assim mesmo na língua de Camilo, que nunca a deverá ter provado. Leonardo Benevolo, no seu livro “A cidade na história da Europa” escreve: as obras que hoje fazemos nas cidades – as respostas que damos aos nossos problemas momentâneos – serão vinculativas por muitos anos, mesmo quando os modos de pensar e de viver já tiverem mudado, e como fazemos modificações cada vez maiores e mais frequentes, vamos prejudicar cada vez mais a vida das gerações futuras, sem todavia sabermos prever e gerir suficientemente os efeitos remotos dos nossos actos. A cidade, diz-nos Italo Calvino em “As Cidades Invisíveis”, não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, escrito nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes e entalhes. Olho lá para fora com os olhos e os ouvidos, e recordo-me do título de um filme que anunciavam recentemente num dos canais da tevê: grávida…mas pouco. É isso Braga: cidade…mas pouco.

abril 27, 2020

Isolamento (XXV)

Franny e Zooey, J. D. Salinger - Quetzal Editores

"Cerca de quatro anos antes, no dia em que terminara o ensino secundário, o irmão Buddy tinha morbidamente profetizado, enquanto ela sorria em cima do estrado, que era muito provável que acabasse por se casar com um homem que tivesse uma tosse seca. De modo que também havia isso no rosto dela."

abril 23, 2020

Isolamento (XXIV)

Teremos sempre Paris

Gosto dos títulos de alguns livros de Ray Bradbury: “A morte é um acto solitário”; “Teremos sempre Paris”; “Um cemitério para Lunáticos”; “Fahrenheit 451”. “Fahrenheit 451” e “A morte é um acto solitário” são imprescindíveis ao atravessamento do mundo de uma forma minimamente diligente. Teremos sempre Paris, We'll always have Paris é uma deixa inesquecível de Casablanca, embora subalterna a Play it again, Sam, esta última, segundo parece, nunca dita, pelo menos dessa forma. Apesar disso, acabou num filme escrito e protagonizado por Woody Allen, embora realizado por Herbert Ross. A vida tem dessas coisas. Teremos sempre Paris, de Bradbury, na edição portuguesa da Bizâncio, apresenta-se, legitimemente, como uma das piores capas atribuídas numa edição em língua portuguesa a um escritor que se consiga ler sem vomitar. Aquela imagem do velhinho em pano de fundo, as cores escolhidas, o tipo de letra, tudo contribui para estarmos perante uma obra ligada ao oculto sensaborão, induzindo em erro os menos atentos. No conto Massinello Pietro, Bradbury escreve: Olhou à sua volta, o mundo estava cheio de estátuas, como ele outrora tinha sido. Havia tantas pessoas que já não conseguiam mexer-se, nem sequer sabiam como haviam de começar a andar outra vez para qualquer lado, para trás, para a frente, para cima, para baixo, porque a vida os tinha picado e aturdido e batido até ficarem num silêncio de mármore. Bradbury, escritor (também) de ficção cientifica, perceberia hoje que a realidade ultrapassa e, muito, a ficção.  Acho que ele sabia disso...

abril 21, 2020

Isolamento (XXIII)


Dezembro 2018 - Novamente Geografando

Depois da biologia, finalmente, tempo para a geografia: montanhas, planaltos, planícies. A curva, após movimentos anticlinais e sinclinais, conforme o programa, assumirá a sua natureza rectilínea, embora, neste particular, estejamos inclinados a aceitar a teoria de Salinger (já lá iremos, a Franny e também a Zooey) sobre aquela espécie de geometria semântica, na qual a distância mais curta entre dois pontos é um círculo quase completo. Depois disto, o deserto, qualidade de que, em breve, serão revestidos os nossos pensamentos, lavrados pela economia. Verdade seja feita, e não dita: sempre temos os abaixo assinados e a revolta na Bounty das redes sociais (único aspecto do social não confinado, por razões ainda desconhecidas). Entretanto, seria interessante, antes de nos aspergirem com as novas homilias económicas, olharmos para isto e para aquilo. Interessante, e um bom ponto de partida para conhecermos as linhas com que se cosem os nossos contornos nacionais. Temos mapas disso, mas a nossa recusa em contribuir para teorias conspirativas é ponto de honra.