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junho 01, 2020

As peças que faltam


Por exemplo: 

A autobiografia de Agripa desapareceu, assim como o seu tratado de geografia
.
Georges Perec morre sem acabar de nascer; "Eu Nasci" é o título do livro que ele deixa inacabado
.
Dorothy Parker foi cremada em 1967 (o epitáfio sugerido por Dottie: "Desculpem a poeira"); a urna ficou na funerária ate 1973, data em que acabou no notário, que a guardou numa gaveta, onde ficou esquecida até 1988
.

maio 28, 2020

Kaputt


Parte da sua história poderá ser, eventualmente, encontrada aqui. Em pleno isolamento, através de um amigo, foi possível descobrir esta edição de bolso da Europa-América disponível numa livraria de Braga: nova, mas com idade avançada. Entretanto, parece que temos na calha reedição (já não era sem tempo) com a chancela da Cavalo de Ferro.

maio 13, 2020

Isolamento XXX


"O Enigma de Paris" não contém nenhum enigma a não ser o que me terá levado à compra do livro. Mas até esse tem uma explicação: a entrada, obra de um acaso, numa feira do livro (assim era denominada), numa das minhas deambulações pelo interior, concretamente, em Figueira Castelo Rodrigo, 23-04-2019, um ano antes de A.C (antes da coisa). O nome do autor, embora não estranho, soava a jogador de futebol argentino ou uruguaio, De Santis, Pablo de Santis. A tradição da literatura argentina e a ausência de alternativas fizeram o resto. Cumpriu-se assim a tradição, consumista, da compra de um livro em quaisquer circunstâncias, especialmente numa feira do livro realizada no hall de um pavilhão, sem público, e com uma senhora muito simpática a tricotar pensamentos atrás de um balcão. Quanto ao resto, exceptuado sejam, algumas boas tiradas, e o enquadramento de um velho mundo de detectives prestes a desmoronar-se à sombra da Exposição Universal (onde já vimos isto?) e da inauguração da Torre (poderes ocultos e sociedades remotas se digladiam), não fica muito para deixarmos aos nossos descendentes. Entretanto, após a exposição universal de Paris, apeteceu-me uma visita a uma outra exposição: a da estupidez e crueldade humanas:


Entre uma e outra não medeiam muitos anos. 


maio 01, 2020

Isolamento (XXVI)


Da emergência à calamidade: melhorou?
Infecção financeira na economia (assim, de ouvido): previsão, ou gosto pela roupagem vírica?

Dá-me a honra de uma dança? Uma valsa com a língua portuguesa (para desenfastiar): o pregador não tinha dois dentes na frente e isso, para mim, lhe dava alguma credibilidade. As pessoas sem dentes me comoviam. Além do mais era pálido e parecia hospedar em seu corpo todos os vermes conhecidos e desconhecidos da parasitologia tropical, escreve Rubem Fonseca em “A Grande Arte”. A falta de dois dentes na frente, para efeitos de credibilidade, recordou-me os Gato Fedorento (antes da criminalização do piropo, mesmo com o uso de máscara): aos 2m:11s, por favor.

Henrique Raposo é um conservador de direita, pertencente ao clube de fãs de Scruton, ao menos isso. Começo sempre, se disponível, o Expresso pelo fim. É uma questão de credibilidade, a entrada pelas traseiras. Ainda há pouco lia: Não aceito que você seja tratado como uma criança ou como um escravo. Se estas app que imitam as soluções chinesas não são inconstitucionais, então não sei para que serve a Constituição. Ser livre tem um preço. A liberdade tem um custo. Não podemos querer uma coisa e o seu contrário, não podemos desejar uma liberdade ocidental nos tempos normais e um Estado totalitário chinês quando os tempos apertam. Até porque estas app que surgem no sulco aberto pelo arado da covid-19 são apenas a porta de entrada para uma tentação possibilitada pela tecnologia. Começo a ter uma estranha relação de proximidade com Raposo, potenciada pelas nossas diferenças.

E a língua portuguesa continua: no sulco aberto pelo arado da covid-19, ou descarregado por um outro afluente, surge a inevitável (dizem-nos) questão: qual a primeira coisa que quer fazer (quando voltarmos à normalidade)? Pergunta do Expresso. Resposta de Adolfo Lúxuria Canibal: Estou a dar-me muito bem com o confinamento. É a realização do sonho pré-adolescente de um amor e uma cabana. Já tenho saudades disto, pensando que um dia vai acabar. Foi a desculpa perfeita para ser antissocial sem levantar suspeitas. Ainda há esperança. 

abril 27, 2020

Isolamento (XXV)

Franny e Zooey, J. D. Salinger - Quetzal Editores

"Cerca de quatro anos antes, no dia em que terminara o ensino secundário, o irmão Buddy tinha morbidamente profetizado, enquanto ela sorria em cima do estrado, que era muito provável que acabasse por se casar com um homem que tivesse uma tosse seca. De modo que também havia isso no rosto dela."

abril 23, 2020

Isolamento (XXIV)

Teremos sempre Paris

Gosto dos títulos de alguns livros de Ray Bradbury: “A morte é um acto solitário”; “Teremos sempre Paris”; “Um cemitério para Lunáticos”; “Fahrenheit 451”. “Fahrenheit 451” e “A morte é um acto solitário” são imprescindíveis ao atravessamento do mundo de uma forma minimamente diligente. Teremos sempre Paris, We'll always have Paris é uma deixa inesquecível de Casablanca, embora subalterna a Play it again, Sam, esta última, segundo parece, nunca dita, pelo menos dessa forma. Apesar disso, acabou num filme escrito e protagonizado por Woody Allen, embora realizado por Herbert Ross. A vida tem dessas coisas. Teremos sempre Paris, de Bradbury, na edição portuguesa da Bizâncio, apresenta-se, legitimemente, como uma das piores capas atribuídas numa edição em língua portuguesa a um escritor que se consiga ler sem vomitar. Aquela imagem do velhinho em pano de fundo, as cores escolhidas, o tipo de letra, tudo contribui para estarmos perante uma obra ligada ao oculto sensaborão, induzindo em erro os menos atentos. No conto Massinello Pietro, Bradbury escreve: Olhou à sua volta, o mundo estava cheio de estátuas, como ele outrora tinha sido. Havia tantas pessoas que já não conseguiam mexer-se, nem sequer sabiam como haviam de começar a andar outra vez para qualquer lado, para trás, para a frente, para cima, para baixo, porque a vida os tinha picado e aturdido e batido até ficarem num silêncio de mármore. Bradbury, escritor (também) de ficção cientifica, perceberia hoje que a realidade ultrapassa e, muito, a ficção.  Acho que ele sabia disso...

abril 21, 2020

Isolamento (XXIII)


Dezembro 2018 - Novamente Geografando

Depois da biologia, finalmente, tempo para a geografia: montanhas, planaltos, planícies. A curva, após movimentos anticlinais e sinclinais, conforme o programa, assumirá a sua natureza rectilínea, embora, neste particular, estejamos inclinados a aceitar a teoria de Salinger (já lá iremos, a Franny e também a Zooey) sobre aquela espécie de geometria semântica, na qual a distância mais curta entre dois pontos é um círculo quase completo. Depois disto, o deserto, qualidade de que, em breve, serão revestidos os nossos pensamentos, lavrados pela economia. Verdade seja feita, e não dita: sempre temos os abaixo assinados e a revolta na Bounty das redes sociais (único aspecto do social não confinado, por razões ainda desconhecidas). Entretanto, seria interessante, antes de nos aspergirem com as novas homilias económicas, olharmos para isto e para aquilo. Interessante, e um bom ponto de partida para conhecermos as linhas com que se cosem os nossos contornos nacionais. Temos mapas disso, mas a nossa recusa em contribuir para teorias conspirativas é ponto de honra.

abril 18, 2020

Isolamento (XX)


Entretanto, na página duzentos e trinta e um (edição Europa- América, 1973 – a coisa já vem daqui), de “O Zero e o Infinito”, duzentas e trinta páginas de amarelecimento (também já li as restantes, incluindo o posfácio, e comprova-se esse amarelecimento macilento das páginas) depois, Arthur Koestler escreve: havia um erro no sistema; talvez residisse no preceito que até agora considerara incontestável, em cujo nome sacrificara outros e estava ele próprio a ser sacrificado: no preceito de que o fim justifica os meios. Fora esta frase que liquidara a grande fraternidade da Revolução [assobios para o ar] e os transformara a todos em loucos furiosos. Que escrevera ele no diário? «Atiramos borda fora todas as convenções; o único princípio que nos guia é o da lógica consequente; navegamos sem lastro moral.» Estivemos a rondar a decomposição aqui e ali. E noutros locais certamente.  

abril 14, 2020

Isolamento (XVII)


Se tem febre e tosse ou garganta dorida, fique em casa: assim começa “O Planeta dos Macacos – A Revolta”. Eu tinha estado a rever “O Planeta do Macacos – A origem”: a ideia era criar um medicamento para o Alzheimer, testado em chimpanzés (a primeira versão do medicamento era inclusive testada no pai do protagonista), criando assim o retrovírus ALZ-113, desembocando a brincadeira na doença da Gripe Símia e numa pandemia mundial de consequências terríveis. O meu cérebro cozinhou ali mesmo uma ou duas teorias da conspiração, infalíveis. Após vinte e sete minutos de filme, observando alguns chimpanzés importantes a cavalo (para quando uma revolta dos cavalos? - digo eu), decido ir ler um pouco e retomar as teorias conspirativas mais tarde, ao sol.

Lá fora o silêncio era total. Sentei-me, na companhia de Arthur Koestler (“O Zero é o Infinito”). Lá fora o silêncio era total, dizia Arthur Koestler. Todo o movimento da prisão estava congelado na escuridão. Fumei um cigarro. Acho que bebi água. Fui dormir.

Não penses, faz: constava de um letreiro pendurado por cima da máquina de escrever de Ray Bradbury. E assim terá sido por mais de setenta anos, fonte fidedigna. Não penses, faz: lê-se na introdução ao livro de contos “Teremos sempre Paris”, de Ray Bradbury. Aconteceu-me hoje de manhã. O Carteiro ainda toca, pelo menos uma vez. E desta vez trouxe boas notícias: “Teremos Sempre Paris”, e “Franny E Zooey”, de J.D. Salinger. Entretanto, fui tomar o pequeno-almoço.

abril 11, 2020

Isolamento (XV)


Estive a pensar: lá fora é o exterior?

Um exemplo: A cultura vai ter de ocupar as ruas, vai ter de ocupar as cidades, diz uma ministra. O campo está dentro de nós, é roupa de andar por casa, uma ideia velhíssima: a província.

Livrarias independentes juntam-se e lançam campanhas. A rua não o sabe. Dentro de portas ainda há rua. As muralhas têm as suas portas e, lá dentro, ruas. Das ameias vê-se quase tudo.

Sucedem-se: movimentos não visíveis a olho nu. A seguir ao pico será a planície. É uma pergunta?

O mundo biológico não quer saber da geografia (pano para mangas).

Lido cá de dentro, “Victoria”, de Knut Hamsum, parece escrito sob o peso de um universo onde o mundo está apenas a começar a morrer. Já morre há alguns dias. O filho do moleiro ainda escreve poesia: estive a olhar as minhas fantasias onde o sol é muito forte [e queima].

Arthur Koestler escreveu “O Zero e o Infinito” (saiu da minha caixa de primeiros socorros). “O Zero e o Infinito” é uma prisão: mesmo se considerarmos o exterior, dentro de cada um habita já uma prisão: não havia certezas; só o apelo a esse oráculo trocista chamado história que só lavrava as suas sentenças quando os maxilares dos que para ele apelavam se tinham transformado há muito em pó.

Ganha pouco [lay-off assim de forma simplificada]: bom nome para uma loja, inspirador de confiança (Flaubert)

abril 09, 2020

Isolamento (XIV)


Trieste, Dasa Drndic - Sextante Editora

Trieste: com imaginação e algum álcool à mistura, soaria, saído da boca de um amigo açoriano, como triste. A altas horas da noite, claro. A altas horas da noite da sua vida, Haya Tedeschi espera. A sua história é pequena, escreve Daša Drndić, uma das inumeráveis histórias sobre encontros, sobre os vestígios preservados do contacto humano. Haya vai retirando de um grande cesto vermelho pedaços da sua vida, e a história da sua família agita-se em contacto com o ar (por vezes irrespirável) da sua memória. Haya Tedeschi espera em Gorizia (ou Gorz - conforme nos deslocamos do Império Habsburgo à Itália), localizada a noroeste de Trieste, junto à fronteira com a Eslovénia. Esta zona é uma gamela (o uso desta palavra é intencional) cultural em constante vaivém de impérios, fronteiras, guerras e morte. Haya espera o seu filho. Sessenta e dois anos passaram.

Daša Drndić não aprecia particularmente a expressão ficção documental como classificação para o seu método de trabalho, ainda assim, na página 417 (nota da autora e permissões) escreve: no espírito e na tradição estabelecida da ficção documental, integrei as vozes de muitas figuras e palavras de muitos escritores ilustres. A sua escrita é uma mistura de ficção e faction (neste caso literature faction), isto é, um texto sustentado em figuras e eventos históricos reais misturados com ficção, socorrendo-se de fotografias, documentos, transcrições. Esta é uma história da decomposição que trespassa o século XX.

Como é que Haya conhece e se enamora de Kurt Franz? Pois, na tabacaria onde trabalha. Franz tem 30 anos, veste uniforme (já o imaginamos?), é vistoso, alto e forte e, oh, gentil. A sua alcunha polaca é “Lalka”, isto é, boneca. Franz é fotógrafo amador (parece que dos maus). Haya passeia com Franz: encontra-se com ele sorrateiramente nos arredores de Gorizia, vão a Trieste à ópera, ao cinema, sentam-se nas esplanadas. Kurt conta bonitas histórias a Haya, o seu cão Barry, o seu trabalho na Polónia numa linda floresta, perto de uma encantadora estação ferroviária, onde havia um parque zoológico. Bons tempos.

À sua volta, além da guerra, sucedem-se as viagens dos comboios de mercadorias com paragem em Triste e Gorizia (durante a noite). É preciso ordem. Destino: Mauthausen, Dachau, Treblinka, Auschwitz. Os nomes de cerca de nove mil judeus que foram deportados de Itália, ou mortos em Itália, ou nos países que Itália ocupou entre 1943 e 1945, constam deste livro (páginas 173 - 233). (Nem seria necessário ir para longe: San Sabba também dava conta do recado). Existem outras listas disponíveis, da Aktion T4 1943, por exemplo. Atrás de cada nome há uma história.

Kurt Franz (assim por alto): SS- Untersturmführer, nasceu em 17 de Janeiro de 1914, em Düsseldorf. Cozinheiro. Serve no exército de 1935 a 1937. Alista-se nas Waffen-SS, com o número 319 906. Inicia a carreira em fins de 1939 como cozinheiro no centro de eutanásia de Grafeneck. E depois? Bom, Kurt Franz ainda trabalha como cozinheiro em Buchenwald e em 1942 vai para Belzec e a seguir para Treblinka. Treblinka torna-se o seu reino. Depois da revolta de agosto de 1943, torna-se comandante do campo. Em Treblinka pavoneia-se, cavalga, sai de manhã para uma corrida, canta, canta, (…) mantém-se em forma, cuida do seu belo corpo, e o seu fiel Barry está sempre atrás dele. Gosta de flores. Antes de encerrar o campo, Kurt Franz passa o tempo a matar pessoas. E depois? No final de 1943 Kurt Franz é transferido para Trieste, onde conhece a judia Haya. E depois?...


Nota: “Trieste” é traduzido do inglês por António Pescada. “Trieste” é o título da edição inglesa. O título original da edição croata é Sonnenschein: uma palavra alemã que quer dizer luz do sol, segundo creio. Percebo que Trieste (um porto histórico atestado de estórias e mitos) como título seja muito estimulante. Não percebo a necessidade de os leitores portugueses lerem uma tradução da versão inglesa. Arriscar-me-ia dizendo que algo se perdeu?)

abril 05, 2020

Isolamento (XI)


Curzio Malaparte parece um nome saído de um Western Spaghetti. Curzio Malaparte é o pseudónimo de Kurt Erich Suckert, nascido em Prato, Itália, a 9 de Junho de 1898, filho de Erwin Suckert, de origem alemã. Malaparte foi quase tudo: teve uma educação proletária (tinha sido confiado a uma família de operários), aderiu ao partido republicano (do qual foi secretário), alistou-se (muito jovem) como voluntário na Legião de Garibaldi, combatendo em França, na primeira Guerra Mundial. Com a entrada da Itália na guerra alistou-se como voluntário, começando, aos dezassete anos, a trepar na hierarquia, de soldado raso a comandante, gaseado em Bligny, as sequelas pulmonares acompanhar-lhe-ão toda a vida. Volta a Itália em 1921, após um périplo (vamos assim chamar-lhe) burocrático por vários países, para trabalhar como jornalista e escritor. Adere ao partido fascista e em 1925 assina o Manifesto dos intelectuais fascistas, já como Curzio Malaparte. Entretanto, vai escrevendo e publicando. Viaja. Trava duelos. Conhece mulheres. Em 1931 publica “Técnica do Golpe de Estado” (já lá vamos). Cai em desgraça junto do partido fascista (as razões são várias) e é condenado ao desterro (curto) em Lipari, passando por Ischia e Forte dei Marmi. Escreve contos, prosa de reflexão, escreve em jornais (às vezes à socapa), edita revistas, eu sei lá que mais.

Pausa. Antes do isolamento cá do burgo, a 8 de Março, lia no blogue “Tempo Contado”, de Rentes de Carvalho: Agora que o medo é tanto e tão espalhado, procuro conforto na leitura de Malaparte, que tão bem soube descrever até que fundo de nós mesmos o medo pode torturar. A imagem de uma das suas obras, “Kaputt”, edição francesa, fazia as honras da casa. Procurei: as plataformas online de vendas reconheciam o autor. Esgotado. Apenas disponível em edições inglesas, espanholas, francesas. Todas as suas obras emblemáticas: A Pele, Kaputt, Malditos Toscanos, As Mulheres também perdem a guerra, O sol é cego, Técnica do Golpe de Estado, entre outras. Tudo (ou quase) havia sido publicado, noutro espaço-tempo, o dos anos 80 do século passado, em várias editoras (Europa-América, Livros do Brasil e colecções com organizadores livres), reflexo de uma época de grandes edições (as traduções são outra conversa), agora apenas disponíveis em alfarrabistas e vendas de usados. Existem muitos autores que definham no limbo dos usados. Eu tinha uma pulga atrás da orelha e esta chamava-se Malaparte.

Dias depois, estava eu deitado a ler “Trieste” de Daša Drndić quando, na página 31, esta faz uma referência ao signor Ugo Ojetti, com direito a uma grande nota de rodapé. Escreve Daša Drndić que o fascismo atraiu um certo número de intelectuais italianos. Mais tarde, escreve ainda Daša Drndić, viram a luz e abandonaram o partido. Lá está Luigi Pirandello (prémio nobel da literatura) e Curzio Malaparte. Em Março de 1925, no Congresso dos Intelectuais Fascistas realizado em Bolonha, o seu Manifesto é assinado por Curzio Malaparte, Tommaso Marinetti, Ugo Ojetti(…) entre muitos outros, escreve Daša Drndić. Ainda não tinha chegado àquela parte do livro onde se lê: atrás de cada nome há uma história. (“Trieste” também faz parte de uma história da decomposição, mas isso ficará para depois). A pulga continuava a insinuar-se.

Arrumações: a sala requeria uma barrela e assim foi. Ao abrir a caixa de primeiros socorros (uma surpresa de aniversário, anos antes), onde supostamente se guardariam elementos indispensáveis à sobrevivência, neste caso, um kit com livros (depois também carregadores de telemóvel), tudo edições Europa-América de bolso compradas em vários devaneios, feiras e arredores: por exemplo, “Da Guerra”, de Carl Von Clausewitz, “O Zero e o Infinito”, de Arthur Koestler e… “Técnica do Golpe de Estado”, de Curzio Malaparte, entre outros. Curzio Malaparte está cá em casa desde 17 de Março de 2016, comprado algures, perdido na caixa de primeiros socorros - abrir apenas em caso de emergência, possivelmente em fila de espera de leituras que se acumulam, ou apenas aproveitamento de espaço vital, não sei, não me recordo.


Edição de bolso de 1983, devidamente enquadrada com uma introdução de Luigi Martellini, escudada numa antologia crítica (Trotski, por exemplo), com uma nota bibliográfica de 6 páginas (a quem este texto é devedor) e bibliografia, e ainda sobra espaço para a obra: “Técnica do Golpe de estado”. A consequência disto tudo é a letra microscópica e um constante focar, mesmo recorrendo a auxiliares preciosos como óculos. Esforço a que nos dedicamos com algum prazer.

Já agora: em 1939 encontramos Malaparte na África Oriental como enviado especial do Corriere della Sera; em 1940, o oficial Malaparte (re)começa a sua viagem pelas ruínas e pela morte (segunda guerra mundial). Edita “O Volga nasce Na Europa”, “O Sol é Cego” e “Kaputt”. Segundo Martellini, estas são as obras que definitivamente cortam com o fascismo. Entre 1944 e 1945 terá solicitado a adesão ao PCI (Partido Comunista Italiano). “A Pele” é editado em 1949 (com o autor a residir em França): escandaloso, antipatriótico, imoral, blasfemo, dizem. Em 1949 Malaparte trabalha (sozinho, é o que consta) em  Il Cristo Proibito, rodado no ano seguinte na Toscânia. O filme é polémico e é premiado em Berlim. Escreve contos, teatro, poesia.

1956: a última aventura. Convidado a ir à Rússia visita igualmente a China de Mao. Está doente. Tem um tumor incurável. Volta a Itália e agoniza durante cem dias numa clínica da Roma. Parece que a sua cabeceira era muito requisitada. A névoa pernoita perto de si. Muitas coisas saem dessa névoa. Curzio Malaparte morre no dia 19 de Julho de 1957.

março 28, 2020

Isolamento (VIII)


Não há fins. Quem pensar que há está iludido quanto à sua natureza. São tudo começos. (escreveu Hilary Mantel). Mas já começa, escreve Daša Drndić em “Trieste”, a ser evidente (não interessa para aqui a que propósito), que qualquer tentativa de criar um novo começo (…) conduzirá a um fim, tal como todos os fins contêm um início. Dois livros que se tocam (de forma livre), através de minha decisão de os ler em sequência, sabe-se lá porquê, talvez por se encontrarem na pilha dos não lidos, pilha essa que também incluirá os a reler, ou os complementares àqueles, lidos ou em leitura. As semelhanças dos dois textos, devidamente truncados, levaram-me, ontem, para um patamar de ebulição cerebral próximo da criação de deuses por crianças. Sabemos que ao são tudo começos, seguia-se: aqui está um. E esse um, especificamente, esse começo, era “Trieste” de Daša Drndić. Bem vindos à minha loucura. Obrigado.

março 27, 2020

Isolamento (VII)


Todavia. (…) A palavra “todavia” é como um duende enroscado debaixo da nossa cadeira. Induz a tinta a formar palavras que ainda não vimos e as linhas a marcharem pela página fora e a passaram das margens. E depois? Não há fins. Quem pensar que há está iludido quanto à sua natureza. São tudo começos. Escreveu Hilary Mantel em “O Livro Negro”. 

E continuou: aqui está um.

Trieste, Dasa Drndic - Sextante Editora
E estava mesmo...

março 22, 2020

Isolamento (IV)



Tudo neste livro está em avançado estado de decomposição. Tudo menos a memória. O corpo debate-se, não é bem um corpo, é uma forma vaga de espaço anatómico, algo que habita o pré-pensamento. O “Arquipélado Gulag” de Aleksandr Soljenítsin é um conjunto de fragmentos, vivências, histórias com pessoas (dir-se-ia que sim) lá dentro, quase sempre lá dentro: detenções, processos, prisões, campos, timoneiros, siglas, números. Sem lugar na “História universal da infâmia” de Borges, por manifesta incapacidade imaginativa do autor. Sem lugar no mundo. Apenas no fim do mundo. Com licença: Não, nós somos pó! Estamos sujeitos às leis da poeira. E nenhuma medida do nosso sofrimento é bastante para nos fazer sentir para sempre a dor geral. Espera aí, tenho que respirar, estou a chegar ao fim, falta-me apenas o prefácio. A edição é da Sextante Editora, tradução directamente do russo de António Pescada. Incompleta relativamente ao original, diz-se.

Tinha que desopilar e segui para o século XVI: Ele, Thomas Cromwell, é um bom pretexto. Seguimo-lo em Wolf Hall, caminhamos agora a seu lado em “O Livro Negro”. “Falcões. Wiltshire, setembro de 1535”, escreve à partida Hilary Mantel. Resolvemos a questão não a levantando. E seguimos viagem (página 253 neste preciso momento).

Um fartote de tempo. Banda sonora: álbuns dos The Cure (“Faith” e mais alguns antigos a dar com a chuva). “Virus meadow” (não foi propositado), dos And also the trees. The Felt (qual?). Uma pen antiga a rolar: vários. ANTENA 3, RUM. Acasos. Jornais no ecrã. Ao que nós chegamos. 

E filmes? Filmes ou cinema? Como assim?
Foi um prazer revisitar “Blade Runner” de Ridley Scott. Rever Rutger Hauer, por exemplo: I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Mais chuva. Lágrimas. Coisas nunca vistas. Tive que sair dali a correr, mas só depois de acabar o filme. E depois? “Promessas Perigosas”, ou melhor, “Eastern Promises”, de David Cronenberg. Mais chuva. Máfia russa – a sério? Um filme que nos ensina a não brincar às tatuagens e andar por aí a mostrá-las em banhos públicos. O poder dos símbolos é tramado. E por fim (outros não chegaram a secar no meu cérebro), o mais surpreendente: “Split” (Fragmentado, até lhe fica bem) daquele gajo de A Vila e do Sexto Sentido, M. Night Shyamalan, com um James McAvoy em grande, e não é o único. Diz que é um psychological horror thriller film, mas talvez seja um pouco mais de que isso. No fim, e após apurada pesquisa durante o sono, ficamos a saber que (supostamente) faz parte de uma trilogia. Apenas vi o Fragmentado.  
Agora vou lanchar e depois quem sabe tirar um Tarkovski do armário. 

março 12, 2020

O livro negro


Estamos sempre a aprender: COVID-19 é nome de doença, não de vírus, o dito chama-se SARS-CoV-2 (parece uma coisa saída do Star Trek ou da Galactica). A (suposta) cura ainda não tem nome mas deverá já ter um preço. Entretanto, as estatísticas abordam o tema com a tranquilidade dos números, pior se nos calha a nós, nenhuma estatística conseguirá iludir o nosso corpo por muito tempo. Não tentem as drogas habituais. Para lançar a confusão vou continuar (para além do Gulag e seus apêndices) o Wolf hall com isto:


mal não fará...


março 11, 2020

A minha vida é muito interessante


A propósito da picadora de carne, lembrei-me que tinha isto algures atrás de alguns arbustos da estantina.


São seiscentas e tal páginas de um lado mais seiscentas e tal páginas do outro. Cerca de dois quilos de papel que nos obrigam a caminhar junto ao abismo, ali próximo, onde os seres humanos são esquecidos como sucata, ou nem isso. Uns mudam de pele ao ler isto, outros escondem a memória junto às traseiras do esquecimento. Há por aí um bricabraque que se encontra nas lojas de conveniência política, na moda que tudo recicla em bidões ilustrados pela ignorância. Os bem pensantes (não confundir com os bem pensantes de Soljenitsine), os ortodoxos, aqueles intelectuais que no cume da sua máquina de escrever bebericavam em cafés de tédio, os indiferentes que são esmagados pelo espírito democrático da liberdade de pacotilha; todos (e mais alguns) rondam estes livros, construindo as suas cercas, os seus muros, as suas narrativas. Sei bem disso. Ajudei a carregar alguns tijolos em forma de palavras.