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junho 19, 2020

Música de uma fanada melancolia

Aventuras na História · Por que as estátuas gregas tinham um pênis ...

A canonização em curso da burrice e da imbecilidade teve mais um momento zen (vários até), através da vandalização bacoca de estátuas; maria-vai-com-as-outras, a volúpia do politicamente correcto aproveita qualquer acção, qualquer mecanismo, qualquer movimento que (supostamente) a justifique. Os seus defensores: censores de livros e escritores, de filmes e músicas, censores e revisionistas da história, simples ignorantes (outro cânone dos nossos dias), jornadeiam a reboque das redes socais, de abaixo-assinados, advogando as (nossas?) causas, definindo o que devemos comer, dizer, foder. Está tudo ligado ao vórtice da liberdade como lifestyle, sempre passageira como o piropo proibido. O resto fica na mesma, subindo alguns (sempre bem posicionados) aos meandros do poder que juraram derrubar, ficando os outros a pairar no vazio, ou a carregar a padiola do costume. "Escutando bem", como escreveu um dia Sebastão Alba, "ouve-se como ao pé das estátuas/música de uma fanada melancolia".  

fevereiro 10, 2020

A greta pandémica


Resultado de imagem para greta pandémica

Ainda recentemente andávamos todos em cortejo com a missão de salvar o mundo: as alterações climáticas, o clima, os incêndios, devidamente explicados em fascículos televisivos, comentadores especialistas, a Greta que nos guiava pela mão. O mundo foi salvo in extremis enquanto o diabo comia um sushi num centro comercial de Braga, que isto é um mundo global. Pouco depois, o mundo, coitado, era açoitado por uma hipotética guerra entre o Irão e os EUA, e mais alguns parceiros de um lado e do outro, que aqui não existe homofobia que nos valha. Como se aquela zona do mundo e arredores não andasse sempre em bolandas. As televisões e as redes sociais ocorreram em força, e mais uma vez o mundo foi salvo in extremis. Bastaria dar um salto a este documentário (passou recentemente no National Geographic) para percebermos como aquele lado do mundo se entretém enquanto nós os salvamos. Cansados de salvamentos, com os dedos e os olhos esfalfados de tanto mirar os ecrãs, chega-nos por fim um alerta pandémico com nome de cerveja mexicana. Ocorremos em massa, não se sabe bem para onde. As máscaras já esgotaram e não eram do Joker. O Joker já passou à história. E assim acontece.

janeiro 28, 2020

Imbecis, demasiado imbecis



Vamos bem. A malta não sabe escrever, o vocabulário está ao nível de um Australopiteco bebé e a comunicação faz-se, normalmente, por intermédio de uma palhinha digital. A língua serve, e bem, para massajar unidades anatómicas alheias, as estações do ano continuam a fazer parte do programa eleitoral das festas, assim como o português consta de um ensino remotamente conhecido como escola. Mas tudo isso é igual ao litro. O que não se pode aceitar é a falência do último reduto da linguagem: os palavrões e as asneiras, a escatologia que nos anuncia o fim. Filho da puta aparece-nos por aí nesse novo mundo como FdP, ou filho da p****, ou pior, sarapintado com lagartos e unicórnios. O velhinho foda-se surge como fonix, ou f*****, ou parecido. O vai para o caralho já teve o seu tempo, agora nem sequer é carvalho, vai no asterisco ou, na melhor das hipóteses, com uma camada de símbolos remotamente animais. Nada disto se relaciona com a língua, a vergonha, ou mesmo com a educação. Vivemos um tempo de reciclagem do cérebro, camuflado por cortinados ambientais e sociais. O politicamente correcto evolui para o politicamente imbecil. Puta que os pariu é pouco. Com as letras todas, pelo menos torna-nos humanos. Demasiado humanos?

janeiro 25, 2020

dezembro 08, 2019

Quero cheirar o teu bacalhau, mas em inglês


Como é que se faz? Fácil, basta passar no bacalhau story center. A nossa mundividência poliglota é inesgotável. A forma como sabemos receber os pelintras que nos visitam também. Meu deus (perdoem-me o recurso à providência), este país desperta-nos um desejo absurdo de beber, se é que já não o fazemos, ou sempre o fizemos. Depois respondo a este enigma. Agora vou ali ler um pouco do Bukowski, a ver se ele poderá ajudar.

maio 04, 2019

[mais] uma conspiração de estúpidos


Informa-se que o uso prolongado da liberdade criou muitos ficheiros de lixo. É o que parece, assim à primeira vista, que não esteja cansada. Esta semana ficamos a saber de negociações entre o governo e produtores e distribuidores de alimentos, com vista à diminuição do sal e do açúcar. Isto faz-nos logo imaginar um comité de provas que selecciona aquilo que podemos ou não podemos ingerir seja lá em que orifício for, salvo os da moda. Fumar já só dentro de casa e de tubinho para a extracção devida. Piropos, atenção à listagem disponível, não vá acabar a assobiar atrás de um gradeamento com outros prevaricadores. Iluminados dos estudos de género (levam a conversa para aí, para nos desbotar os sentidos já todos bem desbotados), decidiram retirar algumas obras infantis das bibliotecas (isto aqui perto, em Barcelona), porque habitadas de um sexismo terrível e castrador, entre elas, o capuchinho vermelho. Algures por aí, germinam uns eco-fascistas que gostam de decidir como é que as pessoas devem ou não viver, uma freakcalhice que conhecemos bem de algumas comunidades que depois de encherem o bandulho de dinheiro na cidade, se retiram para perto do povo rura. Tenho andado de cabeça no ar, em vez da roda, o blogue em abandono espiritual, enfim, felizmente ainda tenho liberdade para desaparecer.  

novembro 12, 2018

De borla

(na lata)

Sobre o (suposto) trabalho voluntário, uma onda trendy muito em voga, que sustenta a "eventologia" (termo cunhado por Alain Bourdin) que pastoreia os nosso dias, entre festivais, eventos (supostamente) desportivos, sociais, tecnológicos, servidos à mesa por jovens (e menos jovens) de alma vaga, à procura de um lugar ao sol, devidamente peneirados. É um mundo de exploração sustentado pelos impostos de todos. Ou, pelo menos, de alguns. Duas crónicas recentes chamaram-me a atenção:


 - Não vás ao engano; de Henrique Raposo (sim, do Henrique Raposo)

A minha tese de doutoramento (onde vai ela???), seria sobre isso: o nosso mundo é um evento, ou um parque temático, se quiserem. Talvez um dia. Mas não de borla. 

setembro 23, 2018

setembro 11, 2018

Com serenidade

(Mark Knight)

Não sei bem, mas ouvi na Antena 3, na rubrica fricção científica, algo sobre selfies sexy, um estudo a reter para não possibilitar qualquer dormência excessiva aos neurónios que nos restam. E são apenas três. Contagem recente. A Serena tem mais dois. Faz cinco. A cena da Serena sem serenidade não nos deixa ponta para novelar. Tem dias, mas quase me espanta a vontade de indignação sobre coisas que normalmente nos passariam ao largo. O mesmo para a defesa, intrépida, dessas coisas (nada de melhor me ocorre) que nos sobrevoam ao largo. E são tantas. A moça, serenamente, fez azo do seu melhor conhecimento do envolvimento aos árbitros, formação disponível no sítio do Futebol clube do Porto, com seguimento in situ, Sport Lisboa e Benfica, sem arredores. Resta-nos, à tangente, o desenlace das retribuições às vítimas de Pedrogão. Um fartote de estudos à borla. Mas não com tanta piada. 

Ainda subsiste alguma vida inteligente no planeta. Mas não existem provas irrefutáveis disso.

julho 06, 2018

Pergunta:


Talvez nos sapatinhos à foda-se no canto inferior direito? Na rendinha da calça (calção?)? Nos aplausos que se escutam, sem grande esforço de imaginação, rodeando a arena? Esqueçam a arena, esqueçam o PAN, o Bloco, os esfomeados de causas fracturantes. Concentrem-se na imagem. Obrigado. Agora podem ir sossegados passear o cãozinho.

(imagem daqui)

julho 01, 2018

O nosso mundo é um parque temático


Os Xutos foram definitivamente institucionalizados. Não tarda serão uma t-shirt da primark. Em versão portuguesa, claro. Numa feira perto de si e do presidente.   

maio 02, 2018

L'imagination au pouvoir


O Jornal I hoje faz capa com os cinquenta anos do início do Maio de 68. Durou um mês, mais coisa, menos coisa, mas o seu espírito (dizem alguns) chegou até nós. Como espírito não sei, como slogan publicitário de certeza, aliás devidamente empacotado (e domesticado) na estrutura do sistema capitalista. Como as calças rotas do Punk que se podem comprar por aí, ou as t-shirts dos Ramones na primark.

Parece que foi Roger Scruton que disse ter visto no Maio de 68 meninos burgueses a atirar pedras a polícias oriundos do povo. Estes polícias (supostamente) oriundos do povo são uma forma de contornar a questão e antecipam em muitos anos as t-shirts dos Ramones da primark. Não fosse a polícia o braço mandado de qualquer elite e estaríamos conversados. Charles de Gaulle terá aplaudido. Sucede que esses meninos burgueses, pelo menos, ainda tinham capacidade para se entediar, ou mesmo para se indignar. Nada, de resto, que fosse possível hoje. A não ser num qualquer púlpito indignatório de uma rede social.

Debord e os situacionistas, nas suas críticas à sociedade do espectáculo, foram absolutamente visionários. Longe de transparecerem (apenas) a realidade de uma época (e eles surgem como movimento ainda nos anos cinquenta) criam, isso sim, um movimento (sobretudo) artístico, absolutamente embrionário na perceção da sociedade que se estava a criar e que desaguou naquilo que somos hoje. E isto em termos de urbanismo, arte, economia, sociedade. 

A parque tematização da nossa sociedade radica na parque tematização do pensamento. Não sei se a sociedade do espetáculo de Debord serve para compreender tudo. Não servirá. Nem Debord nos seus devaneios mais bem bebidos terá sonhado com isso e com isto. E se sonhou, em breve teremos uma t-shirt ou um vídeo numa rede social a confirmarem-no.


Nota: temos que reconhecer que a imaginação terá mesmo chegado ao poder: basta observar a forma como o ex Ministro Pinho (entre muitos outros) toureou de forma criativa a nossa democracia, para reconhecermos a nossa reiterada burrice.