Março 02, 2012

"Fale-me um pouco de si, Mr. Marlowe. Isto se é que me permite pedir-lho."


" - Que género de coisas? Sou um investigador privado e já há uns bons anos. Sou um lobo solitário, nunca casei, aproximo-me da meia-idade e não sou rico. Já estive mais que uma vez na cadeia e não trabalho em casos de divórcio. Gosto de beber, de mulheres, de xadrez e mais umas quantas coisas. Os chuis não me vêem com muito bons olhos, mas há alguns com quem me vou dando. Sou natural daqui, nascido em Santa Rosa, os meus pais já morreram, não tenho irmão nem irmãs, e quando derem cabo de mim nalgum beco escuro, como acontece, como podia acontecer a qualquer um na minha actividade, bem como a muita gente em qualquer outra ou mesmo nenhuma, o que não é raro hoje em dia, ninguém irá sentir que a sua vida, dele ou dela, tenha perdido o sentido".

"O imenso adeus" (p.93) , Raymond Chandler. Editorial Presença. Tradução de Carlos Grifo Babo

Não sei porquê, mas passo a vida a deixar Mr. Marlowe apresentar-se. Coisa que ele faz com gosto em todos os livros, para além de resolver coisas que aparentemente já estariam resolvidas. Para Ricardo Piglia (“O último leitor”) este imenso adeus é talvez “o melhor romance policial que já se escreveu”, e ponto final, ou isso. Na capa acima, onde podemos observar uma moça a (dir-se-ia) pairar no espaço em soutien, lê-se que “Chandler não é só o melhor autor do policial negro protagonizado pelo detective privado, ele é um dos maiores escritores do século XX. Ponto final”. Depois de mais um ponto final, ficamos a saber que o dito saiu de um tal de Library Journal. Claro que a chatice disto se resume à capa com a moça, o dito, e o título com o ADEUS a dar com os lábios e supostamente a desintegrar-se (por ser no espaço?), tudo em fundo negro, tudo demasiado pindérico, a apelar à compra não se sabe bem por quem e de quê. Mas vá, sempre é uma nova (2008) edição/tradução. Preferindo capas bem mais interessantes, pois aqui ficam as da Colecção Vampiro-Livros do Brasil. A da direita da autoria de Cândido Costa Pinto. A tradução (diz que famosa) é de Mário Henrique Leiria.


0 comentários: