junho 05, 2016
novembro 11, 2015
maio 28, 2015
fevereiro 12, 2015
Entretanto, irei cuspir-vos nos túmulos
janeiro 11, 2015
A consolação da filosofia?
agosto 20, 2013
junho 19, 2013
Prosa de cortar à faca
Os raios brancos jorram dum tinido de bainhas, a porta roda nos gonzos e o homem aparece, lívido, entre duas manchas negras. Calvo, de crânio polido, cara barbeada, os cantos da boca metidos para dentro como os dos velhos dos asilos, a camisa largamente cortada, um casaco escuro sobre os ombros, ele caminha afoitamente; e os seus olhos vivos, inquietos, perscrutadores, percorrem todas as caras; o seu rosto volta-se para todos os rostos com um movimento compósito que parece feito de mil tremores. Os seus lábios estão agitados; dir-se-ia que murmuram: «A guilhotina! A guilhotina!» Depois, cabeça inclinada, o olhar penetrante fixado a direito na linha da báscula, ele avança como um animal que puxa a charrua. De súbito, choca com a prancha e da sua garganta eleva-se uma voz fina, acre, como um tilintar rachado, com uma nota alta, aguda, sobre a palavra assassino duas vezes repetida.
março 02, 2012
"Fale-me um pouco de si, Mr. Marlowe. Isto se é que me permite pedir-lho."

" - Que género de coisas? Sou um investigador privado e já há uns bons anos. Sou um lobo solitário, nunca casei, aproximo-me da meia-idade e não sou rico. Já estive mais que uma vez na cadeia e não trabalho em casos de divórcio. Gosto de beber, de mulheres, de xadrez e mais umas quantas coisas. Os chuis não me vêem com muito bons olhos, mas há alguns com quem me vou dando. Sou natural daqui, nascido em Santa Rosa, os meus pais já morreram, não tenho irmão nem irmãs, e quando derem cabo de mim nalgum beco escuro, como acontece, como podia acontecer a qualquer um na minha actividade, bem como a muita gente em qualquer outra ou mesmo nenhuma, o que não é raro hoje em dia, ninguém irá sentir que a sua vida, dele ou dela, tenha perdido o sentido".
Não sei porquê, mas passo a vida a deixar Mr. Marlowe apresentar-se. Coisa que ele faz com gosto em todos os livros, para além de resolver coisas que aparentemente já estariam resolvidas. Para Ricardo Piglia (“O último leitor”) este imenso adeus é talvez “o melhor romance policial que já se escreveu”, e ponto final, ou isso. Na capa acima, onde podemos observar uma moça a (dir-se-ia) pairar no espaço em soutien, lê-se que “Chandler não é só o melhor autor do policial negro protagonizado pelo detective privado, ele é um dos maiores escritores do século XX. Ponto final”. Depois de mais um ponto final, ficamos a saber que o dito saiu de um tal de Library Journal. Claro que a chatice disto se resume à capa com a moça, o dito, e o título com o ADEUS a dar com os lábios e supostamente a desintegrar-se (por ser no espaço?), tudo em fundo negro, tudo demasiado pindérico, a apelar à compra não se sabe bem por quem e de quê. Mas vá, sempre é uma nova (2008) edição/tradução. Preferindo capas bem mais interessantes, pois aqui ficam as da Colecção Vampiro-Livros do Brasil. A da direita da autoria de Cândido Costa Pinto. A tradução (diz que famosa) é de Mário Henrique Leiria.
dezembro 06, 2009
março 03, 2009
Às voltas e espreitando a janela
Este livro aportou um dia lá em casa, ainda com a capa (belíssima) intacta, com o Sartre a tiracolo, ou como diz um amigo meu, “à cabeça de uma esplanada sexual”. Ainda hoje não sei bem como lá terá chegado. Recordo que quando comecei a lê-lo o sol espraiava-se generosamente pela marquise e na rádio passava uma qualquer música dos Trovante (foi há muitos anos atrás). Da cozinha emanava um cheiro quotidiano a estrugido, ervas, limpeza e à avó. Seria certamente perto do meio-dia e ela ainda estava viva. 








