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julho 27, 2019

A marcha de Radetzky


A marcha ainda não acabou, tenho, aliás, uma tendência pueril para enconar quando gosto de alguma coisa, apreciar com deleite, não chegar ao fim. Ainda. Serve para muita coisa. Falar de obra-prima, neste caso, é uma redundância que não trairemos com análises supérfluas. Lê-se de um trago até que a tendência para enconar não nos deixe chegar ao fim. Até à página cento e noventa e cinco, por exemplo, é de um fôlego que se trata, entretanto, algumas descrições levam-nos para estruturas literárias muito próximas das corridas de fundo em atletismo, ou da vertigem dos asmáticos em várias situações nem sempre dignificantes. Já agora, sou asmático. Faltam cerca de cento e oitenta páginas. Com licença:

Naquela época, os costumes eram severos, como se sabe. Mas eles tinham as suas excepções e até as estimavam. Eram daqueles poucos princípios aristocráticos de acordo com os quais os simples cidadãos eram pessoas de segunda classe, mas um ou outro oficial da burguesia tornava-se ajudante-de-campo do Imperador; os judeus não podiam pretender ter  distinções, mas alguns judeus tornavam-se nobres eram amigos de arquiduques; as mulheres viviam segundo os códigos de uma moral tradicional, mas uma ou outra mulher podia amar como um oficial de cavalaria. Eram os princípios que hoje consideramos hipócritas, porque somos muito mais intransigentes; intransigentes, honestos e sem humor.  

julho 21, 2019

O senhor vem mesmo a calhar



O efeito bola de leve na leitura, para mais, conjugado com acasos mais ou menos alucinados, vertigens, espelhos, e por aí fora, não se sabe nunca como poderá acabar, se alguma vez acabar. Ler é estar permanente em contacto com o além, o além nós, algo suficientemente vago para nos levar no seu dorso, para nos fazer vogar mais ou menos sem destino, em todo o caso, estaremos na presença de um mundo ao qual seremos devedores, tanto como criadores.

Foi mais ou menos isso que aconteceu quando lia “Jakob Von Gunten” de Robert Walser: a páginas tantas, setenta e cinco, creio, Jacob divaga com a solenidade de um criador divino, se fosse rico e tal, sairia para o nevoeiro bafado da rua, onde o frio melancólico do inverno combinaria muito bem com as suas moedas de ouro, e tal, caminharia a pé, como sempre, gosto disso, pensando nisto e naquilo, bom, entretanto, encontraria um homem, observando-o com gentileza e percebendo (não se sabe bem como) que a vida lhe corre mal (uma espécie de sexto sentido?), um homem que, supostamente, teria uma dor profunda e que o confronta perguntando-lhe polidamente o que queria ele. Subitamente saberia quem aquele homem era, abriria a carteira, retiraria dez mil francos em notas de mil, quantia que daria a esse homem, continuando a sua viagem. Acrescentando mais à frente: e um dia iria mendigar, e o sol brilharia(...). Isto já na página setenta e seis, mas na anterior, na setenta e cinco, portanto, já o meu cérebro havia feito a ligação para Roth, Joseph Roth, e a sua “Lenda do Santo Bebedor”.


Neste último, logo a início, Andreas, um vagabundo, um bebedor, um autêntico bêbado, tem o maior piço da sua vida ao encontrar um senhor idoso bem vestido, ali junto às pontes sobre o Sena, onde era seu costume passar as noites. Ao senhor bem vestido coubera-lhe em sorte o milagre da conversão e decidira levar a vida entre os pobres. O encontro entre os dois é uma pequena obra-prima dentro da narrativa. Assim por alto:

- Aonde vai irmão? (…)
- Que eu saiba, não tenho nenhum irmão, e não sei aonde me conduz o caminho?
- Tentarei indicar-lhe o caminho (…) mas não fique aborrecido comigo se lhe pedir um favor invulgar.
- Estou preparado para qualquer serviço – respondeu o desamparado.
- Vejo, de facto, que tem alguns defeitos. Mas Deus pô-lo no meu caminho. Certamente precisa de dinheiro, não me leve a mal esta frase! Eu tenho dinheiro a mais. É capaz de me dizer com sinceridade quanto precisa? Pelo menos por agora?
(…)
- Vinte francos.
-  Isso é certamente demasiado pouco – replicou o senhor. O senhor precisa de duzentos.

O restante li de um trago. Outra vez. A lenda continua.


junho 25, 2019

Já marchava


Já na estantina. Eu indeciso. Ups, tenho que ir trabalhar. Já volto com mais indecisões manifestamente exageradas. 

junho 03, 2017

Preferia os corais


E sentia uma saudade indefinida no seu coração. Não teria a coragem de a nomear: Nissen Piczenik, nascido e crescido no interior do continente profundo, ansiava pelo mar.

julho 30, 2015

A lenda do santo bebedor


Repentinamente, achou que uma nota de cinquenta francos era ridícula para um homem de valor e que era absolutamente necessário reflectir sobre si mesmo quando estivesse a beber um copo de «pernod», nem que fosse para se certificar sobre o valor da sua personalidade.