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maio 10, 2020

Isolamento (notas)

(aqui)

Da emergência à calamidade:  O novo CEO do BPI «promete manter o legado deixado pelos seus sucessores.» (daqui). Risinhos. 

Entretanto, diz que o futebol (onde está a massa?) vai voltar. A sério?

Já agora, visite o Museu Virtual do Cartoon (Galeria Anti COVID-19). É à borla.  

maio 09, 2020

Isolamento XXVIII

Computer Says No Little Britain Men's T-shirt | Kidozi.com

Calamidade: desgraça, catástrofe, flagelo, adversidade, o mal? Computer says yes. Rubem Fonseca says no. Ele dizia que cada palavra vive por si própria. Não existiam sinónimos, isso era coisa de gramático. A gramática actual, à falta de corrector ortográfico (esse fiasco cognominado de acordo) vive na matemática, na estatística. Ninguém (por aí além) se questiona: aplicações no telemóvel, certificados de imunidade, câmaras ocultas? Certamente. Praias com torniquetes, drones, raides aéreos? Se necessário. Os velhos por casa, no asilo (existem palavras que se adequam) sine die, restringidos por zonas e horários? É para o bem geral.

Rentes de Carvalho: Assusta-me também a perspetiva de que este ambiente de medo veio para ficar, porque ajuda eficazmente a manter o cidadão assustado, obediente, pronto a denunciar o vizinho que não obedece. o vizinho que não obedece.(…) Em matéria de catástrofes, a minha imaginação tem tendência para disparar, mas em momento nenhum me ocorreu que isto poderia acontecer, como ainda considero incrível o pouco valor que os indivíduos dão à liberdade e o tremendo poder do medo. (Diário de Notícias – 09/05/2020)

maio 01, 2020

Isolamento (XXVI)


Da emergência à calamidade: melhorou?
Infecção financeira na economia (assim, de ouvido): previsão, ou gosto pela roupagem vírica?

Dá-me a honra de uma dança? Uma valsa com a língua portuguesa (para desenfastiar): o pregador não tinha dois dentes na frente e isso, para mim, lhe dava alguma credibilidade. As pessoas sem dentes me comoviam. Além do mais era pálido e parecia hospedar em seu corpo todos os vermes conhecidos e desconhecidos da parasitologia tropical, escreve Rubem Fonseca em “A Grande Arte”. A falta de dois dentes na frente, para efeitos de credibilidade, recordou-me os Gato Fedorento (antes da criminalização do piropo, mesmo com o uso de máscara): aos 2m:11s, por favor.

Henrique Raposo é um conservador de direita, pertencente ao clube de fãs de Scruton, ao menos isso. Começo sempre, se disponível, o Expresso pelo fim. É uma questão de credibilidade, a entrada pelas traseiras. Ainda há pouco lia: Não aceito que você seja tratado como uma criança ou como um escravo. Se estas app que imitam as soluções chinesas não são inconstitucionais, então não sei para que serve a Constituição. Ser livre tem um preço. A liberdade tem um custo. Não podemos querer uma coisa e o seu contrário, não podemos desejar uma liberdade ocidental nos tempos normais e um Estado totalitário chinês quando os tempos apertam. Até porque estas app que surgem no sulco aberto pelo arado da covid-19 são apenas a porta de entrada para uma tentação possibilitada pela tecnologia. Começo a ter uma estranha relação de proximidade com Raposo, potenciada pelas nossas diferenças.

E a língua portuguesa continua: no sulco aberto pelo arado da covid-19, ou descarregado por um outro afluente, surge a inevitável (dizem-nos) questão: qual a primeira coisa que quer fazer (quando voltarmos à normalidade)? Pergunta do Expresso. Resposta de Adolfo Lúxuria Canibal: Estou a dar-me muito bem com o confinamento. É a realização do sonho pré-adolescente de um amor e uma cabana. Já tenho saudades disto, pensando que um dia vai acabar. Foi a desculpa perfeita para ser antissocial sem levantar suspeitas. Ainda há esperança. 

abril 14, 2020

Isolamento (XVII)


Se tem febre e tosse ou garganta dorida, fique em casa: assim começa “O Planeta dos Macacos – A Revolta”. Eu tinha estado a rever “O Planeta do Macacos – A origem”: a ideia era criar um medicamento para o Alzheimer, testado em chimpanzés (a primeira versão do medicamento era inclusive testada no pai do protagonista), criando assim o retrovírus ALZ-113, desembocando a brincadeira na doença da Gripe Símia e numa pandemia mundial de consequências terríveis. O meu cérebro cozinhou ali mesmo uma ou duas teorias da conspiração, infalíveis. Após vinte e sete minutos de filme, observando alguns chimpanzés importantes a cavalo (para quando uma revolta dos cavalos? - digo eu), decido ir ler um pouco e retomar as teorias conspirativas mais tarde, ao sol.

Lá fora o silêncio era total. Sentei-me, na companhia de Arthur Koestler (“O Zero é o Infinito”). Lá fora o silêncio era total, dizia Arthur Koestler. Todo o movimento da prisão estava congelado na escuridão. Fumei um cigarro. Acho que bebi água. Fui dormir.

Não penses, faz: constava de um letreiro pendurado por cima da máquina de escrever de Ray Bradbury. E assim terá sido por mais de setenta anos, fonte fidedigna. Não penses, faz: lê-se na introdução ao livro de contos “Teremos sempre Paris”, de Ray Bradbury. Aconteceu-me hoje de manhã. O Carteiro ainda toca, pelo menos uma vez. E desta vez trouxe boas notícias: “Teremos Sempre Paris”, e “Franny E Zooey”, de J.D. Salinger. Entretanto, fui tomar o pequeno-almoço.

abril 13, 2020

Isolamento (XVI)



(Agora mesmo, na rádio, The Velvet Underground: sunday morning…)

Números, estatísticas: fechados em casa, 14% dos portugueses passaram duas semanas sem sair, lê-se no Público de hoje. É muito papel higiénico.

A pandemia resultou da desterritorialização, é a manifestação extrema da doença tecno-capitalista que há mais de dois séculos se infiltrou nas sociedades humanas, escreve José Gil (Público). Ensaio uma saída de fininho da subjectividade digital.  

Rastreio digital:
Catedral vazia de fiéis mas repleta de cristo (Correio da Manhã)
Costa às compras sem os receios de Marcelo – Vídeo mostra Costa a levar a mão ao nariz (Correio da Manhã)
Soltos pelo vírus (Jornal de Notícias)
(sem comentários)

O bairro é o mundo. O stock de mal-estar não é ilimitado.

A propósito: O presidente Marcelo Rebelo de Sousa já falou com Luís, o enfermeiro de Boris Johnson (Expresso online). A GNR identificou promotores do “beijar da cruz” em Barcelos (Público online). Sem sugestões.

Uma palavra para 2020: confinamento. Em todos os sentidos. Incluindo o gosto.

abril 07, 2020

Isolamento (XII)

Ti accorgerai della gravità dei tuoi sbagli quando troverai chi non le perdona..☢️🔥☢️🔥💀 Máscaras De Gás, Fotos Hilárias, Desenhos Assustadores, Inspiração Para Histórias, Novas Ideias, Segunda Guerra Mundial, Personagens, Estampas, Arte De Máscara De Gás

Ir às compras em grupo. Usar máscara à chuva. Arranjar o cabelo por portas travessas. Observar distância social de dois metros (com ar de atenção redobrada e não fingido nojo), e depois sentar-se com a tal conhecida a uns dez centímetros, não esquecendo de lhe amarrar o braço enquanto tagarela. Usar máscara deixando o nariz de fora (para respirar melhor). Passear à noite enquanto o vírus dorme. Continuar a frequentar alguns estabelecimentos comerciais abertos, para depois indignar-se nas redes sociais. Praticar mini botellón (beber cerveja em copos de papel) à porta da padaria, ou ficar por ali em conversa de café, cavaqueando sobre as paragens da polícia e as últimas estatísticas. (Eis algumas excepções(?) que confirmam a regra)

Esboços, diplomas, ensaios, testes, gráficos, ventiladores em trânsito. Curvas erráticas. Poesia. Retificações. Reuniões ao mais alto nível. Reuniões ao mais baixo nível. Com máscara, dizem uns, sem máscara, dizem outros, no entanto, acrescentam ambos. O Presidente da República fala mais uma vez à nação, a vigésima oitava, e depois vai ao pão. As estatísticas aproximam-nos. Paulo Portas insinua-se de forma irrevogável. Fazem-se contas à vida sem saber para que rua esta se dirige. As redes socais escavam uma saída para a celebridade: vamos ficar todos bem. 

março 31, 2020

Isolamento (notas)


 Hieronymus Bosch - A Morte e o Avarento (1494)

"La pandemia de estos días encaja en el segundo apartado, el de la fragilidad de nuestro cuerpo, pero es evidente que comunica con todos los demás, incluido el apartado último, el que habla de monotonía al vivir, aunque, a decir verdad, cuando se vive como en estos días en un pronunciado riesgo de muerte, ese sentimiento de monotonía puede incluso parecernos ridículo, aunque lo más probable es que sigamos desperdiciando buena parte de nuestra vida en futilidades. ¿La causa de esa propensión a tirar tanto el tiempo y a malgastarlo encima en una gran cantidad de ocupaciones tontas, como, por ejemplo, llevar una bitácora-tostón de nuestro confinamiento? Que seguimos teniendo tendencia a ir viviendo como si tuviéramos que vivir siempre y no dispusiéramos ni de un segundo para acordarnos de que hemos de morir, una realidad que estos días, de todos modos, aflora cada vez con mayor potencia, para sorpresa mayúscula de muchos." (Enrique Vila-Matas, aqui).

"O nosso presente não é o confinamento que a sobrevivência nos impõe, é a abertura para todos os possíveis. É sob o efeito do pânico que o Estado oligárquico é forçado a adoptar medidas que ainda ontem declarava impossíveis. É ao chamamento da vida e da terra a restaurar que queremos responder. A quarentena é boa para a reflexão. O confinamento não abole a presença da rua, reinventa-a. Deixai-me pensar, cum grano salis, que a insurreição da vida quotidiana tem virtudes terapêuticas inesperadas." (Raoul Vaneigem, aqui por aqui)

março 25, 2020

Isolamento (VI)


Reabrir o (seu) país até à Páscoa, é a intenção de Trump. Parece que contrariando os especialistas. Ou qualquer outra forma de inteligência. Entretanto, Bolsonaro já terá aprendido a pôr a máscara, mas recusa-se a admiti-lo. Por aqui e por ali, o menos Estado apregoado por muitos, passa(rá) em breve a mais Estado para todos. (Para todos?) Toda a gente vai estender a mão. Mesmo quem a costuma esconder. A dois metros, ainda assim, não nos sabemos protegidos de mãos escondidas. Passámos de um mundo de peritos e comentadores de futebol e arredores para outro de especialistas em virologia e epidemiologia. Como escreve hoje no Público Miguel Esteves Cardoso: “É muito mau sinal não encontrar notícias novas: é porque não se está a fazer mais nada senão procurá-las”.

março 23, 2020

Isolamento (V)


Agora imaginem estar algum tempo sem televisão, sem whatsapp, sem rádio, melhor: esqueçam o telemóvel por momentos, as redes (sociais ou não, nem sequer frequento), esqueçam. Nada muda? As estatísticas continuam, os gráficos, as curvas… (as curvas já não são em estádios ou em corpos femininos, pois não?), as prescrições por certo também continuam, provavelmente surgirão novas advertências, algumas admoestações, os vossos corpos seguem ansiosos e comunicam-no ao cérebro (não necessariamente por essa ordem), a angústia da espera (não é disso apenas que se trata, eu sei) é um fertilizante de dores desconhecidas. E depois? Por momentos escuta-se um silêncio recortado pelas cantorias dos pássaros (os pássaros sempre lá estiveram, não achais?), passa um carro ou outro, duas ou três pessoas jogam um estranho jogo de distâncias, vestindo roupas a rigor.

A tua janela é uma outra cidade. Como se os deuses estivessem loucos. Como num filme que julgas ter visto. Havia um silêncio assim num conto, algures. A sério?

Toca o telefone. Não o desligaste. Ou alguém te chama. Que sorte não estares sozinho.

março 21, 2020

Isolamento (III)

Resultado de imagem para isolamento social

A linguagem bélica está na ordem do dia. A comparação a cenários de guerra entra-nos pelo sofá: sentados, em casa, assim combatemos. Não se trata apenas de guerra, há muito que as empresas e os empreendedores se refugiaram nesse (suposto) paralelismo entre o mundo militar e os negócios (criando uma novilíngua): formações e equipas, treino, estandartes, disciplina, competição (dinheiro, em suma).Temos também os heróis. Descem do nosso imaginário para o quotidiano (qual quotidiano?). Estão agora por todo o lado. Quase esquecemos: os sem-abrigo, os borrachões patibulares de Bolaño, os drogados, os indigentes, os esquecidos e os isolados de ontem. É-nos familiar o esquecimento de todos os dias. Temos sobretudo medo. Literalmente, daquilo que não vemos. Mas não podemos esquecer que o clã securitário se senta connosco no sofá. É o único Couchsurfing a que assistiremos nos próximos tempos.

O presidente diz: 

Somos? Cheira aqui e ali a mofo, a populismo barato, a bazófia farsola. Quem são os outros? Onde fica a fronteira?
Alguém sabe?

Isolamento (II)


Resultado de imagem para comprar bilhetes

Diz-nos a intuição que fazer grandes planos é burrice. Não ouvimos. Normalmente escutamos aquilo que por aí se denomina de razão. Essa razão é hoje (ou foi… até ontem) um naco travestido de pensamentos entremeados com a gordura do fluxo social, informativo, normativo, profissional e, sobretudo, publicitário ou propagandístico, parece-me. (As redes sociais surgem aqui apenas na sua versão de fluxo, não de informação). Em suma, o consumo é o produto final da razão que o sustenta. Aqui chegados somos bem capazes de observar o nosso mundo sem necessidade de subir às árvores.

março 20, 2020

Isolamento (I)

As ruas estão desertas mas a cidade continua povoada. Menos movimentos pendulares e muita gente em casa, eis a cidade de Braga vista (sonhada?) da janela. Ontem em conversa telefónica um amigo dizia-me, meio a brincar mas muito a sério (pareceu-me), que esta cidade (talvez nem tanto) com menos automóveis, menos ruído, menos poluição, menos gente a correr de um lado para o outro, era a cidade que ambicionávamos. Não era. Não podia ser. O que desejávamos era uma cidade de escala humana (e Braga geograficamente ainda não é uma cidade demasiado grande), onde se pudesse andar a pé, de bicicleta, com bons transportes públicos, melhor urbanismo (bem sei dos erros estruturais do passado), mais parques, menos trânsito. Mais tempo para todos. Sem fundamentalismos.

A primeira fotografia que aqui vos deixo foi tirada a 13 de Fevereiro. Cerca de um mês antes, talvez um pouco mais, tinham-me dito que por ali (eu já digo o sítio e a situação) iria nascer mais um espaço comercial ligado à distribuição (e/ou fast food). Pelo menos mais um. Durante anos a única construção do local era uma barraca de uma qualquer imobiliária, associada a uma suposta urbanização que nunca surgiu, ou a mais uma empresa de construção que desapareceu do mapa. Tudo coisas não documentadas pela Netflix. Estas nesgas de terrenos que restam na cidade, interstícios deixados ao acaso entre prédios, automóveis (sobretudo automóveis) entulho e ervas daninhas, são pequenos nacos à espera de serem devorados e especulados.  

(Braga - 13/02/2020)

Este espaço em construção fica na rua Américo Rodrigues Barbosa, uma rua cuja entrada apenas é permitida a quem desce, isto é, quem venha da Rotunda de Infias, ou da Rua do Regimento da Cavalaria 8, onde sita o Pingo Doce. A situação? Bom, estamos ao largo da caótica rotunda de Infias, vários colégios (D. Diogo é uma dor de cabeça permanente), Liceu Sá de Miranda, vários milhares de pessoas a residir; junto ao nó de Infias, porta de entrada/saída da cidade tanto para Norte, como para Oeste, à rodovia, às autoestradas e vários destinos, ligação à corda comercial da cidade que se estende do espaço comercial Nova Arcada a Norte onde sita o IKEA, passando pelo Braga Parque, e por aí fora, até ao Minho Center, Leroy Merlin, etc. Não vamos perder tempo com as minudências do trânsito, dos estacionamentos, dos atrasos, do stress, nem vamos lembrar a Braga dos dias de chuva, linda, caótica, cinzenta. Importa referir que nos últimos três anos o tempo perdido nesta zona em hora de ponta praticamente triplicou. Eu sou um bom estudo experiencial para aqui chegarmos.

(18/03/2020)

E aqui chegados, pensamos na importância estratégica(?) de mais este espaço comercial, na sua localização (a propósito, a rua Américo Rodrigues Barbosa é um beco sem saída, - o que sairá daqui?), no trânsito resultante, nos estacionamentos. Na nossa vida de todos os dias. As obras continuam (como continuam as operações cosméticas das ruas António Marinho e adjacentes) como se poderá ver na fotografia acima. Mas agora as ruas estão desertas numa cidade povoada de fantasmas. De medo. De solidão e isolamento. E de repente estas coisas todas são vistas sob uma outra perspectiva, à luz de um desejo absurdo de normalidade. Mas não nos deixemos enganar. A normalidade, ainda assim, poderia ser bem diferente. E agora até temos algum tempo para pensar nisso.   


Nota: a desatar o nó de Infias desde 29/04/2019, mas sem mãos. 

março 12, 2020

O livro negro


Estamos sempre a aprender: COVID-19 é nome de doença, não de vírus, o dito chama-se SARS-CoV-2 (parece uma coisa saída do Star Trek ou da Galactica). A (suposta) cura ainda não tem nome mas deverá já ter um preço. Entretanto, as estatísticas abordam o tema com a tranquilidade dos números, pior se nos calha a nós, nenhuma estatística conseguirá iludir o nosso corpo por muito tempo. Não tentem as drogas habituais. Para lançar a confusão vou continuar (para além do Gulag e seus apêndices) o Wolf hall com isto:


mal não fará...