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fevereiro 10, 2020

A greta pandémica


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Ainda recentemente andávamos todos em cortejo com a missão de salvar o mundo: as alterações climáticas, o clima, os incêndios, devidamente explicados em fascículos televisivos, comentadores especialistas, a Greta que nos guiava pela mão. O mundo foi salvo in extremis enquanto o diabo comia um sushi num centro comercial de Braga, que isto é um mundo global. Pouco depois, o mundo, coitado, era açoitado por uma hipotética guerra entre o Irão e os EUA, e mais alguns parceiros de um lado e do outro, que aqui não existe homofobia que nos valha. Como se aquela zona do mundo e arredores não andasse sempre em bolandas. As televisões e as redes sociais ocorreram em força, e mais uma vez o mundo foi salvo in extremis. Bastaria dar um salto a este documentário (passou recentemente no National Geographic) para percebermos como aquele lado do mundo se entretém enquanto nós os salvamos. Cansados de salvamentos, com os dedos e os olhos esfalfados de tanto mirar os ecrãs, chega-nos por fim um alerta pandémico com nome de cerveja mexicana. Ocorremos em massa, não se sabe bem para onde. As máscaras já esgotaram e não eram do Joker. O Joker já passou à história. E assim acontece.

janeiro 25, 2020

janeiro 19, 2020

Livra

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Casamentos por interesse normalmente acabam assim. Rui Tavares, um homem que conhece a história e anda na política há algum tempo deveria sabê-lo. O Livre viu em Joacine uma porta de entrada no eleitorado afro-descendente da cintura urbana de Lisboa. Joacine viu uma porta entreaberta para se passear na política com as suas ideias que ninguém sabe bem quais são. Nem interessa. O Livre  dava assim um toque africano à sua (suposta) matriz eco-libertária-socialista democrática e europeísta (é mais ou menos isto que eles dizem no Expresso). Ninguém se preocupou em discutir o assunto. Depois do foguetório inicial, as comadres foram cada uma para o seu lado, onde, aliás, sempre estiveram. Aposto que vamos ter partido novo. Eco, libertário, democrático, vegan, com raízes africanas, asiáticas e saloias. Nada disto é para se levar a sério.

outubro 20, 2019

Em que rua fica a Catalunha?

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Ouço falar sobre a Catalunha. As pessoas conhecem Barcelona. Já ouviram falar de Barcelona. Até já foram a Barcelona. Estiveram por lá a ver o estádio do Barça, a Sagrada Família, umas casas do Gaudi, passearam nas ramblas, com alguma sorte espreitaram o bairro Gótico e aproveitaram a piscina do Hotel, bom tempo, um hotel muito jeitoso, excelente piscina, sem dúvida. Fizeram centenas de fotos e alguns vídeos. Se lhes perguntarem onde fica Barcelona responderão Espanha. E estão certos. Ouço falar sobre a Catalunha. Penso (por momentos apenas) na Catalunha republicana, o meu cérebro folheia algumas coisas de história, poucas, sobrevoa alguns jornais, as comparações serôdias com Portugal, algumas barricadas do século XIX (risos), a Escócia de Kilt para as fotografias, decisões judiciais que são obstinações políticas, leio sobre o “Tsunami democrati”, uma suposta arma separatista, quando afinal se trata de mais uma app. Vou lanchar. É o que resta da Catalunha: uma sandes de paio e manteiga. Depois talvez alguém se lembre que um estado federado poderia ser um bom princípio de conversa. Afinal, a Catalunha fica em Barcelona. Toda a gente conhece Barcelona. 

outubro 07, 2019

Centrum


É preciso que alguma coisa mude para ficar tudo basicamente na mesma. O partido socialista teve 36,7% dos votos, e o partido social democrata (atendendo apenas à sua sigla, claro) 27,9%. Bom, cento e seis deputados por um lado, e setenta e sete por outro (faltando apurar quatro, penso eu). Tudo somado dá qualquer coisa como cento oitenta e três deputados, faltando os tais quatro. Total do hemiciclo? duzentos e trinta deputados. O que mudou então? Este centro com oscilações nebulosas vai-se revezando no poder desde mil novecentos e setenta e cinco. Caso único nas redondezas, diga-se de passagem. O que mudou então? Algumas cores, uma pintadela de verde aqui, outra ali, as modas do costume chegando no paquete, ou de avião, sempre mais ou menos atrasadas, sempre com a senhora das dores a tiracolo e um bilhete de lotaria, perdão, de raspadinha na mão. É preciso ter sorte. 

maio 27, 2019

Uma democracia assim


Cerca de três milhões e trezentos mil votantes, num universo de mais de dez milhões, destes, mais de duzentos mil votaram em branco ou nulo, mas votaram, faz parte, cerca de sessenta e oito por cento de abstenção, por aí, escrevo de memória, uma gigantesca demissão dos princípios básicos de cidadania. Por aí fora já se discutem sinecuras, vantagens, possibilidades. Lá fora é a Europa: local onde, por acaso, se decidem muitos dos nossos deslumbramentos e tristezas. Por cá desemboca o turismo, onde outrora desembocava a austeridade. Vai dar tudo ao mesmo sítio. Enquanto não tratarmos condignamente a cloaca seremos sempre estrangeiros em terra pátria. 

dezembro 09, 2018

road to nowhere



Continuamos, com gosto evidente, parece-me, a pagar os combustíveis mais caros do mundo deste lado do mundo. Parece que são as taxas. Na minha factura da água (responsabilidade da AGERE em Braga), por exemplo, a grande fatia vai paras taxas e taxinhas, mais de metade serve para animar os cofres da câmara, com coisas lindíssimas relativas a separação de resíduos, animando igualmente os bolsos de alguns gestores semi-analfabetos. A factura da EDP não fica nada atrás, mas sobre a EDP não gosto de falar. Compreendo mal o mandarim e não quero cometer grandes gaffes. Não tarda nada a Universidade do Minho lançará a licenciatura em Taxas e Companhia, para juntar àquelas tipo administração pública, gestão (danosa) e a novíssima Proteção Civil e gestão do território, uma lateralização eufemística do curso de geografia e planeamento que vai perdendo gás e empregabilidade (se é que alguma vez a teve).

Nada disto teria qualquer importância se estivéssemos perto de um coffee shop na Holanda, ou a visitar os locais dos crimes da saga Millennium em Estocolomo, ou apenas a passear na rua Bellmansgatan, mas ficando aqui por Braga a coisa assume alguma relevância, tendo em conta que um ordenado médio andará à volta de 700 euros (com sorte), e algumas das rendas T2 já andam perto disso. Nada que preocupe os seres humanos cá do burgo, desde que possam passar horas no trânsito para chegar a um qualquer centro comercial, está tudo bem. Só se chateiam quando não há estacionamento, podendo bater-se barbaramente por um lugar. Tanto sacrifício para nada, não pode ser. E assim continuamos bem lixados, perdão, taxados.  


Adenda (a capa do Libération de ontem):


maio 08, 2018

O rei vai nu

Ou, só não vê quem não quer: este pensamento tem (fundamentalmente) retroactividade. É só o que me apraz dizer sobre Sócrates (e não me refiro, obviamente, ao filósofo). 

outubro 20, 2017

Que farei quando tudo arde*?


Frequentei Engenharia Florestal no início dos anos noventa do século passado. Já nessa altura tínhamos a época dos incêndios, mas a época preferida era a dos subsídios, que normalmente durava todo o ano, sem qualquer fiscalização. Nunca, como então, existiram tantos projectos imaginários. O dinheiro circulava, mas apenas alguns conseguiam apanhar boleia. Em algumas dessas boleias foram exauridas as verdadeiras hipóteses de uma reforma florestal planeada. Para isso seria necessário pensar o país como um todo. E o país, nessa altura, tinha a forma de uma betoneira.

Na época dos subsídios o eucalipto começava a dar cartas. As monoculturas florestais, eucalipto e pinheiro, caminhavam de mãos dadas com o despovoamento do interior. Não lhe chamem, por favor, desertificação. Vegetamos, é certo, mas ainda não somos uma espécie vegetal. Com o país a sonhos, modernos, construímos auto-estradas, urbanizações desreguladas, feias, cidades esquecidas da sua história e património (isso veio muito depois), e abandonamos, com enfado, a agricultura. Vieram as ligações público-privadas, os aviões, os helicópteros, as comunicações via satélite. Festejávamos (e festejamos) a época dos fogos com foguetes. Afinal, as bouças eram boas como depósitos de lixo, de abandono, e algum sexo à beira das estradas.

Eternas reformas adiadas, ou parcialmente esquecidas, eternos estudos e debates depois, chegamos ao caos de 2017. Ainda existe uma época definida para os incêndios (como é possível?), a denominada fase Charlie, que acompanha a silly season , sem saber que a silly season em Portugal se vem diluindo, alargando as suas fronteiras. Basta ligar a televisão. Parece que tudo falhou. Vem no relatório da comissão independente. Parece que fenómenos climatéricos únicos confluíram em conspiração odiosa. No final, continuámos a falhar. Falhámos cada vez melhor, sei do que falo, sou sportinguista. Só que desta vez morreram muitas pessoas. Demasiadas. Nas ruas, protestos, apenas em frente das televisões. Nem sequer uma onda de indignação, a não ser nas páginas amarelas das redes sociais. Dançam algumas cadeiras. Não tarda voltamos à normalidade dos estudos. 


outubro 15, 2017

A Catalunha, por exemplo


Não me interessa se o ditador é destro, canhoto ou maneta. Sé é pequeno ou se já torceu o pepino várias vezes. Não me interessa se é moderno ou proto clássico. Não me interessa se o ditador é um democrata. Essa t-shirt é vendida na Zara. Ou na H&M, não sei bem. Não gosto de ditadores nem de ditadorzinhos. Sei alguma coisa de mapas para saber que eles são obra humana. O mesmo serve para as fronteiras. Socorrendo-me de Cardoso Pires, sei bem que, como português, quando nasci, deixei logo de ser criança, passei a ter nove séculos. Outros sentirão o mesmo sob outro nome. Talvez não tão envelhecidos. Outros sentirão o mesmo sob outra bandeira. Talvez não saibam que as bandeiras são coisas de homens. Mas se assim tão importante uma bandeira e um país deixem que sejam os homens e as mulheres a decidir isso. Não decidam por eles. 

they live:

modern-day communists...

setembro 10, 2017

leituras



É improvável que “O Capital” seja muito lido em Sunderland ou em Greenwich Village: passámos das simplificações em panfletos para os despropósitos no Twitter. O dilema de Marx subsiste um século depois da revolução bolchevique, dois séculos após o seu nascimento e no limiar da revolução cibernética. De um lado, a fecundidade do capitalismo global na criação de riqueza. Do outro, a forma assustadora como reduz o trabalhador a um fragmento de homem e o arrasta com a mulher e os filhos para debaixo do rolo compressor.

David Reynolds, “O difícil legado de Karl Marx”, in New Statesman – Londres

No meio do marasmo editorial português, valha-nos esta colectânea de textos (de várias fontes) com a cortesia do Courrier Internacional

Pornopopeia (II)


agosto 28, 2017

O nosso mundo é um parque temático


"Aquela que é a fronteira mais militarizada do mundo é um verdadeiro museu a céu aberto para turistas, com observatórios, túneis, memoriais, checkpoints e povoações com importância histórica. Desembolsando um pouco mais [de dólares], há a possibilidade de alguns tours serem feitos na companhia de um desertor norte-coreano."
"Sonho distante", artigo sobre a península coreana,  in jornal Expresso (26-08-17)

Por um punhado de dólares, temos assim acesso a um parque temático, não fosse aqui a simulação, uma manobra, uma ficção,  em muito ultrapassada pela realidade dos factos. Uma península dividida há setenta anos. O mundo à beira de um ataque de nervos, com as sucessivas ameaças nucleares da Coreia do Norte, devidamente inflamadas pelo lança chamas Trump. É um cocktail digno do nosso disney world, não fosse a chatice de uma ou outra bomba poderem rebentar mesmo. Queremos estar lá para ver?