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outubro 08, 2019

Nada disto importa



Ligo a televisão. À esquerda de nenhuma direita: falam os entendidos. Quase sempre os mesmos. À direita de esquerda nenhuma: ruminam outros. Quase sempre os mesmos. A sul de nenhum Norte, fico eu e Charles Bukowski. Ando arreliado. Começo livros e rapidamente os deixo num pousio ensurdecedor. Recomeço livros. Vou ali à música. Trabalho como quem transporta um bloco de granito deitado numa nuvem. Às vezes vou correr. Outras vezes não. Pensei em começar um conto em que parte do cérebro de um homem se revolta contra a outra parte, supostamente muito maior. Mas achei a coisa demasiado autobiográfica. Acho que vou beber uma cerveja. Até já.  

setembro 12, 2018

Vai ser imperdível, mas o quê?


Na minha primeira posta de pescada cozida com todos, não posso deixar de assinalar a inutilidade da (deixem passar - sou muito repetitivo) minha presença neste sítio que é mais um lugar (um lugar é um sítio com sentido de presença), o Gabriel poderá eventualmente explicar melhor a coisa, se lhe der para aí, entretanto, já nem me lembro o que me trouxe aqui, quer dizer, a este posta de pescada com todos, mas nem assim desisto, embora a insistência em frases longas que se transformam em parágrafos ilegíveis seja, por assim dizer, a minha imagem de marca, umbiguismos (não é Gabriel?) à parte. Para além disso, e já não é pouco, gostei da frase que fecha a posta anterior (do Gabriel que assinala a vertigem de uma nova vida do Inútil sem anjos), que diz mais ou menos isto (copiado): Ainda subsiste alguma vida inteligente no planeta. Mas não existem provas irrefutáveis disso. Não seria necessário escrever mais nada nos próximos vinte e dois anos, mas nós (olhem o plural) insistimos.

Ia começar com uma crítica inócua a livros, não confundir com crítica literária, trespassada por uma viagem muito concreta e precisa (deixem passar) a um filme que vi recentemente, filme esse que apenas consegui ver em duas partes, uma num dia, outra, noutro dia, seguidos, os dias e as partes, tarefa absolutamente arrasadora ora em termos físicos, ora mentais, para não dizer cognitivos. Andei todo o dia a braços com esta posta de pescada com todos, mais o livro, mais a o filme, não tenho mãos a medir na desmesura rotineira daquilo a que o comum dos mortais chama de dias. E gosto. A sério. Vou voltar.

março 10, 2018

Mergulho lento



Ontem fui com um amigo ao Hard Clube ver os Slowdive. Não sou verdadeiramente um fã, mas gosto de os ouvir quando calha. Nem sempre calha. Deu para (tentar) sacudir as últimas semanas de trabalho. Deu para beber um copo, para conversar e apanhar uma molha. A zona à volta do Hard está cada vez (como é que se diz agora?) trendy. Restaurantes e cenas gourmet mais ou menos copiadas de todo o lado onde existem cenas gourmet ou trendy. Difícil é encontrar um tasco para beber uma cerveja a preços que os indígenas possam pagar. Mas anda muita gente na rua a treinar o inglês, lá isso anda. Ainda bem. E ainda bem que apesar do alerta laranja o rio não lhe deu para saltar as margens. Seria  um mergulho lento com um final muito trendy.

janeiro 24, 2018

E assim acontece


Tem dias. Mais coisa menos coisa, casa trabalho, comer, beber, às vezes lá calha; trabalho casa, comer beber, às vezes lá calha. Dos arquivos recentes consta uma única intoxicação etílica e alguns prazeres avulsos. Destes, destaque para a série Gomorra (2ª e 3ª temporadas), devorada com a placidez de um felino durante o último mês e meio. Cortesia da RTP2, sem espaço nos canais (americanos) de cabo, foi-se consumindo diariamente (para nosso deleite) sem deixar grande rasto (o que abona em seu favor) à sua passagem. Apenas recentemente no programa da Antena 3 Bons Rapazes ouvi alguma referência à série, na palavra de Álvaro Costa (quem mais?), qualificando-a como imperdível, bem temperada com violência sem paliativos e boa música, claro. Parece que os Massive Attack  andam atentos ao Hip Hop que se faz em Nápoles. Depois do livro, do filme, e da 1ª temporada (passou na Rtp2 em 2017), aguarda-se uma 4ª, para saber se o Ciro se fica, mortinho da silva, no fundo do mar. Confio no Sangue Azul.

Entretanto, após desenfastiar um pouco com o Sinal dos Quatro do Conan Doyle, voltei às lides e a Mathias Enard. Tinha ficado maravilhado com o seu “Zona”, uma viagem de comboio, com história, geografia, literatura, mescla de ficção e realidade histórica, verdadeiramente genial e apetitoso. Foi devorado com a dignidade possível. Reza a lenda urbana (quem o diz é um amigo livreiro), que eu ajudei e, muito, a catapultar as vendas do livro aqui por Braga. Avancei para o “Fala-lhe de Batalhas de Reis e de Elefantes”, lido com prazer, desaguando agora no seu “Bússola”.

Sabemos que o Sr. Mathias é um profundo conhecedor do Oriente, designadamente do Médio Oriente, fazendo aqui uma ponte histórico, literária, musical, entre Ocidente/Oriente, talvez mais entre a Mitteleuropa e esse Oriente (quantas vezes já escrevi oriente? – deixem passar) para nós tão proximamente desconhecido. Quer-me parecer que enquanto em “Zona” a narrativa se estende livremente, surgindo a erudição do autor como sustentáculo do romance, pelo contrário, “Bússola” parece escrito como sustentáculo, melhor, como justificação, da erudição do autor. Mas ainda vou a meio da ponte, claro.



 E agora vou mas é ver o Sporting ali à pedreira…

outubro 21, 2017

resumo da semana

(…)
é preciso trabalhar, se não por gosto, ao menos por desespero, porquanto, bem vistas as coisas, trabalhar é menos aborrecido do que divertir-se.

Baudelaire, "O meu coração a nu"

março 26, 2014

Come up and see me



Isto, que não é pouco, andou por aí, e eu devo ter ido trabalhar, ou quase. De qualquer maneira...longe, para não variar.

outubro 06, 2013

Por falar nisso


Já não digo correr, continuar a andar, com ou sem patrocínio. A próxima dirá: I'm still here, you bastards. 

agosto 29, 2012

Joga o Vila-Matas e se calhar o Renard


Eu cá cheguei ao Jules Renard através de uma desmarcação do Vila-Matas no Diário Volúvel. O Jules (até) estava cá em casa, ali no cantinho esquerdo das estantes, na decrépita secção poesia e arredores. Daí eu ignorava isto:
«O meu não come ratos, não gosta. Se apanha algum, é para [brincar com ele.
Quando brincou tudo, poupa-lhe a vida, e vai sonhar noutra parte,
[o inocente, sentado no caracol do seu rabo, a cabeça fechada [como um punho.
Mas, por causa das garras, o rato morreu.»
É “o gato” das Histórias Naturais*, um gato como este cá de casa, que gosta de sonhar longe quando não está por perto, e que brinca aos ratos com ratos verdadeiros. E se eles morrem já se sabe.
Poucas traduções portuguesas se encontram de Renard, parece. Em francês é fácil de encontrar, mas menos de ler. Entre outros, um dos passes de Vila-Matas, trazia esta frase de Renard: «Quando a preguiça te faz sentir infeliz, vale tanto como o trabalho». Tu queres ver…

 *in “poesia do século XX”, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena. Asa.

julho 25, 2012

Que se lixem


Os dias deveriam ter um índice, algo que nos permitisse saltar de página em página, ou então os dias, estes dias, deveriam regredir em direcção a épocas passadas, a épocas onde o ócio e, mais tarde, o tédio, eram exaltados como uma das belas-artes, apenas interrompidos pelas guerras, logo subjugadas pelo espírito e pela luxúria. Resta-nos, a espaços, a leitura, e alguns repastos dignos de pendões imperiais, mas mesmo estes nem sempre acodem para nos remediar as horas, e da televisão fungam constantes exemplos sobre a cozinha como entretenimento efémero sem que daí advenha grande proveito e ainda menos barriga. Não tarda vou-me a uma sopa…

desenho do Angeli: Bob cuspe

julho 13, 2012

Lubrificante de memórias: limpezas


Nesse local onde as palavras se sentam
no momento em que o coração acaricia a pálpebra
Silêncio
Sabemos não pertencer ao mundo
E o nada é tudo
Definitivamente
A eternidade de nada

in "Orfanato Efémero", Gustavo K. (daquela cena do pimpampum, cada poema mata um de Barcelos)

imagem perdida na net

junho 16, 2012

Na padaria o silêncio nunca foi de ouro

Nem o silêncio nem o colar da Miquinhas. E pelos vistos, nem os anéis do Sr. Silva. A Custódia antes de estar entrevadinha, costumava pavonear-se (verbalmente claro), que era só querer, só querer, e faria uma vista, oh se faria, na procissão da Senhora da Agonia, que ouro era coisa que não lhe faltava. Na padaria, em permanência, ficou apenas uma tristeza miudinha e o Mendes a falar da sua época. O Tabuletas, faz tempo, não pede “fogos”, e um cortejo de gajos novos, ronda, cheira-lhes a Martini, pedem fiado. Envergonham-se.

Ali perto, o café do Zé passa-se, vende-se ou, em último caso, atira-se juntamente com uma vida, pela borda fora. À sua frente, o café do burro, aguenta, tem tempo, sucursais. “Até ver”, repete-nos a se Lurdes, “até ver”. Adiante, não muito, no das putas, ficaram alguns alegretes, avulso, a consultar os classificados que os levariam ao paraíso da alcova, houvesse dinheiro. Foram-se as putas, ficaram as torres, vazias, escuras, como estranhos insectos erguidos para o céu. Taipam-se os últimos negócios, que se faz tarde. E os restos passeiam-se pelo centro comercial, a nova praça das nossas dores. Ninguém protesta. É a vidinha.

Mas à noite custa mais. É que por aqui o silêncio nunca foi de ouro.

maio 27, 2012

Adeuses ao bacalhau

anjoinútil produções

Sábado à noite. Um repasto digno dos deuses, isto atendendo que Vénus, na pena de Camões, nos augurava herdeiros dos romanos, calhando, dignos até dos seus deuses, não se percebendo a divergência de Baco, um dos nossos predilectos, afinal. E entretanto um verdadeiro bacalhau com natas, acompanhado por salada, azeitonas (das viçosas, pequeninas e ainda com raminho) e picles (para cortar), não esquecendo a broa de milho, a preceito. Perfeito. Terá cozinhado Vénus?