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abril 13, 2018

Terra de ninguém


(detalhe de "Sonho de uma tarde dominical
na Alameda Central" - mural de Diego Rivera)

Sobre cidades moribundas, homogeneização e gentrificação dos centros históricos, sua museificação a olhos vistos; sobre a parque tematização dos espaços históricos, enjaulados num cenário que os recria em segunda mão, já muito disse e escrevi, disso tentei (ingenuamente) fazer vida, ou quase, não fosse a graça da má sorte, desvarios vários, algumas caminhadas, e ainda por lá andaria. Livros, alguns com décadas, anunciam a boa nova, por exemplo: “Simulacros e Simulação” de Baudrillard, ou “O Direito à Cidade” de Lefebvre, que hoje António Guerreiro também refere num artigo publicado no ÍPSILON (jornal Público), denominado "A morte da cidade". Artigos, estudos, papeladas, a rodos. A Academia debruça-se sobre o assunto entre dois coffee breaks.

Sobre a (digamos assim) temática, aqui deixo dois textos (mansinhos) do Público de hoje. O já citado:

Agora vou ali dar para outro peditório.

março 10, 2018

Mergulho lento



Ontem fui com um amigo ao Hard Clube ver os Slowdive. Não sou verdadeiramente um fã, mas gosto de os ouvir quando calha. Nem sempre calha. Deu para (tentar) sacudir as últimas semanas de trabalho. Deu para beber um copo, para conversar e apanhar uma molha. A zona à volta do Hard está cada vez (como é que se diz agora?) trendy. Restaurantes e cenas gourmet mais ou menos copiadas de todo o lado onde existem cenas gourmet ou trendy. Difícil é encontrar um tasco para beber uma cerveja a preços que os indígenas possam pagar. Mas anda muita gente na rua a treinar o inglês, lá isso anda. Ainda bem. E ainda bem que apesar do alerta laranja o rio não lhe deu para saltar as margens. Seria  um mergulho lento com um final muito trendy.

fevereiro 26, 2018

Pinhel, perto de si

(Pinhel, ameias voltadas a Oeste)

Nascido minhoto, de Barcelos, habituado a gente, muita água e a cantar de galo, dos livros e viagens conhecedor do país, com vivências longas em Coimbra e Braga (entre outras menos significativas mas igualmente marcantes), há já alguns anos que aporto em Pinhel, duas a três vezes por ano, mais, se o tempo e a disposição de quem me recebe, o permite.

Nada disto interessa. Ou interessa(rá) apenas a uns quantos. O turista acidental, o passeante cultural, mesmo o estudioso da história, ou a da pré-história (a propósito, no museu do Côa, alguns quilómetros a este, não nos cruzamos com mais ninguém, não contando com os funcionários em pleno tédio vegetativo), estando por ali de passagem, observa com olhos de trazer por casa, a sua casa, não poupando panegíricos às paisagens, ao sossego, escrevendo (mentalmente, claro) odes aos calhaus dos castelos (é assim que se chama a zona histórica de Pinhel), isto enquanto procura um restaurante (onde se coma bem), fotografando-se  as milhares de vezes que forem necessárias. Caso raro, conhece, ou troca, uma ou duas impressões com os indígenas. Às vezes o adiantado da hora apanha-o longe de mesa e cama lavada, mas sempre perto da hospitalidade de um prato de sopa e pão com chouriço. O bastante para descomprimir, dirá mais tarde.

Ora, o turista, o passeante, o estudioso, se olhasse para além do sossego, das ruas desertas, do caldo de pedra que a natureza serve aos olhares, veria, ou julgaria ver, a história, ou as estórias, de uma região que, não obra do acaso é parte do país chamado Portugal, servindo-lhe, durante muitos anos, de tampão, coisa que se pode comprovar de qualquer ameia que encontre por perto, ou escutando o vento leste, aquele que vem de Espanha. Embora o gasóleo seja lá muito mais barato. E se por qualquer desvario continuassem a olhar, encontrariam, pouca, ou nenhuma, publicidade à miséria, mesmo aquela devidamente embalada em produto cultural, e um ou outro evento, nada original, daqueles que já não chegam em paquetes, mas na camioneta da carreira. E nem sequer há neve que se veja.

A história mais recente do Concelho de Pinhel, distrito da Guarda, é a história de uma sangria. Hemorrágica, nas décadas de sessenta/setenta do século passado, com consequências que perduram e são conhecidas, ou deveriam sê-lo. Europa (sobretudo), África (colónias) e América foram os destinos. Ficaram os campos desertos, a floresta abandonada, e alguns indefectíveis. As razões da partida? Ainda não se conhecia a palavra economia, e a vida continuou.

Continuou, até que os filhos dos que ficaram foram estudar para fora cá dentro. E ficaram do lado de fora cá dentro, nunca se sabe, com esta coisa do local global. A malta encontra-se nas festas, sejam estas familiares, populares, ou todas as outras que chegam na camioneta. Assim como chegam, partem. Ficam os indefectíveis e alguns planos discutidos entre copos. Outros voltam para ficar, mas são tão poucos que não chegam para jogar uma partida de sueca.

Vierem as estradas, outras sofreram melhoramentos. É mais rápido chegar, muito mais fácil será partir. Por decreto, ou coisa parecida, devidamente subsidiada, chegaram algumas unidades industrias. A principal destas, a Rhode, desapareceu em 2006. Ficaram 370 pessoas a acenar na sua partida. O antigo espaço da Rhode (Rhode que merecia uma história à parte), passou a chamar-se pomposamente de Centro logístico de Pinhel. Alberga, dizem-nos, umas pequenas unidades de calçado, e agora também umas empresas de aeronáutica (a sério) francesas. Tudo somado é muito pouco. Os decretos continuam a acenar as suas possibilidades políticas.

Agora que a palavra economia é conhecida e adquire vários sentidos, muitos destes em língua inglesa, percebe-se que o tecido económico do concelho é, na verdade, uma manta de retalhos (apenas visível de vista aérea – daí, se calhar, as empresas aeronáuticas), cozida pelo município. A câmara é o grande empregador directo e indirecto. Tudo acaba por desaguar ali. Nas festas, o panegírico ao status quo assume contornos de síndrome psicológico. As autoridades passeiam-se com uma legitimidade apenas possível num sucedâneo da democracia. É tudo em ponto pequeno – até a vergonha –  o bastante para percebemos o irremediável desta modernidade de pacotilha. Nada disto terá aqui origem demarcada. E a vida continua. 

Nota: parece que agora a nova aposta será a criação de falcões (Pinhel é a Cidade Falcão), certamente para vigiarem a manta de retalhos. Os pombos que se cuidem. A vida continuará, certamente.

fevereiro 18, 2018

Viagens na minha terra (resumo da última semana)

(Pinhel)
(Figueira Castelo Rodrigo)
(Castelo Melhor)
(Museu do Côa - Vila Nova de Foz Côa)
(Museu do Côa)
(Mêda)
 (Ciudad Rodrigo - Espanha)

PS: Viagens na minha terra inclui, assumidamente, uma parcela de Castela e Leão. Vinte quilómetros mais concretamente. Só para chatear. Em breve, um pequeno ensaio sobre Pinhel, o planalto Beirão, a palavra despovoamento que rima com esquecimento. 

janeiro 30, 2018

Um mosquito no inverno


Estava para ali a fazer umas limpezas e a pensar na morte da bezerra, decidindo-me por meter um CD dos Jesus And Mary Chain,  “Barbed Wire Kisses” (um B-sides and more), comprado sabe lá onde Judas perdeu as botas, há muito tempo atrás (é verdade), quando nisto passa o “psycho candy”.


Eu que bebia copos de absinto (desculpa lá Cesário), perdão, eu que estava a pensar em escrever qualquer coisa sobre os Jesus, a importância do seu primeiro álbum, intitulado Psycocandy (1985), do qual não faz parte o tema psycho candy, quer dizer, ia escrever sobre aqueles anos oitenta, a Escócia, East Kilbride, a sua cidade de origem, uma das New Tows criadas no final dos anos quarenta, fazendo parte da grande conurbação urbana de Glasgow, patatipatá, aquela coisa da transição pós-industrial (ainda devedora da revolução industrial), sabemos que os irmão Reid trabalharam numa fábrica, entre cervejas, e a sua importância na música destes.

Pensava em tudo isso que iria escrever, quando de repente (passava a música), comecei a sentir a ascensão irremediável das lavas do subconsciente, não a ascensão irremediável das lavas do sobreconsciente (isso, sabemos, leva à loucura), de que nos fala Vila-Matas logo no início da sua “História Abreviada da Literatura Portátil”, não, era o subconsciente a fazer das suas, juntamente com a memória mais recôndita, e dei por mim a dançar, o sol entrava todo por ali dentro e eu dançava. Foi então que um mosquito me deve ter entrado no olho, humedecendo-o ligeiramente. Mosquitos em Janeiro? – pensei. Isto anda tudo tolo. E fui ouvir o “sidewalking” que já estava a passar no tijolo da cozinha.  

outubro 15, 2017

A Catalunha, por exemplo


Não me interessa se o ditador é destro, canhoto ou maneta. Sé é pequeno ou se já torceu o pepino várias vezes. Não me interessa se é moderno ou proto clássico. Não me interessa se o ditador é um democrata. Essa t-shirt é vendida na Zara. Ou na H&M, não sei bem. Não gosto de ditadores nem de ditadorzinhos. Sei alguma coisa de mapas para saber que eles são obra humana. O mesmo serve para as fronteiras. Socorrendo-me de Cardoso Pires, sei bem que, como português, quando nasci, deixei logo de ser criança, passei a ter nove séculos. Outros sentirão o mesmo sob outro nome. Talvez não tão envelhecidos. Outros sentirão o mesmo sob outra bandeira. Talvez não saibam que as bandeiras são coisas de homens. Mas se assim tão importante uma bandeira e um país deixem que sejam os homens e as mulheres a decidir isso. Não decidam por eles. 

agosto 28, 2017

O nosso mundo é um parque temático


"Aquela que é a fronteira mais militarizada do mundo é um verdadeiro museu a céu aberto para turistas, com observatórios, túneis, memoriais, checkpoints e povoações com importância histórica. Desembolsando um pouco mais [de dólares], há a possibilidade de alguns tours serem feitos na companhia de um desertor norte-coreano."
"Sonho distante", artigo sobre a península coreana,  in jornal Expresso (26-08-17)

Por um punhado de dólares, temos assim acesso a um parque temático, não fosse aqui a simulação, uma manobra, uma ficção,  em muito ultrapassada pela realidade dos factos. Uma península dividida há setenta anos. O mundo à beira de um ataque de nervos, com as sucessivas ameaças nucleares da Coreia do Norte, devidamente inflamadas pelo lança chamas Trump. É um cocktail digno do nosso disney world, não fosse a chatice de uma ou outra bomba poderem rebentar mesmo. Queremos estar lá para ver?


junho 19, 2017

E agora?


Não há rigorosamente nada de novo a dizer. Já tudo foi estudado, explicado e escrito na última década e meia. Houve comissões para todos os gostos e feitios. E foi feito muito trabalho sério. Faltou tudo o resto. Faltou pôr a tratar de incêndios florestais quem percebe de floresta. Faltou integrar prevenção e combate. Faltou ordenamento. Faltou pensar no longo prazo. E adiou-se o mesmo de sempre: fazer da floresta uma prioridade, fazer de um terço do território nacional uma prioridade.

Houve, ninguém nega, uma conjugação extraordinária de factores adversos, como já tinha acontecido em 2003: ao ar seco e temperaturas altas juntaram-se as trovoadas secas e o vento forte numa tragédia de dimensões inéditas no país que provocou pelo menos 61 mortos e 62 feridos, alguns em estado grave, no concelho de Pedrógão Grande.


novembro 04, 2016

flanância


Seja como for, o mapa de Paris ajudou-me mais do que uma vez a passar algumas horas difíceis e, ter-lhe descoberto a semelhança (...) com o cérebro humano, esforcei-me por colocar dentro dos limites desta cidade todas as circunvalações observadas em tempos. 

julho 17, 2016

Marx de cabeçeira



O grande problema, sublinha, é que “há uma insanidade nas novas formas de urbanização”, não só pela escala como pelo facto de as cidades ficarem cheias de casas vazias que são compradas sobretudo para fins de especulação e não para habitação. “Hoje, grande parte do capital está a concentrar-se no imobiliário e nas rendas." E, avisa Harvey, a agitação social começa a surgir cada vez mais ligada às questões da vida quotidiana nas cidades – como aconteceu no Brasil com os protestos que rebentaram em 2014, em parte por causa dos transportes públicos.

O Geógrafo David Harvey esteve recentemente em Portugal como orador convidado na conferência de abertura do IX Congresso Português de Sociologia, que decorreu na Universidade do Algarve. A não perder uma entrevista sua ao jornal Público: Aqui.