Mostrando postagens com marcador filmes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filmes. Mostrar todas as postagens

abril 23, 2020

Isolamento (XXIV)

Teremos sempre Paris

Gosto dos títulos de alguns livros de Ray Bradbury: “A morte é um acto solitário”; “Teremos sempre Paris”; “Um cemitério para Lunáticos”; “Fahrenheit 451”. “Fahrenheit 451” e “A morte é um acto solitário” são imprescindíveis ao atravessamento do mundo de uma forma minimamente diligente. Teremos sempre Paris, We'll always have Paris é uma deixa inesquecível de Casablanca, embora subalterna a Play it again, Sam, esta última, segundo parece, nunca dita, pelo menos dessa forma. Apesar disso, acabou num filme escrito e protagonizado por Woody Allen, embora realizado por Herbert Ross. A vida tem dessas coisas. Teremos sempre Paris, de Bradbury, na edição portuguesa da Bizâncio, apresenta-se, legitimemente, como uma das piores capas atribuídas numa edição em língua portuguesa a um escritor que se consiga ler sem vomitar. Aquela imagem do velhinho em pano de fundo, as cores escolhidas, o tipo de letra, tudo contribui para estarmos perante uma obra ligada ao oculto sensaborão, induzindo em erro os menos atentos. No conto Massinello Pietro, Bradbury escreve: Olhou à sua volta, o mundo estava cheio de estátuas, como ele outrora tinha sido. Havia tantas pessoas que já não conseguiam mexer-se, nem sequer sabiam como haviam de começar a andar outra vez para qualquer lado, para trás, para a frente, para cima, para baixo, porque a vida os tinha picado e aturdido e batido até ficarem num silêncio de mármore. Bradbury, escritor (também) de ficção cientifica, perceberia hoje que a realidade ultrapassa e, muito, a ficção.  Acho que ele sabia disso...

abril 16, 2020

Isolamento (XIX)



A rádio terá os seus seguidores, mas de pouco nos vale quando se torna de companhia. Mais das vezes a companhia é ruído, alegre adormecer, enchentes de alma, visitas às redes. Arrisco e ouço, com algum pasmo, a Antena 3 e a RUM (rádio universitária do Minho). A primeira é pouco mais do mesmo, e alguns programas de autor. A segunda quer ser do mesmo, tornar-se gente séria. E alguns programas de autor. Sintonizo-me, deixa lá ver.

Através da tevê vou conhecendo William Wisting da série policial norueguesa “Wisting”, baseada nos acontecimentos de dois livros de Jørn Lier Horst: “O Homem das Cavernas” e “Cães de Caça”. Fica para os lados do AMC e tem a sua pinta. Na RTP2 passa a série “Derrubados” (Taken Down, no original). Artur Albarran diria que é o drama, o horror, a exploração dos refugiados que, chegados à Europa, respiram o ar saudável da escravidão. E teria razão. Embora a série se perca em alguns maneios próximos da xaropada, o que nos obriga a considerar outras opções, como a Segurança Nacional, ou mesmo os Mortos Vivos (temporada 25). A propósito, o aclamado (e logo esquecido) “Narcos” vale pelo primeiro episódio. Aquela voz off a dar-nos conta do enquadramento histórico torna a série balofa como a barriga do Escobar brasileiro, estorvada pelo aroma (imposto) a documentário: plata o plomo?

Agradáveis surpresas, ainda que a prestações: "Breakfast at Tiffany's", uma comédia romântica, saída da pena de Truman Capote e adaptada ao cinema por Blake Edwards, com Audrey Hepburne e (consta que) outros actores; e “Silêncio”- filme sonhado e realizado por Martin Scorsese, sobre as missões (doutrinais) dos Jesuítas portugueses no Japão, com resultados que nos devem deixar orgulhosos (a apostasia é um tema que fica para depois). O presidente Marcelo certamente terá ligado a Scorcese, felicitando-o pela ideia e pelo filme e, quem sabe, pelo português perfeito dos actores, entre os quais, o sr. Liam Neeson, isto é, Cristóvão Ferreira, meia hora de representação, se tanto, com direito a figura de capa. Os outros actores (que por acaso aparecem durante parte significativa do filme) são Andrew Garfield (Sebastião Rodrigues), e aquele tipo que era condutor de autocarros e poeta no filme de Jarmusch “Paterson” (um filme que deu que falar na minha cabecinha), chamado Adam Driver, ou Francisco Garupe, missionário que morre afogado. E assim acontece. Agora vou ali ver a chuva cair. 

abril 14, 2020

Isolamento (XVII)


Se tem febre e tosse ou garganta dorida, fique em casa: assim começa “O Planeta dos Macacos – A Revolta”. Eu tinha estado a rever “O Planeta do Macacos – A origem”: a ideia era criar um medicamento para o Alzheimer, testado em chimpanzés (a primeira versão do medicamento era inclusive testada no pai do protagonista), criando assim o retrovírus ALZ-113, desembocando a brincadeira na doença da Gripe Símia e numa pandemia mundial de consequências terríveis. O meu cérebro cozinhou ali mesmo uma ou duas teorias da conspiração, infalíveis. Após vinte e sete minutos de filme, observando alguns chimpanzés importantes a cavalo (para quando uma revolta dos cavalos? - digo eu), decido ir ler um pouco e retomar as teorias conspirativas mais tarde, ao sol.

Lá fora o silêncio era total. Sentei-me, na companhia de Arthur Koestler (“O Zero é o Infinito”). Lá fora o silêncio era total, dizia Arthur Koestler. Todo o movimento da prisão estava congelado na escuridão. Fumei um cigarro. Acho que bebi água. Fui dormir.

Não penses, faz: constava de um letreiro pendurado por cima da máquina de escrever de Ray Bradbury. E assim terá sido por mais de setenta anos, fonte fidedigna. Não penses, faz: lê-se na introdução ao livro de contos “Teremos sempre Paris”, de Ray Bradbury. Aconteceu-me hoje de manhã. O Carteiro ainda toca, pelo menos uma vez. E desta vez trouxe boas notícias: “Teremos Sempre Paris”, e “Franny E Zooey”, de J.D. Salinger. Entretanto, fui tomar o pequeno-almoço.

março 22, 2020

Isolamento (IV)



Tudo neste livro está em avançado estado de decomposição. Tudo menos a memória. O corpo debate-se, não é bem um corpo, é uma forma vaga de espaço anatómico, algo que habita o pré-pensamento. O “Arquipélado Gulag” de Aleksandr Soljenítsin é um conjunto de fragmentos, vivências, histórias com pessoas (dir-se-ia que sim) lá dentro, quase sempre lá dentro: detenções, processos, prisões, campos, timoneiros, siglas, números. Sem lugar na “História universal da infâmia” de Borges, por manifesta incapacidade imaginativa do autor. Sem lugar no mundo. Apenas no fim do mundo. Com licença: Não, nós somos pó! Estamos sujeitos às leis da poeira. E nenhuma medida do nosso sofrimento é bastante para nos fazer sentir para sempre a dor geral. Espera aí, tenho que respirar, estou a chegar ao fim, falta-me apenas o prefácio. A edição é da Sextante Editora, tradução directamente do russo de António Pescada. Incompleta relativamente ao original, diz-se.

Tinha que desopilar e segui para o século XVI: Ele, Thomas Cromwell, é um bom pretexto. Seguimo-lo em Wolf Hall, caminhamos agora a seu lado em “O Livro Negro”. “Falcões. Wiltshire, setembro de 1535”, escreve à partida Hilary Mantel. Resolvemos a questão não a levantando. E seguimos viagem (página 253 neste preciso momento).

Um fartote de tempo. Banda sonora: álbuns dos The Cure (“Faith” e mais alguns antigos a dar com a chuva). “Virus meadow” (não foi propositado), dos And also the trees. The Felt (qual?). Uma pen antiga a rolar: vários. ANTENA 3, RUM. Acasos. Jornais no ecrã. Ao que nós chegamos. 

E filmes? Filmes ou cinema? Como assim?
Foi um prazer revisitar “Blade Runner” de Ridley Scott. Rever Rutger Hauer, por exemplo: I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Mais chuva. Lágrimas. Coisas nunca vistas. Tive que sair dali a correr, mas só depois de acabar o filme. E depois? “Promessas Perigosas”, ou melhor, “Eastern Promises”, de David Cronenberg. Mais chuva. Máfia russa – a sério? Um filme que nos ensina a não brincar às tatuagens e andar por aí a mostrá-las em banhos públicos. O poder dos símbolos é tramado. E por fim (outros não chegaram a secar no meu cérebro), o mais surpreendente: “Split” (Fragmentado, até lhe fica bem) daquele gajo de A Vila e do Sexto Sentido, M. Night Shyamalan, com um James McAvoy em grande, e não é o único. Diz que é um psychological horror thriller film, mas talvez seja um pouco mais de que isso. No fim, e após apurada pesquisa durante o sono, ficamos a saber que (supostamente) faz parte de uma trilogia. Apenas vi o Fragmentado.  
Agora vou lanchar e depois quem sabe tirar um Tarkovski do armário. 

novembro 23, 2018

Truques de glória


Estou há mais de dois meses para escrever algo sobre o “Paterson”, um filme de Jim Jarmusch, mas por razões alheias à minha vontade, razões essas absolutamente indetermináveis, pelo menos até à hora em que escrevo estas linhas, tal não foi possível, ainda tentei contactar o escriba, isto é, eu próprio, mas tal não foi também, de todo, possível. Fica para outro dia. O personagem principal deste filme chama-se Paterson, e a cidade onde a acção se passa também se chama Paterson, razões mais que suficientes para o filme se chamar Paterson. Paterson é uma espécie de poeta condutor de autocarros. A sua vida é um rame-rame que apenas nos chama atenção pelo facto de escrever poesia. Se fosse um rádio amor condutor de autocarros seria muito mais difícil a sua recepção em Cannes. A mulher de Paterson é uma idiota com a mania de ser artista, o que é muito comum nos dias de hoje, tanto uma coisa como a outra. O Jarmusch sabe bem isso, é um diletante, gosta do Paterson na medida em que este não tem telemóvel, escreve poesia e, às vezes, lá bebe um copo quando vai passear o cão ou levar o lixo, já não sei, mas fico com sensação que a acção poderia ser em, digamos, Amarante, também deve por lá devem haver poetas que gostem de outros poetas, embora sem conhecerem (não vem mal nenhum ao mundo) o William Carlos Williams. Jim Jarmusch vai-se aborrecendo ao logo da realização do seu filme ao ponto de fazer com que Paterson, por obra do demo, fique sem o seu caderninho de poemas, sem ter tido tempo de o fotocopiar. Ficamos todos muito chateados e solidários. Nós, e a menina que a páginas tantas lhe lê um poema, ao nível dos dele, ou de qualquer outro condutor de autocarros poeta, para não dizer de WCW. Todavia, Paterson, embora chateado (nota-se algum esforço do actor nesse sentido) continua a conduzir o seu autocarro (não é à toa que o nome do actor é Driver), mas ficamos sem saber se alguém lhe terá dito que não é o fim do mundo, que também Herberto Helder perdeu um manuscrito original num comboio, coisa que lhe terá provocado uma profunda angústia de duração não inferior a seis meses. Não sabemos, ainda, se Paterson ou mesmo Jarmusch sabem da participação de HH numa curta de 1968. Saberiam? Saberão? Como reagiria, ou reagirá Cannes? Não sabemos, é um perfeito enigma.


(Paterson a escrever os seus poemas, acho)


janeiro 24, 2018

E assim acontece


Tem dias. Mais coisa menos coisa, casa trabalho, comer, beber, às vezes lá calha; trabalho casa, comer beber, às vezes lá calha. Dos arquivos recentes consta uma única intoxicação etílica e alguns prazeres avulsos. Destes, destaque para a série Gomorra (2ª e 3ª temporadas), devorada com a placidez de um felino durante o último mês e meio. Cortesia da RTP2, sem espaço nos canais (americanos) de cabo, foi-se consumindo diariamente (para nosso deleite) sem deixar grande rasto (o que abona em seu favor) à sua passagem. Apenas recentemente no programa da Antena 3 Bons Rapazes ouvi alguma referência à série, na palavra de Álvaro Costa (quem mais?), qualificando-a como imperdível, bem temperada com violência sem paliativos e boa música, claro. Parece que os Massive Attack  andam atentos ao Hip Hop que se faz em Nápoles. Depois do livro, do filme, e da 1ª temporada (passou na Rtp2 em 2017), aguarda-se uma 4ª, para saber se o Ciro se fica, mortinho da silva, no fundo do mar. Confio no Sangue Azul.

Entretanto, após desenfastiar um pouco com o Sinal dos Quatro do Conan Doyle, voltei às lides e a Mathias Enard. Tinha ficado maravilhado com o seu “Zona”, uma viagem de comboio, com história, geografia, literatura, mescla de ficção e realidade histórica, verdadeiramente genial e apetitoso. Foi devorado com a dignidade possível. Reza a lenda urbana (quem o diz é um amigo livreiro), que eu ajudei e, muito, a catapultar as vendas do livro aqui por Braga. Avancei para o “Fala-lhe de Batalhas de Reis e de Elefantes”, lido com prazer, desaguando agora no seu “Bússola”.

Sabemos que o Sr. Mathias é um profundo conhecedor do Oriente, designadamente do Médio Oriente, fazendo aqui uma ponte histórico, literária, musical, entre Ocidente/Oriente, talvez mais entre a Mitteleuropa e esse Oriente (quantas vezes já escrevi oriente? – deixem passar) para nós tão proximamente desconhecido. Quer-me parecer que enquanto em “Zona” a narrativa se estende livremente, surgindo a erudição do autor como sustentáculo do romance, pelo contrário, “Bússola” parece escrito como sustentáculo, melhor, como justificação, da erudição do autor. Mas ainda vou a meio da ponte, claro.



 E agora vou mas é ver o Sporting ali à pedreira…