maio 28, 2020
Kaputt
janeiro 20, 2010
Arroz de tomate e feijão com panadinhos
janeiro 19, 2010
Afinal de contas uns enchidos e vinho tinto
Ali ao lado, um no parking afere cada visita como se fosse sua. Não é. Mais, só se for o rosto fechado de um conhecido quando, por acaso, nos cruzamos num desses túneis pedonais que nos carregam para o outro lado de um prédio em escadinhas sinuosas. O prédio, já de si desnecessário, alicerçou a ventura de um túnel, inventado para estes cruzamentos de poucos metros, justificando umas arrobas de cimento armado e afins. A gente até imagina o outro lado, é ali, ali mesmo, pouca coisa, e já está a subir um sobejo de empedrado que lá ficou à deriva de qualquer fôlego intervencionado. De resto, ah, aquele rosto, ali atrás, faz pitorescamente parte de uma paisagem interior, literalmente interior, alheia à sua própria passagem. E é muito mais fácil não nos cruzarmos. É para isso, julgo, que serve a modernidade: uma passagem, sem afectos, e afinal de contas, de encontro a um antigo empedrado. novembro 13, 2009
É outra vez aquela coisa das “lavas do sobreconsciente”
outubro 30, 2009
Como os sonhos e os espelhos

outubro 19, 2009
“E o que eu tenho de fazer é ficar à espera no centeio e apanhar todos os que desatarem a correr para o abismo”

Mas afinal como se chega ao Salinger, um gajo com nome de pistoleiro fatela? Chega-se à boleia do Enrique Vila-Matas, esse parasita literário que eu considero mais do que o meu gato. Na verdade, o gato não é bem meu, mas não interessa para o caso. Se eu escrevesse, isto é, se eu alguma vez abandonasse os graffitis no meu fato de treino Converse (de cor cinzenta), gostaria de escrevinhar como o gajo. Muito mais, muito mais mesmo, do que rabiscar como o Lobo Antunes nos seus cadernos de receitas do hospital Júlio de Matos. O Salinger ermitão é um gajo difícil de (lá) chegar. É um gajo americano, mas com o caralho de uma alma meio mexicana, ou coisa pior. É um bicho sem mato que o valha. O gajo é mesmo bom. Ou era. Quando o encontrei, por um acaso, não estava em Nova Yorque. Estava em casa (numa das trezentas em que já vivi) a aturar o meu vizinho louco barrido do 2ºandar, espécime rançoso a dar para o coleccionador de garrafas de plástico que juntava religiosamente na sacada entre latas de atum vazias, e, diz-se, tratados de economia política anacrónicos, forjados na pastelaria editora da rua. Era cruel. Mas eu nem sequer tinha pena do gajo, afinal até lhe achava graça enfiado no seu sobretudo nojento, ou (no verão) naquele fatinho de fino corte, igualmente nojento. Mas lá que estava presente quando eu cheguei ao J.D. Salinger lá isso estava.
Adenda: frase título retirada da obra "À Espera no Centeio", J.D. Salinger, Difel, 2005,pp.187.
agosto 28, 2009
Belíssimo Alfredo
agosto 23, 2009
A matéria invisível
“Cuidado com os micróbios, pequeno” - grita uma senhora empoleirada na janela às coisas cá de baixo. Mais à frente, encontro a manquinha a entrar na padaria e noto, sem grande pesar, que tudo está na mesma. Por isso mesmo, ando escondido a escutar coisas antiquíssimas como o 1º álbum dos Clair Obscur, o “Counterpoint” dos In The Nursery, e uma merda que me faz confusão como é que lá cheguei de tão fraquinha: os Negativland. Na verdade, ao fundo da rua já estou a mudar a paparoca para o velhinho “A Um Deus desconhecido” e a preparar uma investida caseira baseada nas (minhas e próprias – assim mesmo) conclusões sobre “A sociedade de consumo” de Jean Baudrillard. Entretanto não acabo os contos da senhora dos pavões, não vou à pesca, não jogo futebol com os amigos e não me lembro de ir à missa. Por outro lado, consumo carradas de obras sobre a temática deslumbrante: cidades e urbanismo; viajo por catedrais góticas e encontro em cada esquina variadíssimos escritores a dar a sua esmolinha para a causa. Descubro outra e outra vez que tudo está ligado quando encontro o Marx perto do Camillo Sitte e o Corbusier num engarrafamento com Hugo (não é o do circo) e Wells.Acresce ainda que, finalmente, consegui livrar-me de uma das minhas (muitas) alergias (e reacções extemporâneas), esta última resultando em cerca de 325 borbulhas, dispostas, ora em camadas nas pernas, ora aleatoriamente nos braços e na barriga (soube por um espelho que também as carregava às costas). Parece que a coisa foi o resultado de 3 ou 4 dias de sol, colhido entre as 17h e as 19h, maioritariamente preenchidos na água. Odeio areia quente e odeio sol. Mas gosto de água. Gosto de água. Vai daí conclui-se, não vejo outra cena, que esta alergia, e temo que muitas outras, será causada pela denominada matéria invisível, uma cena que o Thomas Browne, segundo parece, já se debruçava…
Imagem: "Sunrise with Sea Monsters", John Mallord William Turner, (1775-1851)
agosto 21, 2009
É provável que nos voltemos a encontrar
A coisa havia começado assim: “É por um acaso que escrevo quando o copo de cerveja está (já) a meio”. Minutos antes desta enigmática sentença, recordo-o bem, estava eu a reflectir na problemática sempre pertinente da disposição táctica do Sporting, sem esquecer a inusitada e deslumbrante ausência de laterais com o mínimo de categoria, quando uma luz, a início, dir-se-ia, um lampejo praticamente imperceptível, mas depois insinuando-se frenética e ofuscante, pulsou no meu cérebro. Curiosamente, agora que a tento recordar (a pulsão logo aí terá degenerado em ideia – é sempre assim), recorrendo a meios pouco ortodoxos, destapo, não sem algum desnorte, a capinha de sombras verdadeiramente tenebrosas que nos salpicam os dias. Nem o percebemos. Entretanto, nesta reconstituição histórica recente para chegar à tal ideia, recordo essoutros momentos fatídicos em que tudo se ganha e tudo se perde num segundo: uma ideia assombrosa; um poema irrepreensível; um reconciliamento intimo; uma palavra desencaminhada; um projecto grandioso a três fases; um capítulo inteirinho da tese. Seguidamente, tudo se esfuma, entre uma antiga passagem estreita que culmina numa escadaria de madeira que dá passagem para a cangosta, e uma queda, nocturna e grave, que esfacela uma canela. Chegados à marquise, alguém ressona, e o vento dá de mansinho nas vidraças forradas a cortinados com renda, evocando todas essas vozes que já não recordamos. No dia seguinte talvez cheire a rosca e café com leite. Está tudo em camadas no mundo. É provável que nos voltemos a encontrar. imagem: "A persistência da memória", Salvador Dali, 1931
abril 09, 2009
De andaime em andaime
fevereiro 05, 2009
um processo: uma estória contada de memória e em cima do joelho
Imaginem um tipo (tipo investigador) que necessita de consultar determinado acervo em arquivo, disponível (todos os indícios contribuíam para tal pensamento) para consulta. Este tipo, tipo investigador (não, não é investigador tipo PJ) desloca-se ao local: uma instituição estatal, guarnecida desse tal acervo em arquivo (segundo as más línguas num local pouco aprazível com visitas de pombas e outros animais acolhedores, o que apenas aguçou mais o interesse do tal investigador tipo), abre a porta (logo estava aberta ao público) e entra placidamente depois de ter recusado um Euro a um (outro) tipo encostado à porta que nada tinha que ver com a instituição mas que necessitava de, segundo as suas próprias palavras, “pelo menos um euro”, ou “mais coisa menos, coisa” para, digamos, uma situação. O investigador subiu depois umas escadas. Que pena não serem em caracol para nos preparar para o cenário seguinte: duas senhoras, uma de pé vestida como quem anda por casa e tem um quintal e uma outra sentada, de bata, segundo lhe pareceu e (o investigador jurou-me) a fazer croché, acomodavam-se no hall. Por momentos o investigador recuou, talvez se desse o caso de se ter enganado. Olhou e viu um guichet. Salvo. Mas ninguém lá dentro. A senhora que estava de pé interpelou-o perguntando ao que vinha. Ele explicou. E tal…”consultar o arquivo para um trabalho de investigação no âmbito” de tal e tal, e se for necessária uma “credencial” e tal. A senhora ouvia sem perceber patavina e foi “consultar uma colega”. Cinco segundos depois já lá estava a explicar que não havia problema, ter-se-ia que marcar umas horas para que um colega pudesse estar presente para o “acompanhar” e sabe-se lá mais o quê . O investigador acrescentou que a coisa deveria “ser demorada” e para várias visitas logo o colega…”não faria mais nada”… e que de qualquer forma seria de “todo desnecessário”, mas a senhora apenas acrescentou que deveria enviar um E-mail com o que procurava e a disponibilidade, pronunciando E-MAIL muito devagarinho, com solenidade a até orgulho. Apenas aí o investigador compreendeu estar perante uma espécie de plano tecnológico travestido de fato de treino e chinelas. Perguntou a morada do E-mail. A senhora respondeu, algo seca e até com algum desdém: “é tal”. Na rua o investigador meteu a viola ao saco. “Basta um E-mail”, pensou…
No dia seguinte enviou o tal E-mail explicando a situação ao pormenor incluindo a deslocação ao local, afinal desnecessária, e descrevendo com minúcia o que pretendia e a sua disponibilidade. Dias passaram. O investigador convence-se que o trabalho na instituição deve ser sufocante para nem sequer haver tempo para responder. Mais uns dias e ele decide-se por…enviar outro E-mail solicitando a visita e enviando o anterior em anexo. Mais uns dias. E outros. O investigador telefona. Ninguém atende, uma, duas, três vezes. Finalmente uma voz ensonada, que no entanto ganha logo tom de funcionalismo público, responde do outro lado. Ele expõe a situação. Ela deixa-o expor. No final diz-lhe calmamente que, enfim…vai “falar com uma colega”. “Só um segundo”, diz. Volta mais tarde e aplica o mesmo “só um segundo, sim” mas este com música. De volta à música explica que de momento não pode ajudar porque a “colega dos E-mails está ao telefone…será que pode ligar mais tarde?”. “Colega dos E-mails?” rosna um já completamente desorientado investigador… “colega dos E-mails?...” ainda se ouve. Entretanto após várias tentativas para obter ligação telefónica, parece que o investigador optou (e a nosso ver bem) por dirigir-se ao local mais uma vez e, não obtendo resposta concreta, contactar “alguém” que já lá tenha estado ou “conheça” aquilo por "dentro". Não basta fazer obra, edificar, ter ideias. Andamos nisto das ideias e da obra há séculos. simplesmente é necessário que as coisas funcionem. E já agora as pessoas saberem, em cada local, o que estão ali a fazer…
novembro 03, 2008
uma estória: a "banquinha" da nossa esquina
Era uma vez, e não se sabia. Depois do sr. Eng, vestir a fatiota de vendedor ou correspondente comercial do Magalhães para a América latina, agora, logo agora, que se afirmava à tripa forra que não haveria pão para pançudos, tinha que aparecer um BPN (o banquinha) para engrandecer a veia estamos aqui para o que der e vier, e dar uma forcinha à banca da esquina, na qual, parece, era permitido jogar às cartas clandestinamente (a dinheiro e sem dar ciência) e a servir uns pipis de cepa caseira, não atendendo às santidades reguladoras (segundo consta, até tinham já uma sucursalzinha em Cabo Verde). Malandros. Ainda assim, num gesto de filantropia genial o sr. Eng mais uns quantos, adquiriram a dita banquinha, mas apenas e só a desdita. Explico: a banquinha faria parte de um grupinho jeitoso, com outras banquices e reportórios, alguns diz-se, até eram legais, davam lucro e tudo. Assim sendo, o grupo de filantropos, enlevados de tamanha galanteria, ficou apenas com o prejuízo (a banquinha) e deixou o resto (do grupinho) a esvoaçar no paraíso a que chamam de “liberal” qualquer coisa. O povo, frenético, clama já pelo sr. Obama, do 5º esquerdo, rapaz de potencial enriquecido pelo fogo da virtude, e que ainda por cima não bebe. E não é só na padaria. outubro 23, 2008
"não desistem...não desistem..."
agosto 06, 2008
março 19, 2008
Da marquise com amor: as minhas cassetes parte I
Foi a primeira ou a segunda marquise do bairro. Talvez em finais da década de 1970, inícios de 1980, não sei precisar. Já tinha bicicleta, eu, e o meu primo Fredinho, a dele teria sido a primeira do bairro e a minha a segunda. Já saberia há muito nadar, logo estaríamos em finais da década de 1970.
Embora a cerca de
Às vezes ao atravessar a bouça para casa, sonhando acordado, benzia-me sorrateiramente e corria, fugindo daquele tufo incómodo que resistia ao apelo inexorável da cidade. Uma dúzia de pinheiros, uma mesa de pedra e alguns pássaros, ainda assim menos que as pressões de ar que os varavam, os alçapões e outras armadilhas. À sua volta quintas esfomeadas e algumas casitas, até se perder tudo no rio.
Observava as raparigas da janela com o nariz espalmado entre a vidraça e os cortinados feitos pela mão da avó, enquanto invadia a Alemanha por terra ou a bordo de um Spitfire. Descobria o Buffalo Bill a farejar algo com os seus amigos peles-vermelhas (eu era um Comanche) e as montanhas do Arizona, e jogava insanamente futebol de mesa com bancadas pré-fabricadas. O Sporting foi muitas vezes campeão.
Outras vezes lia. Não raro, tocava o telefone com um triiim fabuloso a dar com o encarnado da sua veste e eu acordava. Por ali lanchava e pintava bolas de borracha com símbolos da Adidas. Tudo feito à mão.
Na marquise comecei a gravar as minhas cassetes num pequeno gravador com rádio. A primeira gravação deve ter sido dos dias mais venturosos da minha existência. É disso que se tratará…das minhas cassetes.
fevereiro 01, 2008
Da pastelaria com amor
Faz hoje 100 anos que o El Rei D.Carlos em caleche acompanhado da Rainha e filhos, ali ao Terreiro do Passo, desceu a rua em direcção ao nada. Alguns tiros e tudo terá terminado. Até a Monarquia Constitucional. Coisas para se ler à lareira, sem o Dr. Saraiva por perto. Ou então, ai a porra, na escola, que esta sempre servirá para alguma coisa.
Dois anos volvidos, a 1ª Republica. Seguir-se-iam uns anitos de foge que te apanho. Até ao Sr. Dr. Salazar e sua inclinação senil para nos embalsamar em perpétua ignorância.

