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maio 28, 2020

Kaputt


Parte da sua história poderá ser, eventualmente, encontrada aqui. Em pleno isolamento, através de um amigo, foi possível descobrir esta edição de bolso da Europa-América disponível numa livraria de Braga: nova, mas com idade avançada. Entretanto, parece que temos na calha reedição (já não era sem tempo) com a chancela da Cavalo de Ferro.

janeiro 20, 2010

Arroz de tomate e feijão com panadinhos

Estaria quase? Andávamos em experiências, envolvendo os nossos devaneios e um corte e sutura que não nos levava a lado algum.Em sintonia, cada vez mais, um conjunto inexorável de certezas acentuava o nosso falhanço: estávamos quase, quase lá. Por exemplo, cada vez menos leituras nos acompanhavam os dias, embora nos sonhos, entre o regurgitar solitário de um trabalho e outro, elas lá estivessem, as leituras, ou o seu negativo, sem se conseguir determinar a existência (visível) de livros, objecto indeterminado. Em cada momento, o seu contrário nos recordava o passar inexorável do tempo, sem que este jamais se apoderasse (a início) das coordenadas da nossa vida. Uma porta ali; uma pedra familiar acolá. E nada, nadinha de espaços com sentido abstracto, tudo palpável, concebível e, presumivelmente justo. Quem sabe com direito a férias…

janeiro 19, 2010

Afinal de contas uns enchidos e vinho tinto

Ali ao lado, um no parking afere cada visita como se fosse sua. Não é. Mais, só se for o rosto fechado de um conhecido quando, por acaso, nos cruzamos num desses túneis pedonais que nos carregam para o outro lado de um prédio em escadinhas sinuosas. O prédio, já de si desnecessário, alicerçou a ventura de um túnel, inventado para estes cruzamentos de poucos metros, justificando umas arrobas de cimento armado e afins. A gente até imagina o outro lado, é ali, ali mesmo, pouca coisa, e já está a subir um sobejo de empedrado que lá ficou à deriva de qualquer fôlego intervencionado. De resto, ah, aquele rosto, ali atrás, faz pitorescamente parte de uma paisagem interior, literalmente interior, alheia à sua própria passagem. E é muito mais fácil não nos cruzarmos. É para isso, julgo, que serve a modernidade: uma passagem, sem afectos, e afinal de contas, de encontro a um antigo empedrado. 

novembro 13, 2009

É outra vez aquela coisa das “lavas do sobreconsciente”

Sistematicamente, sou alvo de pequenas, eu diria ínfimas, alucinações, as quais me permitem, apesar de tudo, ver uma quantidade de coisas a olho nu e por aí fora com rasgos de realidade (re)forçada. O meu gato acreditaria. Por exemplo, neste preciso momento, estando eu a tentar recordar uma data de coisas supostamente inesquecíveis, isto é, uma data de ideias e projectos supostamente infalíveis e por aí fora, dá-se o caso (incompreensível) de não recordar nadinha da coisa alguma e andar aqui a enredar e voltar a dar na esperança de ninguém perceber. Deu-se o mesmo quando há uns anos atrás depois de uma noite de copos, vinha eu para casa a escrever mentalmente uma data de poemas fabulosos, quando, ao subir umas escadas provisórias de madeira junto ao murinho da escola primária, tombei com todas as forças disponíveis nesse momento, abrindo um lanho jeitoso na canela e inaugurando uma colecção (futura) de escoriações de pele em forma de tampinhas. Vai daí, ainda pensei que foram os melhores poemas que nunca escrevi. No dia seguinte confirmei-o, não me recordando de nada, mas atestando com um sorriso o sangue nos lençois e uma tampinha de carne levantada…eh…eh…na canela.

outubro 30, 2009

Como os sonhos e os espelhos

Devo a uma confluência mefistofélica ocorrida entre um fogão e a parte eléctrica de um edifício (no qual aparentemente habito), um conjunto de convulsões tenebrosas (do ponto de vista alusivo ao ambicionado marasmo que por aqui se pratica). Terá sido durante a execução de um estufado espantosamente composto e aromático, para não dizer mais, que, sofregamente, o destino murmurou a sua mão raquítica mas omnipresente. Pensei logo num espelho. E depois recordei um sonho nocturno da noite passada. Depois ainda, matutei (por deferência) no J.L Borges, tendo em conta a cópia (para não dizer plágio) do meu pensamento. Mas que porra. Que escrúpulos: ”tenho lá culpa de pensar em cenas já pensadas ou escritas pelo Borges…”. O pior veio depois. Uma desculpa esfarrapada por apreciar leões (olha o Sporting e a juba leo), mas sobretudo tigres e mais tigres. Como o Hobbes. Como este. E como este.  

outubro 19, 2009

“E o que eu tenho de fazer é ficar à espera no centeio e apanhar todos os que desatarem a correr para o abismo”


Confesso que ando às voltas com aquela coisa da literatura contemporânea. Essa merda não quer dizer nadinha, claro. Inutilmente, o (meu) anacronismo clássico resulta agora numa indisfarçável queima de pestanas, pálpebras e até de sobrancelhas a dar a dar para um gosto mais ou menos duvidoso. Para não dizer popular. Nas artes plásticas (ou pélvicas), baliza-se sempre a coisa sem grandes espasmos de nomenclatura até chegar à instalação, coisa vulgaríssima, mas ruinosa do ponto de vista do incrédulo visitante. Podem sempre ler o sr. Augusto França. Na literatura (e nem sequer estou a falar do burgo - a porca torce o rabo até desfalecer - anatomicamente falando). Um gajo mastiga o William Golding enquanto descasca uma banana, e facilmente se enriquece com as tais férias a ler o Ulisses do Joyce, plano insano que remonta ao (meu) modernismo de 1991/2 (e entretanto já lá - me - estão a segredar o sr. Bellow, e um tal de “Herzog”, e eu a pensar, sei lá bem porquê, num outro gajo (Inglês) que vivia no México Debaixo do Vulcão). “Lê isso, lê isso”, dizem-me na penumbra, e eu encaixo um Herzog, ai se encaixo, mas em alemão, só me dá para aí, numa televisão pequenina (Grundig - era uma Grundig), a passar o Aguirre o Conquistador, ui… e o Klaus Kinski, parece que o estou a ver, com uns olhos azuis de criar bicho, de macaco a tiracolo…no meio da água de um caraças de um rio…vê-se bem que é a merda de um rio na América latina… “Herzog o realizador?”, questiono. “Não idiota. O do livro do Below”. 
Mas afinal como se chega ao Salinger, um gajo com nome de pistoleiro fatela? Chega-se à boleia do Enrique Vila-Matas, esse parasita literário que eu considero mais do que o meu gato. Na verdade, o gato não é bem meu, mas não interessa para o caso. Se eu escrevesse, isto é, se eu alguma vez abandonasse os graffitis no meu fato de treino Converse (de cor cinzenta), gostaria de escrevinhar como o gajo. Muito mais, muito mais mesmo, do que rabiscar como o Lobo Antunes nos seus cadernos de receitas do hospital Júlio de Matos. O Salinger ermitão é um gajo difícil de (lá) chegar. É um gajo americano, mas com o caralho de uma alma meio mexicana, ou coisa pior. É um bicho sem mato que o valha. O gajo é mesmo bom. Ou era. Quando o encontrei, por um acaso, não estava em Nova Yorque. Estava em casa (numa das trezentas em que já vivi) a aturar o meu vizinho louco barrido do 2ºandar, espécime rançoso a dar para o coleccionador de garrafas de plástico que juntava religiosamente na sacada entre latas de atum vazias, e, diz-se, tratados de economia política anacrónicos, forjados na pastelaria editora da rua. Era cruel. Mas eu nem sequer tinha pena do gajo, afinal até lhe achava graça enfiado no seu sobretudo nojento, ou (no verão) naquele fatinho de fino corte, igualmente nojento. Mas lá que estava presente quando eu cheguei ao J.D. Salinger lá isso estava.

Adenda: frase título retirada da obra "À Espera no Centeio", J.D. Salinger, Difel, 2005,pp.187.

agosto 28, 2009

Belíssimo Alfredo


“As minhas pernas estão a ficar mais finas e o meu estômago mais proeminente”. Quem disse isto, enquanto pontapeava uma lata de cerveja choca para cima de um disco da Janis Joplin não foi o Jim (Douglas) Morrison, mas o meu amigo Alfredo, desesperado com as (des)construções desvairadas da cidade, essa “panóplia de betões cinzentos, esquecida de qualquer sabedoria”. A barba cresce-lhe farfalhuda. Alfredo recusa o tempo da dor e esmaga uma camisola de fancaria com o Che. Isto depois de eu o ter encontrado na iminência de uma escadaria com pouco mais de 20 anos, num atravessamento estreito, com os candeeiros a irradiar uma luz fantasma, amarelecida e repleta de sombras antigas. Foi depois de uma caldeirada (eu diria espanholada), de safío, com mais espinhas que a nossa existência, que galguei a espaços cada recanto da minha (nossa) paróquia. Dei comigo, e com a paróquia, encostados na praça velha, a relembrar o filme “Cinema Paraíso”, naquela parte em que o nativo dizia, já velhote, entre os muitos automóveis: “a praça é minha, a praça é minha”. Recordei esse Alfredo (projectista com a idade do velho cinema) com o puto. Um filme para toda a terra assistir: “Belíssimo Alfredo”. 

agosto 23, 2009

A matéria invisível

“Cuidado com os micróbios, pequeno” - grita uma senhora empoleirada na janela às coisas cá de baixo. Mais à frente, encontro a manquinha a entrar na padaria e noto, sem grande pesar, que tudo está na mesma. Por isso mesmo, ando escondido a escutar coisas antiquíssimas como o 1º álbum dos Clair Obscur, o “Counterpoint” dos In The Nursery, e uma merda que me faz confusão como é que lá cheguei de tão fraquinha: os Negativland. Na verdade, ao fundo da rua já estou a mudar a paparoca para o velhinho “A Um Deus desconhecido” e a preparar uma investida caseira baseada nas (minhas e próprias – assim mesmo) conclusões sobre “A sociedade de consumo” de Jean Baudrillard. Entretanto não acabo os contos da senhora dos pavões, não vou à pesca, não jogo futebol com os amigos e não me lembro de ir à missa. Por outro lado, consumo carradas de obras sobre a temática deslumbrante: cidades e urbanismo; viajo por catedrais góticas e encontro em cada esquina variadíssimos escritores a dar a sua esmolinha para a causa. Descubro outra e outra vez que tudo está ligado quando encontro o Marx perto do Camillo Sitte e o Corbusier num engarrafamento com Hugo (não é o do circo) e Wells.
Acresce ainda que, finalmente, consegui livrar-me de uma das minhas (muitas) alergias (e reacções extemporâneas), esta última resultando em cerca de 325 borbulhas, dispostas, ora em camadas nas pernas, ora aleatoriamente nos braços e na barriga (soube por um espelho que também as carregava às costas). Parece que a coisa foi o resultado de 3 ou 4 dias de sol, colhido entre as 17h e as 19h, maioritariamente preenchidos na água. Odeio areia quente e odeio sol. Mas gosto de água. Gosto de água. Vai daí conclui-se, não vejo outra cena, que esta alergia, e temo que muitas outras, será causada pela denominada matéria invisível, uma cena que o Thomas Browne, segundo parece, já se debruçava…


Imagem: "Sunrise with Sea Monsters", John Mallord William Turner, (1775-1851)

agosto 21, 2009

É provável que nos voltemos a encontrar

A coisa havia começado assim: “É por um acaso que escrevo quando o copo de cerveja está (já) a meio”. Minutos antes desta enigmática sentença, recordo-o bem, estava eu a reflectir na problemática sempre pertinente da disposição táctica do Sporting, sem esquecer a inusitada e deslumbrante ausência de laterais com o mínimo de categoria, quando uma luz, a início, dir-se-ia, um lampejo praticamente imperceptível, mas depois insinuando-se frenética e ofuscante, pulsou no meu cérebro. Curiosamente, agora que a tento recordar (a pulsão logo aí terá degenerado em ideia – é sempre assim), recorrendo a meios pouco ortodoxos, destapo, não sem algum desnorte, a capinha de sombras verdadeiramente tenebrosas que nos salpicam os dias. Nem o percebemos. Entretanto, nesta reconstituição histórica recente para chegar à tal ideia, recordo essoutros momentos fatídicos em que tudo se ganha e tudo se perde num segundo: uma ideia assombrosa; um poema irrepreensível; um reconciliamento intimo; uma palavra desencaminhada; um projecto grandioso a três fases; um capítulo inteirinho da tese. Seguidamente, tudo se esfuma, entre uma antiga passagem estreita que culmina numa escadaria de madeira que dá passagem para a cangosta, e uma queda, nocturna e grave, que esfacela uma canela. Chegados à marquise, alguém ressona, e o vento dá de mansinho nas vidraças forradas a cortinados com renda, evocando todas essas vozes que já não recordamos. No dia seguinte talvez cheire a rosca e café com leite. Está tudo em camadas no mundo. É provável que nos voltemos a encontrar.  

imagem: "A persistência da memória", Salvador Dali, 1931

abril 09, 2009

De andaime em andaime

imagem: Inútil
Babilónia: Minho. Chove. O elemento chave é a chuva: miudinha, tenaz, insossa; os passeios encolhem açambarcados por espectros dobrados e centenas de guarda-chuvas que se assemelham a cúpulas minúsculas. Batem-se os espectros pelo melhor olhar para o chão. Tocam sinos. Oh, um paraíso para andar de andaime em andaime. Depois chove ainda, uma chuvinha em câmara lenta, com várias designações a tiracolo, boçais, quase todas injustas. Alguém corre. Além, enfiam-se nas lacunas da cidade. José, à pala do seu nariz continua a fumar incólume à chuva, como se nada fosse. Até a cortesia se restringe ao mínimo, também ela salpicada, muito semelhante aqueloutra a que aludia Flaubert, condicionada pelo permanente nevoeiro Londrino, que apenas permitia ver as senhoras quando estavam demasiado próximas não consentindo uma saudação condigna. Suponho que a cortesia seja coisa do passado e passeio o olhar pelos andaimes da imaginação.

fevereiro 05, 2009

um processo: uma estória contada de memória e em cima do joelho

Imaginem um tipo (tipo investigador) que necessita de consultar determinado acervo em arquivo, disponível (todos os indícios contribuíam para tal pensamento) para consulta. Este tipo, tipo investigador (não, não é investigador tipo PJ) desloca-se ao local: uma instituição estatal, guarnecida desse tal acervo em arquivo (segundo as más línguas num local pouco aprazível com visitas de pombas e outros animais acolhedores, o que apenas aguçou mais o interesse do tal investigador tipo), abre a porta (logo estava aberta ao público) e entra placidamente depois de ter recusado um Euro a um (outro) tipo encostado à porta que nada tinha que ver com a instituição mas que necessitava de, segundo as suas próprias palavras, “pelo menos um euro”, ou “mais coisa menos, coisa” para, digamos, uma situação. O investigador subiu depois umas escadas. Que pena não serem em caracol para nos preparar para o cenário seguinte: duas senhoras, uma de pé vestida como quem anda por casa e tem um quintal e uma outra sentada, de bata, segundo lhe pareceu e (o investigador jurou-me) a fazer croché, acomodavam-se no hall. Por momentos o investigador recuou, talvez se desse o caso de se ter enganado. Olhou e viu um guichet. Salvo. Mas ninguém lá dentro. A senhora que estava de pé interpelou-o perguntando ao que vinha. Ele explicou. E tal…”consultar o arquivo para um trabalho de investigação no âmbito” de tal e tal, e se for necessária uma “credencial” e tal. A senhora ouvia sem perceber patavina e foi “consultar uma colega”. Cinco segundos depois já lá estava a explicar que não havia problema, ter-se-ia que marcar umas horas para que um colega pudesse estar presente para o “acompanhar” e sabe-se lá mais o quê . O investigador acrescentou que a coisa deveria “ser demorada” e para várias visitas logo o colega…”não faria mais nada”… e que de qualquer forma seria de “todo desnecessário”, mas a senhora apenas acrescentou que deveria enviar um E-mail com o que procurava e a disponibilidade, pronunciando E-MAIL muito devagarinho, com solenidade a até orgulho. Apenas aí o investigador compreendeu estar perante uma espécie de plano tecnológico travestido de fato de treino e chinelas. Perguntou a morada do E-mail. A senhora respondeu, algo seca e até com algum desdém: “é tal”. 
Na rua o investigador meteu a viola ao saco. “Basta um E-mail”, pensou…
No dia seguinte enviou o tal E-mail explicando a situação ao pormenor incluindo a deslocação ao local, afinal desnecessária, e descrevendo com minúcia o que pretendia e a sua disponibilidade. Dias passaram. O investigador convence-se que o trabalho na instituição deve ser sufocante para nem sequer haver tempo para responder. Mais uns dias e ele decide-se por…enviar outro E-mail solicitando a visita e enviando o anterior em anexo. Mais uns dias. E outros. O investigador telefona. Ninguém atende, uma, duas, três vezes. Finalmente uma voz ensonada, que no entanto ganha logo tom de funcionalismo público, responde do outro lado. Ele expõe a situação. Ela deixa-o expor. No final diz-lhe calmamente que, enfim…vai “falar com uma colega”. “Só um segundo”, diz. Volta mais tarde e aplica o mesmo “só um segundo, sim” mas este com música. De volta à música explica que de momento não pode ajudar porque a “colega dos E-mails está ao telefone…será que pode ligar mais tarde?”. “Colega dos E-mails?” rosna um já completamente desorientado investigador… “colega dos E-mails?...” ainda se ouve. Entretanto após várias tentativas para obter ligação telefónica, parece que o investigador optou (e a nosso ver bem) por dirigir-se ao local mais uma vez e, não obtendo resposta concreta, contactar “alguém” que já lá tenha estado ou “conheça” aquilo por "dentro". Não basta fazer obra, edificar, ter ideias. Andamos nisto das ideias e da obra há séculos. simplesmente é necessário que as coisas funcionem. E já agora as pessoas saberem, em cada local, o que estão ali a fazer…

novembro 03, 2008

uma estória: a "banquinha" da nossa esquina

Era uma vez, e não se sabia. Depois do sr. Eng, vestir a fatiota de vendedor ou correspondente comercial do Magalhães para a América latina, agora, logo agora, que se afirmava à tripa forra que não haveria pão para pançudos, tinha que aparecer um BPN (o banquinha) para engrandecer a veia estamos aqui para o que der e vier, e dar uma forcinha à banca da esquina, na qual, parece, era permitido jogar às cartas clandestinamente (a dinheiro e sem dar ciência) e a servir uns pipis de cepa caseira, não atendendo às santidades reguladoras (segundo consta, até tinham já uma sucursalzinha em Cabo Verde). Malandros. Ainda assim, num gesto de filantropia genial o sr. Eng mais uns quantos, adquiriram a dita banquinha, mas apenas e só a desdita. Explico: a banquinha faria parte de um grupinho jeitoso, com outras banquices e reportórios, alguns diz-se, até eram legais, davam lucro e tudo. Assim sendo, o grupo de filantropos, enlevados de tamanha galanteria, ficou apenas com o prejuízo (a banquinha) e deixou o resto (do grupinho) a esvoaçar no paraíso a que chamam de “liberal” qualquer coisa. O povo, frenético, clama já pelo sr. Obama, do 5º esquerdo, rapaz de potencial enriquecido pelo fogo da virtude, e que ainda por cima não bebe. E não é só na padaria.
Não são inúteis, não…

outubro 23, 2008

"não desistem...não desistem..."

Devo este último registo a um distúrbio com as horas e, fundamentalmente, a um inócuo transe das (para mim óbvias) transmissões televisivas abertas. Embrulhei-me e percebi tarde que em “Kansas anymore”. Quando cheguei ao jogo, tarde e mal servido, fui recebido com um “estes tipos são russos, não desistem, não desistem…são… russos… são como os indianos ou os …chineses”, dizia o sr. André, de pé, de pé em riste, como bom lampião a afagar a esperança da nossa morte. Queria dizer-lhe que não, que eram “ucranianos” mas não tive vagar. Na TV, assim de frosques, o Sporting não jogava grande coisa e mantinha um low-profile em doses massivas quanto baste para adormecer os ucranianos, um cavalo garrano, e a nós, claro, porquanto em dez minutos já me apetecia uma segunda cerveja. Quando dei por mim estava a pontapear a mesa em jeito de ritual e a ressoar aquela amostra de nadas em teatralidade futeboleira. Parece que é assim que se ganha. E, afinal, o(s) tipo(s) eram “brasileiros…estes tipos não desistem…não desistem…”

agosto 06, 2008

Das noites

"É com esta garra que se desenha o Morto", terá dito.
O outro recuou. Até hoje.

março 19, 2008

Da marquise com amor: as minhas cassetes parte I

Foi a primeira ou a segunda marquise do bairro. Talvez em finais da década de 1970, inícios de 1980, não sei precisar. Já tinha bicicleta, eu, e o meu primo Fredinho, a dele teria sido a primeira do bairro e a minha a segunda. Já saberia há muito nadar, logo estaríamos em finais da década de 1970.
Embora a cerca de 15 km da costa, da marquise podia ver-se o mar, ainda antes de o Virgílio Ferreira escrever que da sua língua tal também era possível. Não achei estranho. Tinha a poesia como mochila, aliançada às costas, e a vida a tiracolo com fisgas, arcos, piões, livros de banda desenhada e metáforas comprometidas com a natureza.
Às vezes ao atravessar a bouça para casa, sonhando acordado, benzia-me sorrateiramente e corria, fugindo daquele tufo incómodo que resistia ao apelo inexorável da cidade. Uma dúzia de pinheiros, uma mesa de pedra e alguns pássaros, ainda assim menos que as pressões de ar que os varavam, os alçapões e outras armadilhas. À sua volta quintas esfomeadas e algumas casitas, até se perder tudo no rio.
Observava as raparigas da janela com o nariz espalmado entre a vidraça e os cortinados feitos pela mão da avó, enquanto invadia a Alemanha por terra ou a bordo de um Spitfire. Descobria o Buffalo Bill a farejar algo com os seus amigos peles-vermelhas (eu era um Comanche) e as montanhas do Arizona, e jogava insanamente futebol de mesa com bancadas pré-fabricadas. O Sporting foi muitas vezes campeão.
Outras vezes lia. Não raro, tocava o telefone com um triiim fabuloso a dar com o encarnado da sua veste e eu acordava. Por ali lanchava e pintava bolas de borracha com símbolos da Adidas. Tudo feito à mão.
Na marquise comecei a gravar as minhas cassetes num pequeno gravador com rádio. A primeira gravação deve ter sido dos dias mais venturosos da minha existência. É disso que se tratará…das minhas cassetes.

fevereiro 01, 2008

Da pastelaria com amor

Faz hoje 100 anos que o El Rei D.Carlos em caleche acompanhado da Rainha e filhos, ali ao Terreiro do Passo, desceu a rua em direcção ao nada. Alguns tiros e tudo terá terminado. Até a Monarquia Constitucional. Coisas para se ler à lareira, sem o Dr. Saraiva por perto. Ou então, ai a porra, na escola, que esta sempre servirá para alguma coisa.

Dois anos volvidos, a 1ª Republica. Seguir-se-iam uns anitos de foge que te apanho. Até ao Sr. Dr. Salazar e sua inclinação senil para nos embalsamar em perpétua ignorância.

Entretanto, na nossa democracia bonsai, onde dois ramitos foram aparados esta semana, esqueço a natinha e os olhos descaídos de sopeirisse mal dormida da assistente de bolo. E peço pão de água, escondendo de soslaio uma trégua. A Sr. Dona Qualquer coisa escuta um hino na rádio confirmando a sua aptidão para todos os registos sonoros. Dois pavões em salmoura lêem o jornal. Ainda assisto à lembrança de um panado, hoje parte integrante da modernidade de pastelaria. Com amor.