Mostrando postagens com marcador eleições. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador eleições. Mostrar todas as postagens

outubro 09, 2009

Estava a pensar em literatura contemporânea mas não resisto ao registo boçal nem ao húmus

Lamenta-se a insuficiência de espaço (na capa) para aceder a todos os protagonistas que, de uma forma ou de outra, mas sempre com trabalho e responsabilidade, contribuíram para o estado de gangsterização (é assim mesmo que se escreve) em que se encontra o país chamado, e bem, Portugal. Leia-se o deprimido e visionário (que ninguém lê, nem lembra ao diabo), Raul Brandão. Leia-se:

Roubar já não se chama roubar. Este homem que comanda uma frota da Baía a Tunis, é um financeiro e um poeta [Atente-se, por ex, no Paulo Teixeira Pinto, ex Millennium]. Faz a fome e a fartura. Arruína um povo – e enriquece. Uma revolução, dois, três navios vão pelos ares…Mais negócio, melhor negócio. Este médico, este advogado, este honrado comerciante, exploram-te. Enriquecem. Desçamos na escala: ali à esquina levam-te a carteira com uma nota de dez mil réis. A isto se chama roubar.

Sacado do “Húmus” (1917) de Raul Brandão que por vezes, não raras, assoma a bocas de esgoto armadas em picheleiros da mudança.

setembro 29, 2009

Já começou



ainda o sangue não chegou ao rio e as bandeirinhas já se desfraldam ao vento que passa. Extravagâncias se anunciam. No café Portugal e na padaria, pelo menos, já se desanuviou o ambiente...

setembro 21, 2009

As transições defensivas em campanha eleitoral


Com o desemprego a substituir-se ao diabo nos nossos pesadelos, uma engenhoca de escutas entretém o rebanho em vésperas de nada. Na padaria jura-se a bom jurar que a maquineta era um gravador potentíssimo parecido com aqueles onde se metiam as cassetes para jogar no velhinho ZX SPECTRUM. Ora o partido tende para o engenheiro ora para os sr. Presidente, um “um senhor”, outro “um senhor”. Esta aflição de encher o bandulho com retalhos da vida de um país servidos na sopa televisiva ainda vai no adro, e quando o andor chegar ao nicho (ou no dia seguinte), perplexos ficarão os frequentadores da padaria, e os outros todos, acordando para a realidade crua, servida nas mesmas televisões entre os restos eleitorais, novas amizades, mudanças súbitas de orientação e alguns cumprimentos aos vencidos e parabéns aos (justos vencedores). Até lá, como se verá, nem uma ideia, nem debate sério, assomará à portinhola das coisas aqui em baixo. Qualquer assunto pertinente, qualquer problema concreto do país e dos nativos será devidamente amordaçado e obviamente colocado na prateleira dos acessórios (justamente sancionado com o respectivo cartão), enquanto no tabuleiro da devassa, dos interesses instalados e por instalar, se faz aquilo que se deve fazer numa campanha eleitoral, a saber: jogar à macaca com os jornalistas e o povinho; prometer nova equipa e estratégias não esquecendo o trabalho, muito trabalho; simular umas faltas, insultar o adversário, pedir desculpa, sondar o árbitro, dar uns cacetes e levar outros; dar umas entrevistas prometendo fidelidade e amor eterno ao clube enquanto se negoceia à socapa com outras cores, porque nunca se sabe o dia de amanhã; e ainda, se possível, jurar a pés juntos que lhe estão a fazer a folha. Ora, para economização da inteligência e outras javardices já temos a manada do futebol. Força Sporting!

setembro 05, 2009

O voto inútil

Já rabeia na padaria o bichinho das eleições. Um conjecturável comunista (filho de um verdadeiro marxista), rapaz de pedinchices e de pouco trabalho, aceitou (presume-se que) abnegadamente, dois bonezinhos e uma bolsinha com as cores de uma lista (nos antípodas do seu pensamento filosófico político) candidata à junta de freguesia. Cheira a vitória e não convém defraudar os “amigos”. Recebida a lembrança, avança com um sorrisinho e sentencia humildemente: “voto nas pessoas, não nas cores”. Ele presumivelmente nem vota. Mas carece, precisa muito, de continuar a gravitar perto daquelas mesas, a aparar as migalhas, cuidadosamente, e a receber vitupérios pela frente e à canzana. E para quê? Neste caso particular, pasme-se, apenas para poder andar por aí. Sentir-se entre afeiçoados. Digno. Mais próximo do centro da mesa, balofos avinhados em álcoois mais ou menos respeitáveis, esses sim, correm por dentro, farejando o bolo, a possível sinecura. A escudela pode ser sua. Estes, quanto a social-democracia, socialismo ou física nuclear, apenas lhe adivinhando os dentes rebolam de imediato para outro assunto: bola, o preferido; o Liedson na selecção (continua a ser bola, mas de carácter histórico filosófico); ou a possível lambidela política no encerramento do jornal das sextas na TVI (a rubrica da actualidade). Três segundos após o início de qualquer destes temas, pode advir um quarto ou quinto, de preferência começado por:” diz que” ou “ouvi na televisão” ou “como diz o outro”, ou ainda, quando (na melhor das hipóteses) assoma um pensamento efectivamente próprio, ou é intransmissível ou principia com o creditado “vi num documentário”. Foi assim que um tipo de andar aligeirado pelo Favaios, improvisou que qualquer um que se naturalize português, deveria, para além dos pressupostos legais (a versão original era: “as cenas que têm que ser cumpridas”), fazer um teste sobre cultura e história portuguesa, “como fazem na América” (esta é a parte do documentário). Assentimos. Mas talvez fosse interessante começar por fazer os testes aos nativos. Teríamos um país mais esvaziado. E, como explicava outro dia na padaria um Ucraniano a dois papagaios de ventre dilatado e semblante abigodado:”porra, vocês não sabem nada da vossa história. Até eu estudei os descobrimentos portugueses, e outras coisas”. O ventre maior, generoso, condescende com um sorriso de néscia bonomia, ao mesmo tempo que coloca as mãozinhas gordurosas em concha atestando: “ah…ah, a minha escola já foi há muito tempo..eh…eh…há muiiito tempo, fiu”.