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junho 01, 2020
abril 23, 2020
Isolamento (XXIV)

Gosto dos títulos de alguns livros de Ray Bradbury: “A morte
é um acto solitário”; “Teremos sempre Paris”; “Um cemitério para Lunáticos”; “Fahrenheit
451”. “Fahrenheit 451” e “A morte é um acto solitário” são imprescindíveis ao atravessamento
do mundo de uma forma minimamente diligente. Teremos sempre Paris, We'll always have Paris é uma deixa
inesquecível de Casablanca, embora subalterna a Play it again, Sam, esta última, segundo parece, nunca dita, pelo
menos dessa forma. Apesar disso, acabou num filme escrito e protagonizado
por Woody Allen, embora realizado por Herbert Ross. A vida tem dessas coisas. Teremos sempre Paris, de Bradbury, na edição portuguesa da Bizâncio, apresenta-se, legitimemente, como uma das piores capas atribuídas numa edição em língua portuguesa a um escritor que se consiga ler sem vomitar. Aquela imagem do velhinho em pano de fundo, as cores escolhidas, o tipo de letra, tudo contribui para estarmos perante uma obra ligada ao oculto sensaborão, induzindo em erro os menos atentos. No conto Massinello Pietro, Bradbury escreve: Olhou à sua volta, o mundo estava cheio de estátuas, como ele outrora tinha sido. Havia tantas pessoas que já não conseguiam mexer-se, nem sequer sabiam como haviam de começar a andar outra vez para qualquer lado, para trás, para a frente, para cima, para baixo, porque a vida os tinha picado e aturdido e batido até ficarem num silêncio de mármore. Bradbury, escritor (também) de ficção cientifica, perceberia hoje que a realidade ultrapassa e, muito, a ficção. Acho que ele sabia disso...
abril 16, 2020
Isolamento (XIX)

A rádio terá os seus seguidores, mas
de pouco nos vale quando se torna de companhia. Mais das vezes a companhia é
ruído, alegre adormecer, enchentes de alma, visitas às redes. Arrisco e ouço, com algum pasmo, a Antena 3 e a RUM (rádio
universitária do Minho). A primeira é pouco mais do mesmo, e alguns programas
de autor. A segunda quer ser do mesmo, tornar-se gente séria. E alguns
programas de autor. Sintonizo-me, deixa lá ver.
Através da tevê vou conhecendo William
Wisting da série policial norueguesa “Wisting”, baseada nos acontecimentos de
dois livros de Jørn Lier Horst: “O Homem das Cavernas” e “Cães de Caça”. Fica
para os lados do AMC e tem a sua pinta. Na RTP2 passa a série “Derrubados” (Taken
Down, no original). Artur Albarran diria que é o drama, o horror, a exploração
dos refugiados que, chegados à Europa, respiram o ar saudável da escravidão. E
teria razão. Embora a série se perca em alguns maneios próximos da xaropada, o
que nos obriga a considerar outras opções, como a Segurança Nacional, ou mesmo
os Mortos Vivos (temporada 25). A propósito, o aclamado (e logo esquecido) “Narcos”
vale pelo primeiro episódio. Aquela voz off a dar-nos conta do enquadramento
histórico torna a série balofa como a barriga do Escobar brasileiro, estorvada
pelo aroma (imposto) a documentário: plata
o plomo?
Agradáveis surpresas, ainda que a
prestações: "Breakfast at Tiffany's", uma comédia romântica, saída da pena de
Truman Capote e adaptada ao cinema por Blake Edwards, com Audrey Hepburne e
(consta que) outros actores; e “Silêncio”- filme sonhado e realizado por Martin
Scorsese, sobre as missões (doutrinais) dos Jesuítas portugueses no Japão, com
resultados que nos devem deixar orgulhosos (a apostasia é um tema que fica para
depois). O presidente Marcelo certamente terá ligado a Scorcese, felicitando-o
pela ideia e pelo filme e, quem sabe, pelo português perfeito dos actores,
entre os quais, o sr. Liam Neeson, isto é, Cristóvão Ferreira, meia hora de
representação, se tanto, com direito a figura de capa. Os outros actores (que
por acaso aparecem durante parte significativa do filme) são Andrew Garfield (Sebastião
Rodrigues), e aquele tipo que era condutor de autocarros e poeta no filme de
Jarmusch “Paterson” (um filme que deu que falar na minha cabecinha), chamado Adam
Driver, ou Francisco Garupe, missionário que morre afogado. E assim acontece. Agora vou ali ver a chuva cair.
abril 14, 2020
Isolamento (XVII)
Se tem febre e tosse ou garganta dorida, fique em casa: assim
começa “O Planeta dos Macacos – A Revolta”. Eu tinha estado a rever “O Planeta
do Macacos – A origem”: a ideia era criar um medicamento para o Alzheimer,
testado em chimpanzés (a primeira versão do medicamento era inclusive testada no
pai do protagonista), criando assim o retrovírus ALZ-113, desembocando a
brincadeira na doença da Gripe Símia e numa pandemia mundial de consequências
terríveis. O meu cérebro cozinhou ali mesmo uma ou duas teorias da conspiração,
infalíveis. Após vinte e sete minutos de filme, observando alguns chimpanzés
importantes a cavalo (para quando uma revolta dos cavalos? - digo eu), decido ir ler um pouco e retomar as teorias conspirativas mais tarde, ao sol.
Lá fora o silêncio era total. Sentei-me,
na companhia de Arthur Koestler (“O Zero é o Infinito”). Lá fora o silêncio era total, dizia Arthur Koestler. Todo o movimento da prisão estava congelado
na escuridão. Fumei um cigarro. Acho que bebi água. Fui dormir.
Não penses, faz: constava de um letreiro pendurado por cima da máquina
de escrever de Ray Bradbury. E assim terá sido por mais de setenta anos, fonte fidedigna.
Não penses, faz: lê-se na introdução
ao livro de contos “Teremos sempre Paris”, de Ray Bradbury. Aconteceu-me hoje
de manhã. O Carteiro ainda toca, pelo menos uma vez. E desta vez trouxe boas
notícias: “Teremos Sempre Paris”, e “Franny E Zooey”, de J.D. Salinger.
Entretanto, fui tomar o pequeno-almoço.
abril 27, 2018
novembro 22, 2017
setembro 05, 2017
Smartfone zombie
qualquer semelhança com a realidade é pura ficção...
nem o George Romero, ou o Carpenter, conseguiram lá chegar...
dezembro 03, 2016
junho 05, 2016
Arte urbana em Braga

(Braga, 04-06-16)
Fotografias dos trabalhos em curso no túnel junto ao Campo da Vinha. Parece-nos uma excelente iniciativa. Esperemos que não se esgote em alguns fogachos artísticos para turista ver. Parte da reabilitação passa por aqui, mas sobretudo pela reconstrução dos inúmeros imóveis em ruínas que polvilham o centro da cidade, alguns embalsamados de forma colorida, furtando-se aos nossos olhares.
abril 29, 2016
abril 12, 2016
"Fumar pode matar. Não fumar também."
Tabaco em Latim é
Nicotiana tabacum, vocês não sei. Considerem-se apresentados.
Os fumadores fazem sexo antes do cigarro, ao contrário dos
não-fumadores.
Ética aplicada a fumadores e não-fumadores: Não devemos discriminar nem censurar. Os julgamentos morais são dispensáveis. Para julgar os não-fumadores existem os tribunais.
A tosse nocturna é a dor de cabeça que os pulmões inventam
quando não querem ter relações com o tabaco.
Os cigarros electrónicos são como a inseminação artificial:
perde-se a melhor parte.
Não fume em jejum. Comece por mascar uma porção de tabaco.
A expressão «fumar o cachimbo da paz» nunca trouxe miséria
ao mundo.
Se fumar no quarto, tenha sempre uma cama ao lado do
cinzeiro.
"Ética a Nicotinómano", daqui.
março 07, 2016
janeiro 20, 2016
agosto 10, 2015
dezembro 18, 2014
A alma do rufia a rasgar-se
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.
Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.
Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.
Eu represento totalmente a minha vida.
Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.
Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.
janeiro 11, 2014
setembro 14, 2013
Isto vai lá para cima
Acreditem que, se há um tempo que eu detesto que utilizem para falar de mim, é o imperfeito do indicativo.
[Vernon Sullivan, quer dizer, Boris Vian]
julho 03, 2013
março 27, 2013
A metalinguagem do reino monera
Companheiro de luta Passos, vamos mal quando não
sabemos se Passos se soletra Gaspar, embora já há muito que saibamos que se
soletra(va) Relvas de trás para a frente. Aliás, temos algumas dúvidas
relativamente a Pedro, não será Miguel, ou Vitor? Bom, talvez Passos se leia
Borges e Pedro se leia António, uma questão linguística que de qualquer modo o
senhor nunca iria compreender. De Borges – que já sabíamos que é companheiro – ficamos
também a saber que a sua empresa recebeu do Estado no último ano 300 mil euros.
Não só aconselha como negoceia com o governo, mas quem paga é o Estado.
Companheiros não faltam. Carvalho, para nossa surpresa(?) também é soletrado por Passos, facto que se confirma com a criação de um lugar para o ex-espião(?) Silva na Presidência do Conselho de Ministros, com efeitos a
partir de 1 de Dezembro de 2010. Por falar no companheiro de luta Silva
Carvalho, este não tinha um processo judicial contra Passos e Gaspar?
Quando escutamos os murmúrios ruminados do
companheiro de luta Cavaco, ficamos logo a saber que a evolução tem umas contas
a ajustar com algumas mioleiras estacionadas algures numa garagem craniana. Diz o companheiro Cavaco que a inflamação da glândula retórica trasladada de um
cortejo fúnebre político-partidário poderá não acrescentar um cêntimo à
economia. Muito menos aqui por casa, digo eu. Nestes momentos percebemos que os
beatos da linguagem económica ainda continuam no seu minúsculo reino monera,
assistindo ao naufrágio do corpo que infectam. Percebemos também a razão
visionária de Guy Debord (A sociedade do
espectáculo), quando este reconheceu a falha num sistema que talvez
libertasse momentaneamente as sociedades (industriais) da pressão na luta
(imediata) pela sobrevivência, mas que estas nunca se libertariam do seu (suposto) libertador. Por falar em libertador, ainda existem sociedades industriais? Aqui
por perto não se vê nada.
[fotograma de "Pamplinas Maquinista" (The General), Buster Keaton]
março 22, 2013
O continente dos mortos vivos [o verdadeiro Zombieland]
A questão zombie não é de somenos: existe, ou
existia, um estado com um sistema financeiro
muito particular, – este muito particular é o busílis da questão zombie – tão
particular que nos remete para peculiar
ao mesmo tempo que nos cabeceia em privado
e nos amortece com a sua fugacidade
íntima. Este sistema bancário,
perdão, financeiro, tinha uma dimensão muito superior à economia de um país(?)
chamado Chipre, ao qual supostamente pertencia, pormenor que durante longos
anos, especialmente nestes últimos de apuro (quase) generalizado, terá (supostamente)
escapado a todos os auditores, contadores, banqueiros, políticos, um fartote de
anémonas cipriotas e europeias, o que nos remete para o conceito de zombie em part-time, já que esta (nova)
extirpe, apenas zombieia em determinadas condições, normalmente por si ditadas,
oscilando entre o modo zombie e o modo mais ou menos zombie quando se trata de
assuntos irrelevantes como, por exemplo, aumentar impostos, diminuir salários, ou
criar paraísos fiscais, coisa que nunca passou pela nem cabeça de Baudelaire ou
De Quincey.
Estes e outros zombies em full-time, espécie muito em
voga nas sociedades ocidentais, já foram sobejamente retratados nos filmes de
Romero:
mas também do Carpenter:
A ilha de Chipre é pródiga em particularidades, estando
dividida desde 1974 entre os
cipriotas (Gregos) e os outros
cipriotas (Turcos), antes por lá governaram com aproveitamento, os ingleses, os
turcos otomanos, os venezianos e uma claque não oficial do Sporting. Um murete que
ninguém reconhece nem quando lá esbarra com a cornadura, faz o seu papel de
tampão. De um lado é a Europa, do outro, seja lá o que deus quiser. Entretanto,
parece que há gás natural por perto, arregaçam-se as mangas e limpam-se as
beiçolas da geoestratégia, enquanto se pede a uns que paguem (mais uma vez) a
merda dos outros: coisa que lá, como cá, não falta. Enquanto isso, zombies de
todas as extirpes assobiam ou não saem de cima. Estarão ao nível da série
Walking Dead (que é mais fraquinha, - então a 3ª temporada):
[palhaço]
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