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junho 18, 2020

A vida a passar por um canudo (actualização)

(18/06/2020)

A saga continua. As obras espalham-se como uma grande mancha de óleo. Rodeando a construção das novas superfícies comerciais (e talvez com o patrocínio destas), uma nova alcatifa vai surgindo na rede viária, com os trabalhos a durarem de noite e de dia. Por perto, em várias ruas de São Vicente, continua a operação cosmética dos passeios e estacionamentos e mobiliário urbano. Aqui a saga ganha contornos de uma portugalidade inequívoca. Uma espécie de cosmética de preguiçosos, eivada de um espírito de serviço público que a arrasta no tempo. Até às eleições, presume-se. A modernidade saloia veio para ficar. 

abril 28, 2020

Isolamento I (actualização II)



(28/04/2020)

Tudo volta, até as obras. A sua evolução foi sendo exposta aqui e aqui. O resto é obra da primavera, expressa nas folhagens das árvores. A minha rua e a senhora da caixa do Mini tinham ambas razão: são duas construções, a mais recente teve início ontem, e fica bem ao lado da referida anteriormente, uma supostamente ligada à distribuição, outra, dizem, à comida rápida, assim mesmo na língua de Camilo, que nunca a deverá ter provado. Leonardo Benevolo, no seu livro “A cidade na história da Europa” escreve: as obras que hoje fazemos nas cidades – as respostas que damos aos nossos problemas momentâneos – serão vinculativas por muitos anos, mesmo quando os modos de pensar e de viver já tiverem mudado, e como fazemos modificações cada vez maiores e mais frequentes, vamos prejudicar cada vez mais a vida das gerações futuras, sem todavia sabermos prever e gerir suficientemente os efeitos remotos dos nossos actos. A cidade, diz-nos Italo Calvino em “As Cidades Invisíveis”, não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, escrito nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes e entalhes. Olho lá para fora com os olhos e os ouvidos, e recordo-me do título de um filme que anunciavam recentemente num dos canais da tevê: grávida…mas pouco. É isso Braga: cidade…mas pouco.

abril 02, 2020

Isolamento I (actualização)

De cabeça, sinónimos de parado, deixa ver: imóvel, inerte, estático, fixo, quieto, sei lá, estagnado, barrado, bloqueado, descontinuado, detido, estacado, interrompido, paralisado, travado, em suma… encostado.

(01-04-2020)

A condizer com o meio envolvente a obra (acima) deixou de sair à rua. Não terá sido de um dia para o outro. Foi sorrateiramente, como quem não quer a coisa. Até que parou. Temos seguido a sua curta história, como se poderá ler aqui

março 20, 2020

Isolamento (I)

As ruas estão desertas mas a cidade continua povoada. Menos movimentos pendulares e muita gente em casa, eis a cidade de Braga vista (sonhada?) da janela. Ontem em conversa telefónica um amigo dizia-me, meio a brincar mas muito a sério (pareceu-me), que esta cidade (talvez nem tanto) com menos automóveis, menos ruído, menos poluição, menos gente a correr de um lado para o outro, era a cidade que ambicionávamos. Não era. Não podia ser. O que desejávamos era uma cidade de escala humana (e Braga geograficamente ainda não é uma cidade demasiado grande), onde se pudesse andar a pé, de bicicleta, com bons transportes públicos, melhor urbanismo (bem sei dos erros estruturais do passado), mais parques, menos trânsito. Mais tempo para todos. Sem fundamentalismos.

A primeira fotografia que aqui vos deixo foi tirada a 13 de Fevereiro. Cerca de um mês antes, talvez um pouco mais, tinham-me dito que por ali (eu já digo o sítio e a situação) iria nascer mais um espaço comercial ligado à distribuição (e/ou fast food). Pelo menos mais um. Durante anos a única construção do local era uma barraca de uma qualquer imobiliária, associada a uma suposta urbanização que nunca surgiu, ou a mais uma empresa de construção que desapareceu do mapa. Tudo coisas não documentadas pela Netflix. Estas nesgas de terrenos que restam na cidade, interstícios deixados ao acaso entre prédios, automóveis (sobretudo automóveis) entulho e ervas daninhas, são pequenos nacos à espera de serem devorados e especulados.  

(Braga - 13/02/2020)

Este espaço em construção fica na rua Américo Rodrigues Barbosa, uma rua cuja entrada apenas é permitida a quem desce, isto é, quem venha da Rotunda de Infias, ou da Rua do Regimento da Cavalaria 8, onde sita o Pingo Doce. A situação? Bom, estamos ao largo da caótica rotunda de Infias, vários colégios (D. Diogo é uma dor de cabeça permanente), Liceu Sá de Miranda, vários milhares de pessoas a residir; junto ao nó de Infias, porta de entrada/saída da cidade tanto para Norte, como para Oeste, à rodovia, às autoestradas e vários destinos, ligação à corda comercial da cidade que se estende do espaço comercial Nova Arcada a Norte onde sita o IKEA, passando pelo Braga Parque, e por aí fora, até ao Minho Center, Leroy Merlin, etc. Não vamos perder tempo com as minudências do trânsito, dos estacionamentos, dos atrasos, do stress, nem vamos lembrar a Braga dos dias de chuva, linda, caótica, cinzenta. Importa referir que nos últimos três anos o tempo perdido nesta zona em hora de ponta praticamente triplicou. Eu sou um bom estudo experiencial para aqui chegarmos.

(18/03/2020)

E aqui chegados, pensamos na importância estratégica(?) de mais este espaço comercial, na sua localização (a propósito, a rua Américo Rodrigues Barbosa é um beco sem saída, - o que sairá daqui?), no trânsito resultante, nos estacionamentos. Na nossa vida de todos os dias. As obras continuam (como continuam as operações cosméticas das ruas António Marinho e adjacentes) como se poderá ver na fotografia acima. Mas agora as ruas estão desertas numa cidade povoada de fantasmas. De medo. De solidão e isolamento. E de repente estas coisas todas são vistas sob uma outra perspectiva, à luz de um desejo absurdo de normalidade. Mas não nos deixemos enganar. A normalidade, ainda assim, poderia ser bem diferente. E agora até temos algum tempo para pensar nisso.   


Nota: a desatar o nó de Infias desde 29/04/2019, mas sem mãos. 

fevereiro 25, 2020

Entrudo dentro

(Pinhel, 25-02-2020)

O vento soprava fraco ou moderado, não sei bem, enquanto caminhava ao longo da cerca urbana. Longe de carnavais pareceu-me o horizonte limpo. O entrudo, esse, esfumava-se à medida que a digestão do bucho do almoço seguia o seu curso. A Feira das Tradições (mais uma) era já uma recordação num futuro cardápio de memórias portáteis, e o silêncio continuava a insinuar-se de forma totalmente irresponsável. Ou isso. 

abril 13, 2018

Terra de ninguém


(detalhe de "Sonho de uma tarde dominical
na Alameda Central" - mural de Diego Rivera)

Sobre cidades moribundas, homogeneização e gentrificação dos centros históricos, sua museificação a olhos vistos; sobre a parque tematização dos espaços históricos, enjaulados num cenário que os recria em segunda mão, já muito disse e escrevi, disso tentei (ingenuamente) fazer vida, ou quase, não fosse a graça da má sorte, desvarios vários, algumas caminhadas, e ainda por lá andaria. Livros, alguns com décadas, anunciam a boa nova, por exemplo: “Simulacros e Simulação” de Baudrillard, ou “O Direito à Cidade” de Lefebvre, que hoje António Guerreiro também refere num artigo publicado no ÍPSILON (jornal Público), denominado "A morte da cidade". Artigos, estudos, papeladas, a rodos. A Academia debruça-se sobre o assunto entre dois coffee breaks.

Sobre a (digamos assim) temática, aqui deixo dois textos (mansinhos) do Público de hoje. O já citado:

Agora vou ali dar para outro peditório.

março 10, 2018

Mergulho lento



Ontem fui com um amigo ao Hard Clube ver os Slowdive. Não sou verdadeiramente um fã, mas gosto de os ouvir quando calha. Nem sempre calha. Deu para (tentar) sacudir as últimas semanas de trabalho. Deu para beber um copo, para conversar e apanhar uma molha. A zona à volta do Hard está cada vez (como é que se diz agora?) trendy. Restaurantes e cenas gourmet mais ou menos copiadas de todo o lado onde existem cenas gourmet ou trendy. Difícil é encontrar um tasco para beber uma cerveja a preços que os indígenas possam pagar. Mas anda muita gente na rua a treinar o inglês, lá isso anda. Ainda bem. E ainda bem que apesar do alerta laranja o rio não lhe deu para saltar as margens. Seria  um mergulho lento com um final muito trendy.

fevereiro 26, 2018

Pinhel, perto de si

(Pinhel, ameias voltadas a Oeste)

Nascido minhoto, de Barcelos, habituado a gente, muita água e a cantar de galo, dos livros e viagens conhecedor do país, com vivências longas em Coimbra e Braga (entre outras menos significativas mas igualmente marcantes), há já alguns anos que aporto em Pinhel, duas a três vezes por ano, mais, se o tempo e a disposição de quem me recebe, o permite.

Nada disto interessa. Ou interessa(rá) apenas a uns quantos. O turista acidental, o passeante cultural, mesmo o estudioso da história, ou a da pré-história (a propósito, no museu do Côa, alguns quilómetros a este, não nos cruzamos com mais ninguém, não contando com os funcionários em pleno tédio vegetativo), estando por ali de passagem, observa com olhos de trazer por casa, a sua casa, não poupando panegíricos às paisagens, ao sossego, escrevendo (mentalmente, claro) odes aos calhaus dos castelos (é assim que se chama a zona histórica de Pinhel), isto enquanto procura um restaurante (onde se coma bem), fotografando-se  as milhares de vezes que forem necessárias. Caso raro, conhece, ou troca, uma ou duas impressões com os indígenas. Às vezes o adiantado da hora apanha-o longe de mesa e cama lavada, mas sempre perto da hospitalidade de um prato de sopa e pão com chouriço. O bastante para descomprimir, dirá mais tarde.

Ora, o turista, o passeante, o estudioso, se olhasse para além do sossego, das ruas desertas, do caldo de pedra que a natureza serve aos olhares, veria, ou julgaria ver, a história, ou as estórias, de uma região que, não obra do acaso é parte do país chamado Portugal, servindo-lhe, durante muitos anos, de tampão, coisa que se pode comprovar de qualquer ameia que encontre por perto, ou escutando o vento leste, aquele que vem de Espanha. Embora o gasóleo seja lá muito mais barato. E se por qualquer desvario continuassem a olhar, encontrariam, pouca, ou nenhuma, publicidade à miséria, mesmo aquela devidamente embalada em produto cultural, e um ou outro evento, nada original, daqueles que já não chegam em paquetes, mas na camioneta da carreira. E nem sequer há neve que se veja.

A história mais recente do Concelho de Pinhel, distrito da Guarda, é a história de uma sangria. Hemorrágica, nas décadas de sessenta/setenta do século passado, com consequências que perduram e são conhecidas, ou deveriam sê-lo. Europa (sobretudo), África (colónias) e América foram os destinos. Ficaram os campos desertos, a floresta abandonada, e alguns indefectíveis. As razões da partida? Ainda não se conhecia a palavra economia, e a vida continuou.

Continuou, até que os filhos dos que ficaram foram estudar para fora cá dentro. E ficaram do lado de fora cá dentro, nunca se sabe, com esta coisa do local global. A malta encontra-se nas festas, sejam estas familiares, populares, ou todas as outras que chegam na camioneta. Assim como chegam, partem. Ficam os indefectíveis e alguns planos discutidos entre copos. Outros voltam para ficar, mas são tão poucos que não chegam para jogar uma partida de sueca.

Vierem as estradas, outras sofreram melhoramentos. É mais rápido chegar, muito mais fácil será partir. Por decreto, ou coisa parecida, devidamente subsidiada, chegaram algumas unidades industrias. A principal destas, a Rhode, desapareceu em 2006. Ficaram 370 pessoas a acenar na sua partida. O antigo espaço da Rhode (Rhode que merecia uma história à parte), passou a chamar-se pomposamente de Centro logístico de Pinhel. Alberga, dizem-nos, umas pequenas unidades de calçado, e agora também umas empresas de aeronáutica (a sério) francesas. Tudo somado é muito pouco. Os decretos continuam a acenar as suas possibilidades políticas.

Agora que a palavra economia é conhecida e adquire vários sentidos, muitos destes em língua inglesa, percebe-se que o tecido económico do concelho é, na verdade, uma manta de retalhos (apenas visível de vista aérea – daí, se calhar, as empresas aeronáuticas), cozida pelo município. A câmara é o grande empregador directo e indirecto. Tudo acaba por desaguar ali. Nas festas, o panegírico ao status quo assume contornos de síndrome psicológico. As autoridades passeiam-se com uma legitimidade apenas possível num sucedâneo da democracia. É tudo em ponto pequeno – até a vergonha –  o bastante para percebemos o irremediável desta modernidade de pacotilha. Nada disto terá aqui origem demarcada. E a vida continua. 

Nota: parece que agora a nova aposta será a criação de falcões (Pinhel é a Cidade Falcão), certamente para vigiarem a manta de retalhos. Os pombos que se cuidem. A vida continuará, certamente.

fevereiro 18, 2018

Viagens na minha terra (resumo da última semana)

(Pinhel)
(Figueira Castelo Rodrigo)
(Castelo Melhor)
(Museu do Côa - Vila Nova de Foz Côa)
(Museu do Côa)
(Mêda)
 (Ciudad Rodrigo - Espanha)

PS: Viagens na minha terra inclui, assumidamente, uma parcela de Castela e Leão. Vinte quilómetros mais concretamente. Só para chatear. Em breve, um pequeno ensaio sobre Pinhel, o planalto Beirão, a palavra despovoamento que rima com esquecimento.