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abril 06, 2020

Isolamento (notas)

Fileiras realistas de assentos de cinema ou teatro vermelhos ...

"A Arte Eléctrica em Portugal" é o único programa (vários episódios) de música da televisão portuguesa. Por acaso é um documentário: jornalistas, produtores, radialistas (vamos pô-los assim num saco), músicos e áreas adjacentes, como editores ou programadores, dizem umas coisas, e nós lá vamos ouvindo e esperando pela música, enquanto percebemos que tudo tem uma história e até fazemos parte dela. No programa da semana passada o tema era “A Era Global” (está disponível). Fui marcando com um sorriso os músicos e as bandas que já tinha assistido ao vivo (todos, exceptuando a Rita dos sapatos vermelhos), incluindo o improvável Tiago Miranda, mais conhecido como Conan Osíris: foi em Braga - noite branca - numa época (longínqua) em que a distância social mínima era de dois milímetros e ainda assim não era respeitada. 

março 22, 2020

Isolamento (IV)



Tudo neste livro está em avançado estado de decomposição. Tudo menos a memória. O corpo debate-se, não é bem um corpo, é uma forma vaga de espaço anatómico, algo que habita o pré-pensamento. O “Arquipélado Gulag” de Aleksandr Soljenítsin é um conjunto de fragmentos, vivências, histórias com pessoas (dir-se-ia que sim) lá dentro, quase sempre lá dentro: detenções, processos, prisões, campos, timoneiros, siglas, números. Sem lugar na “História universal da infâmia” de Borges, por manifesta incapacidade imaginativa do autor. Sem lugar no mundo. Apenas no fim do mundo. Com licença: Não, nós somos pó! Estamos sujeitos às leis da poeira. E nenhuma medida do nosso sofrimento é bastante para nos fazer sentir para sempre a dor geral. Espera aí, tenho que respirar, estou a chegar ao fim, falta-me apenas o prefácio. A edição é da Sextante Editora, tradução directamente do russo de António Pescada. Incompleta relativamente ao original, diz-se.

Tinha que desopilar e segui para o século XVI: Ele, Thomas Cromwell, é um bom pretexto. Seguimo-lo em Wolf Hall, caminhamos agora a seu lado em “O Livro Negro”. “Falcões. Wiltshire, setembro de 1535”, escreve à partida Hilary Mantel. Resolvemos a questão não a levantando. E seguimos viagem (página 253 neste preciso momento).

Um fartote de tempo. Banda sonora: álbuns dos The Cure (“Faith” e mais alguns antigos a dar com a chuva). “Virus meadow” (não foi propositado), dos And also the trees. The Felt (qual?). Uma pen antiga a rolar: vários. ANTENA 3, RUM. Acasos. Jornais no ecrã. Ao que nós chegamos. 

E filmes? Filmes ou cinema? Como assim?
Foi um prazer revisitar “Blade Runner” de Ridley Scott. Rever Rutger Hauer, por exemplo: I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Mais chuva. Lágrimas. Coisas nunca vistas. Tive que sair dali a correr, mas só depois de acabar o filme. E depois? “Promessas Perigosas”, ou melhor, “Eastern Promises”, de David Cronenberg. Mais chuva. Máfia russa – a sério? Um filme que nos ensina a não brincar às tatuagens e andar por aí a mostrá-las em banhos públicos. O poder dos símbolos é tramado. E por fim (outros não chegaram a secar no meu cérebro), o mais surpreendente: “Split” (Fragmentado, até lhe fica bem) daquele gajo de A Vila e do Sexto Sentido, M. Night Shyamalan, com um James McAvoy em grande, e não é o único. Diz que é um psychological horror thriller film, mas talvez seja um pouco mais de que isso. No fim, e após apurada pesquisa durante o sono, ficamos a saber que (supostamente) faz parte de uma trilogia. Apenas vi o Fragmentado.  
Agora vou lanchar e depois quem sabe tirar um Tarkovski do armário. 

março 20, 2018

Perder teorias*


(The Velvet Urderground & Nico, 1966)

Se, por exemplo, “There she goes again” é um produto (vamos assim chamar-lhe) do seu tempo e de uma geografia musical que viajava entre as ilhas britânicas, cruzando o Atlântico (não necessariamente por esta ordem), até respirar melhor junto ao Pacífico numa cavalgada de novos pioneiros; “Venus in furs”, por outro lado, sempre me pareceu sem prazo de validade, projectando-se no tempo e no espaço, sem necessidade de bater à porta dos herdeiros ou da memória. É claro que, se calhar, “Sunday Morning” (embora aqui também se consiga – muitos anos depois é sempre mais fácil – proceder a uma localização temporal ) ou “Heroin” também sejam bons exemplos da projecção e influência da música dos Velvet Underground nas décadas e gerações seguintes, mas (e) também por isso mesmo, mais palpáveis, imediatas e (agora fala o meu ouvido), mais cansadas de tanto batidas. Não falo sequer (de propósito) das cantadas pela Nico, pois logo sobrevoam imagens de pistas de dança em Viana, Braga, Barcelos, com bolinhas de cores projectadas no dancing nocturno ou na matinée de todos nós. São lindas e é tudo. É claro que, se quisermos, “The Black Angel’s death song” e (sobretudo) “European Song”, são o anúncio (não confundir com prenúncio) da nova era (uf, o que ainda tivemos que esperar) do noise e da distorção, Spaceman 3, para não me espetar agora com os (intelectuais) Sonic  Youth, vieram para nos salvar, e o silêncio nunca mais foi igual. Quer dizer, as juventudes sónicas, as paisagens da distorção dos oitentas, noventas e por aí fora, lá se foram lambuzar, é certo, mas nestes temas (o sr. Cale está bem presente em ambos), temos o docinho da estranheza, da libertação, tudo muito lá para o fim, como se fosse a travessura radical para os meninos se divertirem. Em “Venus in furs”, de acordo com o meu ouvido e experiência psicomotora musical, já lá está tudo, deixando ainda espaço para uma quantidade enorme de coisas que, não estando, acabarão (com o tempo)  por estar, porque anunciam, projectam, desbravam tanto caminho que depois a catana fica em suspenso, danada, pelo pouco trabalho que tem de realizar. Os Velvet Underground são o primeiro projecto artístico pós-moderno e Andy Warhol (que ainda recentemente se passeava por Braga na pele de um sósia cagadinho) é o pai, ou o tio, da cultura pop, seja lá isso o que for. Talvez esse “pop” afinal se sobreponha a Venus in Furs. Ou não. Agora vou ver se o chão da cozinha já secou…


* título sacado de um livro de Vila-Matas, talvez o único do autor que não acabei. Espera aí, foi esse e aquele outro do Kassel não convida não sei a quê, escrito após uma cena qualquer pós-moderna. Isto anda tudo ligado por correntes ínfimas. Não?

fevereiro 06, 2018

From a whisper to a scream

Após um compromisso madrugador de trabalho, fui arejar à biblioteca (a propósito, já cá canta “A Flor e a Foice”, de Rentes de Carvalho). Chegado a casa, antes de (mais) um compromisso com a vassoura, deu-me para escolher um disquinho para animar. Não sei porquê fui desaguar a uns Cds perdidos dos The Mission. Não ouço os Mission há séculos, penso até que é necessário um verdadeiro espírito de missão para os conseguir escutar. Mas o mais importante é não renunciar a nada, muito menos às origens. Caso apeteça, obviamente. Apeteceu-me.


Quando era puto, recebia com a religiosidade de um relógio que nunca usei, um disco em vinil, ao final da tarde do dia 24 de Dezembro. As prendas já estariam compradas, mas ao final da tarde, já em família, passávamos numa loja de discos (há muito desaparecida), sita à Rua Direita, em Barcelos. Uma dessas vezes, caiu-me no aperitivo o álbum “Children” (1988) dos The Mission, uma banda cujo vocalista tinha sido guitarrista dos Sisters Of Mercy (que entretanto vestem de amarelo). A primeira faixa do lado A do disco chamava-se “Beyond the Pale”. Tinha sete minutos e quarenta e nove segundos. Devo-os ter contado nessa e noutras noites. E isso basta. 

janeiro 30, 2018

Um mosquito no inverno


Estava para ali a fazer umas limpezas e a pensar na morte da bezerra, decidindo-me por meter um CD dos Jesus And Mary Chain,  “Barbed Wire Kisses” (um B-sides and more), comprado sabe lá onde Judas perdeu as botas, há muito tempo atrás (é verdade), quando nisto passa o “psycho candy”.


Eu que bebia copos de absinto (desculpa lá Cesário), perdão, eu que estava a pensar em escrever qualquer coisa sobre os Jesus, a importância do seu primeiro álbum, intitulado Psycocandy (1985), do qual não faz parte o tema psycho candy, quer dizer, ia escrever sobre aqueles anos oitenta, a Escócia, East Kilbride, a sua cidade de origem, uma das New Tows criadas no final dos anos quarenta, fazendo parte da grande conurbação urbana de Glasgow, patatipatá, aquela coisa da transição pós-industrial (ainda devedora da revolução industrial), sabemos que os irmão Reid trabalharam numa fábrica, entre cervejas, e a sua importância na música destes.

Pensava em tudo isso que iria escrever, quando de repente (passava a música), comecei a sentir a ascensão irremediável das lavas do subconsciente, não a ascensão irremediável das lavas do sobreconsciente (isso, sabemos, leva à loucura), de que nos fala Vila-Matas logo no início da sua “História Abreviada da Literatura Portátil”, não, era o subconsciente a fazer das suas, juntamente com a memória mais recôndita, e dei por mim a dançar, o sol entrava todo por ali dentro e eu dançava. Foi então que um mosquito me deve ter entrado no olho, humedecendo-o ligeiramente. Mosquitos em Janeiro? – pensei. Isto anda tudo tolo. E fui ouvir o “sidewalking” que já estava a passar no tijolo da cozinha.  

janeiro 24, 2018

at the heart of it all


O novo genérico do Inútil, saído dos cartapácios da memória, emergiu graças a cortesia de mão amiga (para não dizer outra coisa), num pacote com os álbuns  the downward spiralfurther down the spiral.

Este tema (at the heart of it all) produzido e realizado a meias com Aphez Twin, não fazia parte do álbum the downward spiral, saído no ano anterior (1994), e do qual further down the spiral emana como irmão em universo, com algumas versões (mas não só) do anterior.

Ambos parte da minha (se bem me lembro) vida de adolescente universitário, algures perdidos em cassetes e viagens de carro com um amigo agora distante. Ele bem os escutava (à época) bradando o desconstrutivismo da coisa. Apenas  após  lançamento de with teeth comecei (acho) a prestar a atenção devida aos NIN. Tenho dois pins que engalanam uma ou outra lapela que o provam.

junho 19, 2013

Prosa de cortar à faca


Os raios brancos jorram dum tinido de bainhas, a porta roda nos gonzos e o homem aparece, lívido, entre duas manchas negras. Calvo, de crânio polido, cara barbeada, os cantos da boca metidos para dentro como os dos velhos dos asilos, a camisa largamente cortada, um casaco escuro sobre os ombros, ele caminha afoitamente; e os seus olhos vivos, inquietos, perscrutadores, percorrem todas as caras; o seu rosto volta-se para todos os rostos com um movimento compósito que parece feito de mil tremores. Os seus lábios estão agitados; dir-se-ia que murmuram: «A guilhotina! A guilhotina!» Depois, cabeça inclinada, o olhar penetrante fixado a direito na linha da báscula, ele avança como um animal que puxa a charrua. De súbito, choca com a prancha e da sua garganta eleva-se uma voz fina, acre, como um tilintar rachado, com uma nota alta, aguda, sobre a palavra assassino duas vezes repetida.
Um batimento surdo; uma manga de sobrecasaca com a marca branca da mão sobre o prumo esquerdo da guilhotina; um choque delicado; um movimento de pessoas para a fonte sangrenta que deve jorrar; a cesta escura e luzidia atirada para dentro de um dos vagões; trinta segundos para tudo isto desde a porta da prisão.  

“Instantes”, in Coração Duplo, vol.2. Marcel Schwob. Tradução de Raúl Henriques. Cavalo de Ferro. 

dezembro 06, 2009

fevereiro 19, 2009

junto ao osso

A minha camisola de manga curta nova

Depois lembrei-me que os Smiths até têm uma música (creio que se chama "That Joke isn’t Funny Anymore") em que o Morrisey canta com indolência a queda, a sua e a dos outros. Ele viu-os. Por isso já nem é anedota e por certo não terá piada pois é demasiado perto de casa (lar) e junto ao osso. Ia a pensar nisto quando me ocorreu que já tinha pão em casa, logo não precisava de ir à padaria, e que todos estes pensamentos, afinal, me recordavam outras caminhadas sem norte que as valha. Decidi continuar quando reparei que a minha t-shirt nova (que não largo há 3 dias) se enquadrava bem neste passeio labiríntico que é a vida. Pensei em Sebald, nas suas intermináveis caminhadas, nos seus medos e nos encontros e desencontros da sua escrita. Mais uma encruzilhada e de repente tudo coincide num ponto. Chegado a casa optei por adiar a sandes estratosférica que ando a congeminar, devidamente encaixada numa base de dados de sandes que estou a criar e a compilar para quando concretizar o sonho de ter uma roulote de comes e bebes com música e biblioteca chamada “Andanças com Heródoto e Borges” (o nome é roubado). Dizia eu que adiei a sandes e abri um livro e li: Para onde vão eles, os mortos de Buenos Aires e São Paulo, da Cidade do México, Lagos e Cairo, de Tóquio, Xangai e Bombaim? Um mínimo, talvez para a cova fria. E quem se lembra deles, quem se há-de lembrar? Recordar, guardar e conservar, escreveu Pierre Berteax já há 30 anos sobre a mutação da humanidade, só teve uma importância vital num tempo em que a densidade da população era baixa, poucos os produtos que fabricávamos e só o espaço era abundante. Não se podia prescindir de ninguém, mesmo depois de morto
Isto escreveu-o W.G. Sebald num texto denominado Campo Santo, que faz parte de uma compilação homónima editada pelo teorema. Decidi voltar à confecção da sandes. 

outubro 18, 2008

setembro 21, 2008

Das minhas cassetes: recordam-se?



The Cure: A strange day, LP "Pornography"(1982)

Em final de noite uma recordação, a anunciar o Outono que amarra inexoravelmente os nossos dias numa melancolia de cores únicas, com castanhas, dióspiros e folhas caídas, após um tinto alentejano suave. Aqui ao vivo, mas absolutamente actual?...