Mostrando postagens com marcador 25 de Abril. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 25 de Abril. Mostrar todas as postagens

abril 25, 2014

O que o mar não quer




No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

Ruy Belo, "Morte ao meio-dia"

[boom]

abril 25, 2012

25 de Abril: nós oferecemos um (I)


Recentemente num autocarro urbano de Braga podia-se observar, numa caixinha azul junto ao motorista, um letreiro onde dizia: leia, nós oferecemos o livro, ou qualquer coisa parecida. Não cheguei a meter a mão na caixinha, absorvido que fui pelo generoso enlatado do autocarro, até bem ao fundo, como deve ser. Reflectindo, não pude deixar de pensar nesta coisa moderna de meter o livro pelas goelas abaixo dos mais (ou menos) incautos, numa espécie de exaltação efémera, ou evacuar de consciência, em contraste(?) com a vontade indómita dos funcionários (e manda-chuvas) camarários do Porto no despejo da escola (Es.Col.A.) da Fontinha, arremessando com sentido gosto livros (entre outros) pelas janelas.

Recordei-me, quase logo, de Baudrillard no seu livro “A sociedade de consumo*”, quando este se refere à cultura, a caminho (gradualmente) de perder a sua substância de sentido, comparando-a com a natureza, assegurando que nunca se glorificou tanto esta última como depois de estar destruída por todos os lados.



*A edição original é de 1970.

Imagem